Sucesso na música, Madonna é um fracasso no cinema

Com raras exceções, cantora mostra-se uma atriz e diretora de qualidade duvidosa; opine

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Na música, 300 milhões de discos vendidos. No cinema, motivo de risos e decepção. O poder de Madonna dentro do universo pop é tão grande que desde o início a cantora tentou transferi-lo para suas tentativas como atriz e, agora, diretora. Nunca deu muito certo: "W.E. - O Romance do Século" , seu segundo filme atrás das câmeras, acaba de chegar no Brasil, após levar bordoada atrás de bordoada da crítica mundo afora.

Desde 1987, Madonna já foi indicada 16 vezes ao Framboesa de Ouro, o “Oscar dos piores filmes”, e ganhou sete prêmios, inclusive de pior atriz do século, pelo conjunto da obra. Não é pouca coisa.

Há de se admirar sua insistência, que começou lá atrás. Seu primeiro trabalho foi em "A Certain Sacrifice", de 1979, quando a rainha do pop era apenas uma estudante de dança em Nova York. Projeto independente do amigo Stephen Jon Lewicki, o filme só foi lançado seis anos depois, aproveitando a fama da cantora para juntar alguns dólares com as cenas em que ela aparecia nua.

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Esse erotismo seria melhor explorado anos depois, mas era justamente o ingrediente que fez dela uma estrela mundial na época com "Like a Virgin". O disco vendeu demais, tinha outros singles explosivos ("Material Girl", "Love Don't Live Here Anymore") e tornou Madonna uma marca. E ela não seria a primeira a capitalizar também no cinema – um pouquinho antes, Prince tinha estrelado "Purple Rain" e embolsado US$ 68 milhões.

No início, Madonna teve sorte. Ficou com um papel coadjuvante em "Procura-se Susan Desesperadamente", mas sem dúvida era a protagonista informal. "O rosto mais quente do rock é agora o mais novo do cinema", dizia a publicidade da época, ao som de "Into the Groove". O filme funciona: com roteiro maluquinho e visual saudosista irresistível (mais do que datado) dos anos 1980, Rosanna Arquette surpreende ao se transformar de dona de casa suburbana numa descolada nova-iorquina, à imagem de Susan (Madonna). Custou uma ninharia e até deu bilheteria, um dos poucos sucessos da carreira de Madonna.

Mas daí para frente foi só ladeira abaixo. A sequência "Surpresa de Shanghai" (86, ao lado do novíssimo marido, Sean Penn), "Quem É Essa Garota?" (87) e "Doce Inocência" (89) tem interpretações tão vergonhosas e arrecadaram tão pouco que qualquer produtor seria maluco de bancar outro filme com uma atriz dessas. Isso se ela não fosse, bem, Madonna.

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Madonna com o Globo de Ouro de melhor atriz de comédia ou musical por "Evita", em 1997
Quando começou sua "escandalosa" fase sadomasoquista e de sexo sem medo, a cantora não ia deixar desacompanhados o álbum "Erotica" e o livro de fotografias "Sex". Para fechar o combo, encabeçou com Willem Dafoe uma cópia descarada de "Instinto Selvagem": o thriller erótico "Corpo em Evidência" (1993). Outro fracasso, acompanhado por "Olhos de Serpente", um drama experimental igualmente explícito de Abel Ferrara.

Verdade que ela teve um breve intervalo de sucesso. Considerado um fracasso em seu lançamento, "Dick Tracy" (90) – em que Madonna tem um papel coadjuvante, mas de destaque – voltou aos cinemas depois de receber sete indicações ao Oscar e se tornou a maior bilheteria da cantora até hoje: US$ 162 milhões. A dramédia "Uma Equipe Muito Especial" (92), sobre uma liga feminina de beisebol nos anos 1950, também não foi mal, com US$ 132 milhões. Os dois, no entanto, tinham um elenco de peso por trás: o primeiro, Warren Beatty e Al Pacino, e o segundo, Tom Hanks e Geena Davis.

Aí veio o maior desafio da carreira da, arram, atriz: "Evita" (96). O projeto de Alan Parker baseado no espetáculo da Broadway se arrastava há algum tempo, sem conseguir uma protagonista. Madonna bateu o pé que queria o papel e levou: ao lado de Antonio Banderas e Jonathan Pryce, interpretou a ex-primeira-dama argentina. Musical ao pé da letra, sem diálogos, só canções, o filme teve recepção variada, mas boa bilheteria (US$ 141 milhões), ganhou o Oscar de melhor canção e um surpreendente Globo de Ouro de melhor atriz de musical ou comédia.

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Madonna filma "W.E." em Nova York em 2010
Um capítulo breve de uma história, por enquanto, sem final feliz. Ela voltou a viver uma protagonista ao lado do amigo Rupert Everett na comédia sem graça "Sobrou pra Você" (2000) e atuou sob a direção do então marido Guy Ritchie em "Destino Insólito" (2002), justamente considerado um dos piores filmes da história. De tão ruim, nem conseguiu estrear nos cinemas em grande circuito.

Ritchie também pode ser culpado por estimulá-la a virar cineasta. Os dois ainda estavam casados quando ela dirigiu seu primeiro filme, "Filth and Wisdom" (2008), inédito no Brasil, sobre a história de três amigos que dividem um apartamento em Londres.

A resenha do jornal britânico The Guardian foi impiedosa: "Madonna tem sido uma atriz terrível em tantos, tantos filmes que agora se formou uma péssima diretora. Ela fez um filme tão incrivelmente ruim que os frequentadores do Festival de Berlim andavam atônitos num estado de choque, com palidez mortal e miando como gatos maltratados".

Na estreia de "W.E.", no ano passado, houve um avanço: o jornal só chamou o filme de "risível" . Será a hora de Madonna se aposentar do cinema? Para muita gente, a resposta é fácil.

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