Tachado de "maldito", Itamar Assumpção é dissecado em filme

Documentário registra a figura radical e iconoclasta do músico, morto em 2003

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Os anos se passam e vários artistas da cultura brasileira, até mesmo depois de mortos, têm de continuar se defendendo do rótulo de "malditos". O Itaú Cultural vem ajudar a dissipar a classificação redutora com a série "Iconoclássicos", um conjunto de cinco filmes destinados a retratar, nesta ordem, o músico Itamar Assumpção, o escritor Paulo Leminski, o artista plástico Nelson Leirner, o encenador Zé Celso Martinez Corrêa e o cineasta Rogério Sganzerla.

O dirigido por Rogério Velloso, o documentário "Daquele Instante em Diante" inicia o projeto focalizando a figura radical, desassossegada e realmente iconoclasta de Itamar Assumpção (1949-2003). O filme estreia em circuito comercial nesta sexta-feira (8 de julho) e fica em cartaz durante um mês, até ser substituído pela próxima produção da série.

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A trajetório do músico vanguardista Itamar Assumpção é tema do documentário "Daquele Instante em Diante"

"Daquele Instante em Diante" documenta em profundidade a dor de Itamar em ser sempre tachado como "maldito". Sua relação turbulenta com a indústria cultural vai além desse ponto: vários dos personagens que passaram por sua história e aparecem falando no filme afirmam e reafirmam a intransigência de Itamar com relação àquela indústria e, consequentemente, seu distanciamento perene (e sempre doloroso) do chamado sucesso comercial.

São antológicas, por exemplo, as imagens há décadas esquecidas da participação de Itamar no festival global "MPB Shell 82", interpretando a complexa e teatral "Denúncia dos Santos Silva Beleléu". De modo evidentemente não combinado com a Globo, o artista interrompeu a música no meio e comandou a banda num silêncio sepulcal durante intermináveis segundos televisivos – quando a banda voltou, voltou plagiando de modo jocoso a melodia da vinheta de abertura do festival. A Globo não haveria mesmo de nutrir grandes afinidades com um artista tão pouco dócil e domesticado.

A relação tumultuada se estendia também ao público que o acompanhava. São mostradas, entre material audiovisual riquíssimo, divertidos bate-bocas entre Itamar e espectadores de seus shows, ali, no palco, ao vivo e em cores. "Cê sabe porra nenhuma, cê vai ficar quieto aí até o fim do show", responde ele a certa altura, à gracinha de um fã.

De extração parecida são as cenas em que Itamar, já sofrendo de câncer e ainda majestoso no palco, entretinha o público contando detalhes sobre sua doença (Elke Maravilha, toda de branco, faz papel de morte numa dessas apresentações, em interpretação contundente). Outra imagem emocionante de seus últimos momentos é a interpretação de "Boa Noite", de Djavan, cantada por ele em tom de despedida, com um garboso cocar indígena na cabeça.

A poética ferina e feroz de Itamar é bem-tratada por Rogério no filme. A quantidade de músicas incluídas é caudalosa, e vários dos versos selecionados vão ajudando a compor o personagem, descrito em depoimento da poeta e parceira Alice Ruiz como "o grande poeta não". "Breu no Trianon/ cadê o vão do museu?, sumiu", reza a letra de "Sampa Midnight" (1986), imaginando o desaporecimento de algo que já não existia.

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Imagem do músico paulista Itamar Assumpção

"O caminho mais curto acaba logo ali", afirma o artista numa gravação inédita, dizendo não pela milésima vaz às tentativa de buscar fama, sucesso e dinheiro pelos meios mais diretos.

"O nome Isca de Polícia não era por acaso", afirma Zena, a viúva de Itamar, citando o nome da primeira banda do marido e contando de quando ele foi preso com um gravador que, no modo de entender dos policiais, teria sido roubado. Pouco a pouco, e com sutileza, o documentário traça as dificuldades não do artista, mas do homem que ele era, negro, de origem pobre, morador da zona leste paulistana – um discriminado na acepção mais completa do termo. "Ele transformava medo em raiva", afirma Tata Fernandes, integrante da banda de mulheres que Itamar formou no início dos anos 1990, Orquídeas do Brasil.

Mais "maluco" que "maldito", o músico paulista era todo feito de idiossincrasias. A narrativa coloca essa qualidade no lugar devido de componente importante da genialidade ainda não devidamente reconhecida de Itamar. "Sem a família, ele teria enlouquecido... mais", descreve, tragicômica, a filha caçula, a também compositora Anelis Assumpção. "Segundo as más línguas, só as plantas gostavam dele", ironiza, divertido, um dos guitarristas da Isca, Luiz Chagas. "Devia ser difícil ser Itamar Assumpção", constata Suzana Salles, vocalista da Isca, em depoimento idêntico a outro de Alice Ruiz.

Mais marginalizado do que "maldito", Itamar recebe homenagem à altura no segmento do filme no qual são superpostas as vozes das pessoas que amou citando suas principais influências musicais. Começa com as filhas contando que Bob Marley e Miles Davis eram as referências básicas, obsessivas. A seguir, são editados trechos em que personagens variados citam o amor de Itamar por Milton Nascimento, Frank Zappa, Roberto Carlos, Jimi Hendrix, Tom Zé, Clementina de Jesus etc. etc. etc.

Ao final da montagem vertiginosa, quem ainda não havia compreendido compreende sem dificuldade a estirpe de Itamar Assumpção, em cujas veias de sangue negro corria toda a música popular brasileira, além de boa parte da mundial.

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