Tony Ramos: "Não sou de ficar em cima do muro"

Em entrevista exclusiva ao iG, o ator não renega a fama de bom moço, mas mostra personalidade ao falar de política

Valmir Moratelli, enviado especial a Olinda (PE) |

Não dá pra negar que Tony Ramos, um dos mais queridos atores brasileiros, tem um potente toque de Midas. O cara só faz sucesso. E exemplos não faltam. Nas últimas semanas, por exemplo, seu toque de Midas está apontado para o longa “Chico Xavier”, que já se aproxima dos 3 milhões de espectadores. No filme, Tony encarna um diretor de TV atormentado pela perda do filho – e sua atuação está sendo mais uma vez elogiada por público e crítica.

Mas o nome de Tony Ramos associado ao sucesso já não surpreende os brasileiros. O que impressiona no ator, na verdade, é que ele, apesar do currículo que até o credenciaria para se portar como celebridade, se mantenha com uma postura sem qualquer resquício de estrelismo, um artista humilde, boa-praça de carteirinha, incapaz de se incomodar com o assédio, até mesmo quando vem dos paparazzi mais inconvenientes. “Não vou levantar o dedo e fazer gestos obscenos por nada”, disse ao iG .

Na entrevista que se segue, no entanto, Tony Ramos mostra sua faceta mais desconhecida do grande público e deixa claro que, quando o assunto é sério, sua doçura dá lugar à veemência. “Não sou daqueles que fica em cima do muro”, avisa. Leia abaixo a conversa que o ator teve com a reportagem do iG , em Recife, onde foi homenageado no Festival Cine Fest PE pelos seus 46 anos de carreira.

Divulgação
Tony Ramos recebeu o troféu Calunga de Ouro, pelo extenso trabalho na televisão e no cinema

iG: Que balanço faz desses quase 46 anos de carreira?
Tony: Sou feliz por ser um artista popular. Claro que há aqueles que não querem isso, mas quando você é reconhecimento popularmente em todas as camadas sociais, é uma dádiva. Nunca encarei isso como uma coisa depreciativa. Entendo que o artista popular é o que mais se aproxima do seu povo, sem pedantismos.

iG: Você se vê como uma “celebridade”?
Tony: Não quero ser tratado como “celebridade”, e coloque aspas aí. Nunca me vi como celebridade, aliás. Minha brincadeira com esta palavra é que celebridade é um célebre com idade. Einsten, Tom Jobim, Gandhi são célebres. Hoje o público já usa esta palavra como algo pejorativo. Tipo “lá vem a celebridade”...

iG: Como lida com a falta de privacidade, comum à profissão do ator?
Tony: Se um fotógrafo desses, lamentavelmente, me pega mordendo uma empada, com a boca cheia de farofa, e se ele fica feliz por isso, ok. Minha privacidade é dentro de casa. E neste lugar, a imprensa nunca entrou. É para minha família e meus amigos. É um acordo tácito. Não vou ficar chateado com as fotos que fazem na rua, não vou levantar o dedo e fazer gestos obscenos por nada.

iG: É difícil imaginá-lo irritado, de mau humor. Existe um lado mau no Tony Ramos?
Tony: Veja bem. Posso explodir com qualquer ato de intolerância, soberba perante mim, preconceito ao ser humano. O pedantismo é uma atitude que me irrita. A ostentação burra é oura coisa que me irrita. Agora, sou retraído, centrado... mas não tímido! Sou o cara que conta as piadas mais indescritíveis que você pode imaginar. Não sou da noite, prefiro contar anedotas e receber amigos em casa. Mas no dia que me agredirem com atos covardes, não tenha dúvida de que saberei responder com a veemência que eu sei que tenho.

iG: Você não costuma falar publicamente sobre política e de políticos. Por quê?
Tony: Gosto de ser um artista independente no sentido da minha opinião pública. Nunca usei do meu nome para campanhas individualizadas. Só subi nos palanques na época das “Diretas Já”. Não manifesto publicamente meu voto, porque não gosto de induzir meu público. Meu sonho é ver crianças ocupadas na escola das 7h30 às quatro da tarde, ver crianças assistidas desta forma.

iG: Não teme ser acusado de estar “em cima do muro”?
Tony: Não, porque aí posso chamar os acusadores de preconceituosos e patrulheiros de última hora. Estou falando de política com você. Não dependo de partidos ou pessoas. Tudo que está à nossa volta é da “polis”, que envolve política. Vou votar em alguém, mas não quero falar em quem vou votar. Não queimo meu voto nunca! Já votei em Mario Covas, no senhor Lula em algumas vezes. E daí? Já votei em José Serra, em Eduardo Suplicy. Não sou um homem com camisa partidária. Não quero saber de Olimpíada e Copa do Mundo, sem antes pensar em criança na escola.

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Tony acompanhado da mulher, Lidiane

iG: Você se sente mais à direita ou à esquerda?
Tony: É claro que não sou de direita como também não sou um extremo esquerdista. E é claro que não sou daqueles que ficam em cima do muro. Esta eterna mania de se discutir política no mundo não me agrada. Neste sentido, sou meio anarquista. Sou um homem da liberdade poética, que defende a importância do individuo para receber todo tipo de assistência que o Estado possa oferecer, mas que também saiba usufruir sua livre iniciativa para seu quinhão.

iG: O maior patrocinador da cultura brasileira é o setor público. Como você analisa isso?
Tony: Você tem empresas públicas que ganham muito dinheiro, como a Petrobras, que investem em sua melhoria, em setores internos, em infraestrutura... É uma das grandes empresas do mundo. É, portanto, dever dela investir em cultura, não é um favor que ela faz.

iG: Mas não é perigoso ter a cultura dependente do dinheiro público?
Tony: Concordo que falta oferecer à cabeça dos homens de empresas privadas a consciência de que é importante associar suas marcas a eventos culturais.

iG: Até pra você é difícil produzir teatro no Brasil?
Já fiz peça na qual tive que levar coisas de casa para compor o cenário. Há uma deformação de mercado. Muitos donos de teatro perguntam: “Mas você tem patrocínio?”. É muito chato isso.


* O repórter viajou a convite da organização do Festival.

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