Tragédia familiar inspira o documentário "Diário de Uma Busca"

Diretora Flavia Castro investiga morte misteriosa do pai e revela infância no exílio durante ditadura militar; leia entrevista

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

"É uma história esquisita de contar", admite Joca, irmão da diretora Flavia Castro, em cena do documentário "Diário de Uma Busca" . E deve ser mesmo. Ex-militante de esquerda e exilado durante o regime militar, o pai da cineasta morreu em circunstâncias misteriosas ao invadir um apartamento em Porto Alegre, na década de 1980. A versão oficial da polícia era de que se tratava de uma tentativa de assalto seguida de suícidio. O imóvel, no entanto, pertencia a um ex-oficial nazista. Em cartaz em circuito limitado no país, o filme tenta recuperar esse caso misterioso, ao mesmo tempo em que mergulha no conturbado passado político da América Latina. Tudo em primeira pessoa, em tom confessional.

Flavia nasceu no Brasil, mas teve uma infância migrante em função do engajamento dos pais, integrantes do POC (Partido Operário Comunista), que mais tarde evoluiu para a luta armada. Do Rio Grande do Sul, a família passou pelo Chile, Argentina e nos anos 1970 fugiu para a França. Com a anistia, a então garota passou um breve período no Rio de Janeiro, quando fez o figurino de "Luzia Homem" (87), de Fábio Barreto, mas logo voltou para Paris, onde cursou faculdade de cinema e passou a trabalhar com documentaristas importantes, como o suíço Richard Dindo (“Diário de Che na Bolívia”) e Philippe Grandrieux.

A inspiração para "Diário de uma Busca" surgiu em 2000, época em que a diretora voltou a morar no Brasil, nas conversas com o irmão. "A gente falava muito das circunstâncias da morte do meu pai [Celso Afonso Gay de Castro], da vontade de entender melhor o que tinha acontecido", contou a diretora ao iG . "Mas quando comecei a escrever, rapidamente fui ganha pela vida, pela vontade de falar da nossa trajetória. Aos poucos, também fui percebendo que queria falar da minha infância como filha de militante, e o que isso tinha de especial."

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Cena do filme "Diário de uma Busca"
Com dinheiro do próprio bolso, Flavia fez uma primeira filmagem na capital gaúcha em 2002, o pontapé inicial de tudo. Depois, o projeto ganhou um prêmio de desenvolvimento de roteiro na França, o que possibilitou que a cineasta trabalhasse profundamente na estrutura do filme e em sua curva dramática. Foi aí que surgiram os textos em off e a ideia dela mesma fazer a narração. "É uma das coisas que ajuda a contar história de um jeito diferente, que faz com que o documentário se torne quase uma ficção, fique nessa fronteira. É tudo verdade, mas estruturado como uma ficção."

As investigações sobre a morte do pai, registradas em entrevistas com policiais, jornalistas e médicos legistas, ajudam a deixar o espectador instigado, mas a fórmula é bem mais complexa do que uma simples trama de detetive. Há ainda as cartas de Celso, depoimentos de militantes que conviveram com a família e o resgate dos locais em que eles viveram, assim como da rotina de uma criança inserida nesse universo – pais com nomes secretos, reuniões e mais reuniões clandestinas, o refúgio nas embaixadas. Flavia e os parentes aparecem desnudos, com a intimidade impressa na tela.

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A diretora Flavia Castro e o irmão, Joca, em foto da infância, utilizada no documentário
Identificação com as novas gerações

As filmagens foram rápidas, em torno de quatro semanas, passando por cidades do Brasil, Chile, Argentina, Venezuela e França. O demorado, segundo a diretora, foi a montagem. Com orçamento restrito, ela mesma se debruçou sobre as 120 horas de material e editou tudo em seu laptop. "Foi uma epopeia, uma etapa muito longa e solitária", disse, sobre os três anos até que o filme estivesse concluído, em 2010.

"Nem é bom falar isso, mas a falta de dinheiro que fez com que levasse tanto tempo, no final das contas, foi boa para o filme. Se tivesse feito rápido não teria colocado, por exemplo, a camada do meu irmão, que não estava no roteiro. Acho que o filme ganha muito com isso. Joca é o metafilme, me questiona o tempo todo, discute o filme no próprio filme. Não aparece muito, mas é uma presença marcante. O público se identifica muito com ele e nos debates, isso fica claro."

Desde junho em cartaz em Paris, "Diário de Uma Busca" foi eleito melhor documentário no Festival de Biarritz, melhor filme em Punta Del Este e também premiado em Gramado e no Rio . Conforme a diretora, as surpresas começaram em Gramado, quando recebeu o troféu do júri estudantil. "Não sabia se o filme ia se comunicar com pessoas tão jovens, que não tinham nada a ver com essa história. Nas viagens, fui vendo que, na verdade, ele toca pessoas muito diferentes, e não só a geração que viveu aquela época. Acho que o fato de eu me expor tanto faz com que as pessoas venham falar comigo sobre seus pais, seus irmãos, e não de política."

No momento, Flavia Castro já está envolvida com outro projeto, uma nova coprodução com a França. Com filmagens previstas no Brasil e no exterior, "A Memória é um Músculo da Imaginação" tem um roteiro ficcional. "Escrevi durante a montagem, como uma forma de controlar tudo. O documentário é delicado o tempo todo, envolve questões éticas, quem você está expondo... Queria de novo essa liberdade como roteirista. É uma ficção que tem muito da minha vida, de alguma forma, mas que vou longe, me permito ir para outro lugar."

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