"Trabalhar Cansa" constrói suspense peculiar

Exibido em Cannes, longa de estreia de Marco Dutra e Juliana Rojas leva a Paulínia história perturbadora sobre mundo do trabalho

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

Na reta final do Paulínia Festival de Cinema 2011, ficaram para trás os projetos comerciais e abriu-se espaço ao cinema autoral. Na noite de terça-feira (12), penúltimo dia da competição, subiram ao palco do Theatro Municipal da cidade os diretores Juliana Rojas e Marco Dutra , que representaram o Brasil em Cannes com "Trabalhar Cansa", único filme do país na seleção oficial, a mostra paralela "Um Certo Olhar".

Leia entrevista com os diretores em Paulínia

A dupla, que trabalha junta desde a época da faculdade, já havia participado duas vezes do festival francês com seus curtas, um deles o premiado "Um Ramo". "Trabalhar Cansa", longa de estreia dos dois, compartilha não só os atores principais do curta – Helena Albergaria e Marat Descartes –, mas também o espírito intrigante e desconfortável do filme anterior.

Helena interpreta a personagem homônima, uma dona de casa ansiosa para abrir o próprio negócio, um mercado de bairro. A demissão do marido, Otávio (Descartes), quase frustra seus planos, mas ela decide assumir os riscos e seguir em frente com o aluguel do imóvel. Nisso, contrata a doméstica Paula (Naloana Lima) para cuidar da casa e da filha.

O conflito básico do roteiro gira em torno das relações de trabalho. A empregada e os funcionários do mercadinho servem como exemplos da prepotência dos empregadores, do preconceito e de uma aparente necessidade de demonstrar poder. Soa cruel, mas as situações triviais do filme são um arquétipo do que se vê no dia a dia.

Já a jornada de Otávio na busca por um emprego tece um comentário ao mundo corporativo, aquele das entrevistas surreais com psicólogas, das agências de RH e de como vencer na competição no mercado de trabalho. A abordagem é seca e serve perfeitamente para evidenciar o absurdo das técnicas e da mentalidade do empresariado moderno – daí o humor surge naturalmente.

Um humor nervoso, característica latente em "Trabalhar Cansa" e com força no arco sobrenatural, digamos, da história. Helena pressente coisas estranhas em sua loja – portas abrem sozinhas, cachorros latem furiosos, mercadorias somem – e vai construindo a tensão rumo ao desfecho. No lugar da fantasmagoria, a opção é pela estranheza, próxima da podridão, farta em ícones – larvas, chorume, sangue, mofo.

Rojas e Dutra encontraram um parentesco entre o suspense, o medo e o asco, mas de forma comedida, que não choca em nenhum momento. O sentimento que prevalece é de desconforto, apreensão, que se divide de formas distintas nas tramas paralelas.

A obviedade passa ao largo do filme, por mais próximas da realidade que sejam as situações do lado social de "Trabalhar Cansa". Parte disso se deve à força do elenco, verdadeiro, mas também pelo modo particular como a narrativa é conduzida. O espectador navega em ondas pelos altos e baixos da história na ânsia de extravasar sua inquietação constante. Consegue saciá-la apenas em parte, e está aí parte do brilho do filme. Um resultado desse nível só aumenta o apetite pelo próximo projeto da dupla de diretores, agora sim, acredita-se, um terror de verdade.null

* O repórter viajou a convite do festival

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