"Tenho muita sorte", diz o astro argentino Ricardo Darín

Ator está em São Paulo para homenagem na Mostra Cinema e Direitos Humanos

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

AE
Ricardo Darín durante entrevista na Cinemateca Brasileira, em São Paulo
Quando se pensa em cinema argentino, o rosto dele automaticamente aparece. "Nove Rainhas", "O Filho da Noiva", "Clube da Lua", "XXY", o oscarizado "O Segredo dos Seus Olhos"... A lista é grande. Ricardo Darín, 53 anos, se tornou sinônimo dos filmes produzidos no país vizinho, uma espécie de embaixador, mesmo que involuntário. No Brasil como homenageado da 5ª Mostra Cinema e Direitos Humanos na América do Sul, Darín vai conversar neste sábado (20) com o público sobre "Abutres", que tem estreia nacional em dezembro. Sobre o sucesso, o ator assume postura humilde e desconversa: é pura sorte.

"Encontrei gente disposta a confiar em mim", disse à imprensa na tarde de hoje, em São Paulo. "Sou muito covarde. Eles estenderam a mão e me fizeram ir para frente, encarar novos desafios". Antes de aceitar um projeto, Darín conta que o roteiro precisa pegá-lo pelo "estômago" – ele nem se importa com a experiência do diretor, tanto que gosta de trabalhar com estreantes. A fama de galã, mais uma vez, é atribuída à sorte. "Com esse nariz e esses dentes, se não fossem os olhos duvido que me perguntassem isso", afirmou, rindo. "Estou numa posição privilegiada, que podia ser de outros colegas, até mais merecedores do que eu."

Filho de atores, começou a trabalhar cedo, no rádio e televisão. Pela origem artística, garante ter superado tabus comuns da profissão: nunca teve medo do ridículo e não recusava trabalho algum. "Não pensava se ia ter prestígio ou não, aceitava todos com muita alegria por saber como é ser de uma família de atores, sem estabilidade financeira."

O reconhecimento no cinema teve início através do policial "Nove Rainhas" (2000), de Fabián Bielinsky, e de "O Filho do Noiva" (2001), indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Curiosamente, foi só depois que os longas estouraram na Espanha é que os argentinos passaram a dar bola para Darín. "Precisamos primeiro de respaldo lá fora para sermos aceitos. É uma coisa que precisava ser estudada mais a fundo, é assim que acontece."

O atual momento do cinema argentino, afirmou, permite que se sonhe num "grande futuro", embora prefira apostar numa maior integração dos países latino-americanos. Para Darín, a forma como se conta histórias no continente tem ganhado fama mundial por manter uma identidade incomum, uma mistura de sensibilidade e bom humor, que, defendeu, foi o diferencial para "O Segredo de Seus Olhos" ter ganho o Oscar este ano. "Há algo que de alguma maneira nos identifica, que é o humor, a vocação de rir de nós mesmos, uma ingenuidade por sermos países jovens em termos democráticos."

Ao falar em coproduções, comentou que gostaria muito de filmar com Walter Salles, tanto que há tempos tenta viabilizar um projeto do diretor brasileiro. Lamentou, inclusive, não poder assistir a mais filmes produzidos aqui. "Consumíamos muito cinema brasileiro. 'Dona Flor e seus Dois Maridos' [1976, de Bruno Barreto] causou uma polêmica enorme na Argentina. Uma pena que não chegue muita coisa hoje, por caprichos das distribuidoras, são elas que têm o poder nas mãos."

Divulgação
Ricardo Darín e Martina Gusmán em "Abutres"
Em "Abutres", representante argentino no Oscar 2011, o personagem de Darín vive de explorar vítimas de acidentes de trânsito na grande Buenos Aires. Em parceria com a polícia e funcionários de hospitais, o advogado fica à espreita de colisões e atropelamentos para passar a conversa em pessoas humildes e ficar com a maior parte das rentosas indenizações. Muito por causa de Darín, o filme atingiu a marca de 700 mil espectadores na Argentina e pautou o assunto no Congresso – o governo argentino vai passar a regular o acesso de terceiros nesse tipo de ação.

"Isso nos encheu de orgulho, porque nunca foi nosso objetivo fazer um filme de denúncia, e sim contar uma história de amor", disse, em referência ao caso que o advogado tem com uma médica (Martina Gusmán). "Acredito que quanto mais natural formos, quando contamos algo com sinceridade, maior é a probabilidade de sermos entendidos e das pessoas, não importa o lugar, se identificarem conosco." O ator é só elogios ao diretor Pablo Trapero ("Leonera", "Do Outro Lado da Lei"). "Trapero é um homem que faz cinema e mergulha no que faz: mete o pés na lama, não tenta contar uma história de dentro de um escritório."

Impactante, "Abutres" é sério candidato a ser refilmado nos Estados Unidos, em meio à febre de remakes internacionais que assola Hollywood. Darín já passou pela experiência em 2004 com "171", versão norte-americana de "Nove Rainhas", e tem péssimas lembranças. "Demonstraram nem ter lido o roteiro original direito, cometeram erros imperdoáveis." A carreira internacional a princípio não lhe interessa e, se ao mesmo tempo o ator tem desejo e receio de trabalhar com Woody Allen – "amigos me falaram que ele não é muito agradável no set" –, não quer saber de Pedro Almodóvar. "Tenho meus motivos. Discuto muito, e Almodóvar também. Não ia dar certo."

Serviço – Ricardo Darín em São Paulo
Sábado (20/11), na Cinemateca Brasileira (Largo Sen. Raul Cardoso, 165)
17h: exibição de "Abutres"
19h: bate-papo com o ator Ricardo Darín
Entrada franca

Assista ao trailer de "Abutres":

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