"Trabalhar com Malick mudou minha vida", afirma Daniel Rezende

Em entrevista ao iG, montador brasileiro fala da experiência em "A Árvore da Vida", de "360" e da expectativa para "Robocop"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
"A Árvore da Vida", de Terrence Malick: reflexão sobre a vida e a morte
Aguardado com ansiedade há anos, "Árvore da Vida" , novo filme do diretor americano Terrence Malick, venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes 2011 e teve grande receptividade da crítica, apesar de ter recebido algumas vaias em sua primeira exibição. Recluso, o cineasta se recusa a divulgar seus trabalhos ou conceder entrevistas. Até mesmo fotos são raras. Por conta disso, ganhou fama de ermitão. Quem trabalha com ele, como o astro Brad Pitt, fala que não é nada disso. O montador brasileiro Daniel Rezende, que está na equipe do filme, concorda e afirma: "trabalhar com Malick mudou minha vida".

Embora seus maiores sucessos sejam no Brasil ("Diários de Motocicleta", "Tropa de Elite 1 e 2"), Rezende ganhou projeção internacional depois da indicação ao Oscar por "Cidade de Deus", em 2003. No mesmo ano, conheceu Malick num jantar em Los Angeles, através de Fernando Meirelles. Na época, Malick andava às voltas com a cinebiografia de Che Guevara, que depois acabou nas mãos de Steven Soderbergh. Ficaram amigos e quase trabalharam juntos logo depois.

"Terry me convidou para fazer um último corte no seu filme anterior, 'O Novo Mundo' [2005], mas acabou não acontecendo", conta Rezende em entrevista ao iG . Mesmo assim, um ano antes das filmagens de "A Árvore da Vida", em 2008, já estava escalado.

O editor viajou a Austin, no Texas, para trabalhar no filme e integrou a equipe de montagem ao lado de outros cinco profissionais, entre eles Billy Weber, que colabora com Malick desde seu segundo filme, "Cinzas no Paraíso" (1978). Isso que não quer dizer, no entanto, que todos estivessem juntos ao mesmo tempo. "O processo de edição do filme durou quase dois anos. Os montadores entram e saem do projeto e podem fazer uma parte que o anterior não havia trabalhado, ou continuar montando sobre o trabalho do antecessor."

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O brasileiro Daniel Rezende: Terrence Malick prima pelos "imprevistos" em seus filmes
Segundo Rezende, essa rotina particular está ligada ao processo de criação do diretor, mais interessado em explorar imprevistos e erros do que seguir exatamente o que estava programado. "Isso está muito presente em sua maneira de filmar e, de alguma forma, nesse processo único de montagem. O fato de ele querer vários montadores e de que nenhum deles tenha exatamente o controle total sobre a obra é a maneira que ele encontrou, desde 'Além da Linha Vermelha' [1998], para que algo não premeditado surja durante o trabalho e seja, assim, incorporado."

Curioso para assistir à versão final de "Árvore da Vida", que estreia no Brasil em 24 de junho, Rezende não economiza elogios a Malick, que, apesar de ter iniciado a carreira na década de 1960, até hoje só produziu cinco longas-metragens – o primeiro deles, "Terra de Ninguém", em 1973. O montador afirma que o cineasta, descrito como "carinhoso" e "preservado", tem uma visão única sobre cinema, responsável por transformar o modo como encarava o trabalho.

"[Malick] me fez perceber o quanto ficamos automáticos em tudo que fazemos na vida. Ele não estava interessado na maneira em que eu cortava uma cena normalmente. Dizia que sabia que eu faria isso bem, mas que queria ver o que eu não faria, isso o interessava. Parece simples, mas é justamente essa simples ideia que me causou uma reversão de expectativa tremenda, que me fez repensar desde as grandes decisões da minha vida até as coisas mais banais do dia-a-dia."

Meirelles e Robocop

Um dos montadores mais requisitados do país, Daniel Rezende já tem diversos projetos engatilhados. O próximo será "360", novo filme de Fernando Meirelles, com Rachel Weiz e Jude Law no elenco. As filmagens foram encerradas na última semana, na Europa, e o trabalho de edição está uma ou duas semanas atrasado em relação às últimas cenas rodadas. Escrita por Peter Morgan (“A Rainha”, “Frost/Nixon”), a história é uma adaptação da peça "Reigen", do autor austríaco Arthur Schnitzler.

Reprodução
Rachel Weisz e Jude Law gravam cena de "360" em Londres
"Esse filme representa um desafio enorme porque é falado em sete línguas", explica Rezende. "Tem coisas que tenho que pedir ajuda, chamar um tradutor. Em português e inglês, tudo bem. Quando passa para o francês, dificulta. Quando muda de russo pra eslovaco, aí sim complica", brinca. Segundo ele, em meados de junho "360" deve ganhar uma primeira versão, prevendo o lançamento para final do ano.

Enquanto não estreia na direção – já dirigiu dois curtas e estuda seu primeiro longa –, Rezende também trabalhou em três episódios que vão compor o novo filme produzido pela Mostra Internacional de São Paulo, "Mundo Invisível". O brasileiro editou os curtas de Atom Egoyan ("O Doce Amanhã"), Theo Angelopoulos ("Paisagem na Neblina") e, seu favorito, do alemão Wim Wenders . "Tive o prazer de estar com ele fazendo o curta em São Paulo. Foi uma experiência incrível e ele saiu daqui muito satisfeito."

Ele ainda está cotado para a refilmagem de "Robocop", primeiro trabalho de José Padilha em Hollywood . Apesar do diretor de "Tropa de Elite" já ter assinado contrato com a MGM e estar desenvolvendo o projeto, Rezende mantém o pé atrás. "Só conto com esses projetos gringos quando se tornam verdade absoluta. Por enquanto, ainda estão trabalhando no roteiro, na concepção de personagens."

Mesmo assim, a expectativa para o filme é grande. "Refazer o 'Robocop' deve ser uma das coisas mais legais do mundo, ainda mais com o Padilha. Ele vai poder fazer o que gosta, que é falar das grandes corporações, dos governos, vasculhar e mostrar como funcionam os bastidores."

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