Tarcísio Meira volta às telonas, 20 anos depois, com comédia canastrona

"Não se preocupe nada vai dar certo", que estreia sexta (5), é a primeira grande tentativa de se levar stand up para o cinema

Valmir Moratelli, iG Rio de Janeiro |

Divulgação
Tarcisio Meira é Ramon Velasco, um trambiqueiro em "Não se preocupe nada vai dar certo"

Tarcísio Meira é um ator acima de qualquer suspeita. A esta altura da vida, e lá se vão 75 anos sendo 54 de carreira, não precisa provar nada a ninguém. Por isso mesmo pode se dar o direito de embarcar em projetos dúbios, que nem de longe mereçam metade de seu talento.

Vinte e um anos depois da última aparição no cinema , com “Boca de Ouro”, ele volta na comédia “Não se preocupe nada vai dar certo”, de Hugo Carvana. É a bordo de uma Kombi colorida que seu personagem Ramon Velasco se mete em diversos trambiques. Seu filho Lalau (interpretado por Gregorio Duvivier) é contratado para representar um guru internacional em um workshop, e acaba sendo acusado de assassinato. Cabe a Ramon desvendar o crime, se passando por um embaixador e depois por advogado.

Stand up no cinema

Toda a história é narrada por Lalau, como se estivesse em um show de stand up comedy , com direito até a plateia de risos forçados. “Não se preocupe nada vai dar certo” é a primeira tentativa de se levar descaradamente o stand up, fenômeno que invadiu a TV e os bares do País, para as salas de cinema. Mas não funciona. O roteiro tem piadas velhas, desgastadas e sem a força do falso improviso das apresentações ao vivo.

Duvivier, um dos nomes do stand up nacional (ele se apresenta com "Z.É. - Zenas emprovisadas"; fez o seriado "Vendemos cadeiras", em reprise no Multishow; e esteve no "Junto & misturado", projeto de Bruno Mazzeo que a Globo não vai continuar a produzir por não agradar a classe C), mantém o tom durante o filme, apesar do roteiro preferir o excesso de narrativas em off.

Quando o filme já caminha para sua metade final, cabe valorizar o esforço de Tarcísio Meira que salva qualquer novela. Por que não seria igual nas telonas, não é mesmo? Ramon é um senhor que desperta a simpatia do público, não pelo roteiro recortado por uma narração pálida, mas por sua alegria meio riponga de ser. “Ator que renuncia ao risco deixa de ser ator”, diz Lalau, o filho. Em papel que nada lembra os galãs e vilões sisudos que imortalizou na teledramaturgia, Tarcisio sabe bem o que esta frase significa.

Galã da primeira novela da televisão brasileira, “2-5499 Ocupado”, de 1963, Tarcísio fez os primeiros meses de “Insensato Coração” , que vai chegando na reta final na TV Globo. Ator de primeiro escalão, disputado pelos autores, ele diz que quer, por ora, se distanciar um pouco do veículo que o projetou. O cinema aparece como opção natural. Após tanto tempo afastado das telonas, merecia um retorno mais digno de sua trajetória.

Participações de peso

E o filme segue, das paisagens naturais do Ceará ao Rio de Janeiro, com direito a exageradas cenas de merchandising de um hotel carioca. Duvivier, já como um guru oriental, diz: “Chorar é recurso safado de um ator para conquistar a plateia. E sempre funciona”. Mas o filme optou pelo riso... E quem tem uma quase vontade de chorar é o espectador, que não é estimulado pelas piadas.

Flavia Alessandra surge linda e bela, mas de maiô!, na piscina de um hotel. Ela é uma jornalista metida com falcatruas. Outra que embeleza a tela, Mariana Rios tem rápida participação, no começo e no final da trama, como a namorada abandonada por Lalau. Outros que fazem pontas são Herson Capri, como um empresário corrupto , e Ângela Vieira, como sua mulher, a assassinada da história. Ambos corretos.

Em um momento confortável às comédias brasileiras ( “Cilada.com” já ultrapassou a marca de 2,5 milhões de espectadores estando há três semanas em cartaz; “Qualquer gato vira-lata” passou a casa do milhão, em junho; “ De pernas pro ar ”, no ano passado, teve cerca de três milhões), “Não se preocupe nada vai dar certo” vem cumprir seu papel a partir desta sexta-feira, nos cinemas do País. A julgar pelos exemplos citados acima, o longa de Hugo Carvana deve agradar ao paladar deste público que se diverte com comédias insípidas.

O filme tem direito ainda a um clipe musical com todo o elenco, com trilha de Edu Lobo, efeito tão típico em filmes indianos. Notória é a brincadeira do personagem de Duvivier, em certo momento, quando vê o pai fazendo drama por nada. “Não canastreia, pai”. Sorte do filme que Tarcísio não dá ouvidos a isso. É o que salva a Kombi de realmente não ter nada para dar certo.

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