Stone mostra que Gordon Gekko está em plena forma

Diretor volta a cutucar as feridas do mercado financeiro com ¿Wall Street 2 ¿ O Dinheiro Nunca Dorme¿

Nelson Rocco, iG São Paulo |

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Josh Brolin e Michael Douglas em cena de ¿Wall Street 2 ¿ O Dinheiro Nunca Dorme¿, novo filme de Oliver Stone
Um jovem ambicioso e promissor faz sucesso no mercado financeiro de Nova York. Resumida desta forma, a história de “Wall Street 2 – O Dinheiro Nunca Dorme” parece mais o resumo de um trivial filme sobre histórias do capitalismo norte-americano. Mas a trama dirigida por Oliver Stone é muito mais: ela resgata a vida do personagem Gordon Gekko, interpretado por Michael Douglas, 23 anos depois de sua primeira aparição.

Gekko, o antagonista de “Wall Street – Poder e Cobiça”, que estreou nas telas americanas no final de 1987, ficou entronizado no imaginário popular como a encarnação do megaespeculador frio e ganancioso, capaz de trocar qualquer coisa por dinheiro, até os sentimentos mais nobres. Seu nome é citado em discursos de autoridades, lembrado em outros filmes e seriados de TV como o vilão número um do mundo financeiro. Há até participações especiais dele em jogos de computador e no Playstation. A revista Forbes, inclusive, já listou o personagem criado por Stone como o quarto mais rico do mundo da ficção, com uma fortuna estimada em US$ 8,5 bilhões.

Uma das cenas criadas pelo diretor tornou-se célebre: o discurso da ganância. Gekko compra no mercado 12% de uma fabricante de papel e tenta assumir o controle, criticando a decisão da administração de manter mais de 30 vice-presidentes. Na assembléia de acionistas, é criticado pelo presidente da companhia. Ele toma a palavra e faz uma elegia à ganância. “Ganância, na falta de uma palavra melhor, é boa. Ganância é correta. Ganância funciona. Ela clarifica e captura a essência do espírito evolutivo. Ganância, em toda a sua forma, pela vida, por dinheiro, por amor, por conhecimento (...) irá salvar não apenas a Teldar Paper, como qualquer empresa considerada mal das pernas nos EUA.”

Em "Wall Street 2", Gekko deixa a prisão após um período de sete anos. Leva consigo um punhado de tranqueiras e seu celular cujo tamanho se aproxima ao de uma torradeira. Não demora a topar com Jake Moore, interpretado por Shia LaBeouf, o jovem promissor do mercado financeiro que namora sua filha, Winnie Gekko, vivida por Carey Mulligan.

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Shia LaBeouf interpreta o jovem promissor do mercado financeiro em "Wall Street 2"
Na “nova” vida, Gekko aparece um pouco mais humanizado que em sua estreia na telona. O próprio diretor dá mostras de que amadureceu, principalmente em questões econômico-financeiras. Em uma das primeiras cenas de "Wall Street 2", o banqueiro de investimento Louis Zabel, de cabelos brancos, dono da firma em que trabalha o protagonista Moore, aconselha seu pupilo com a frase “A mãe de todos os males é a especulação”, pouco antes de presenteá-lo com um cheque de US$ 1,5 milhão, representando um bônus pelo seu bom desempenho. Em outra tomada, diante de uma discussão em que são citados vários acronismos para os múltiplos produtos negociados pelo mercado financeiro, Zabel sai-se com esta: “Isso para mim deveria chamar-se ADM – Armas de Destruição em Massa”.

Stone dedicou o primeiro "Wall Street" ao seu pai, que havia sido um executivo do mercado. No novo filme, o contexto da economia americana está muito mais presente. O expectador médio consegue compreender exatamente como se formou o que ficou conhecido como a crise do subprime. Nas conversas entre os corretores fica clara a estratégia de bancos e agentes financeiros em transformar empréstimos imobiliários de alto risco, concedidos a imigrantes sem documento e trabalhadores não especializados, em novos títulos, revendidos no mercado, que se revelou em uma das responsáveis pelo engendramento da crise que já é considerada a pior dos Estados Unidos desde a quebra da Bolsa de Nova York, em 1929. A mãe de Moore, interpretada por Susan Sarandon, traduz o espírito do subprime. Ex-enfermeira que agora trabalha como corretora de imóveis, ela já está no terceiro financiamento imobiliário simultâneo e tem de recorrer à poupança do filho para conseguir bancar as parcelas.

Em 1987, "Wall Street" foi para os cinemas dois meses após a “segunda-feira negra”, quando a Bolsa de Nova York teve queda de mais de 20%, espalhando pânico nos mercados do mundo todo. Talvez por isso, Gekko tenha se tornado tão popular na memória do americano. O filme explicita como viviam e o que pensavam os yuppies que borbulhavam no mercado financeiro, simbolizado na primeira parte de "Wall Street" por Charlie Sheen no papel do ambicioso Bud Fox.

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Michael Douglas e Charlie Sheen no primeiro "Wall Street": yuppies em alta na década de 1980
Em "Poder e Cobiça", Fox se desdobra em dez para conquistar a confiança de Gekko, até tornar-se parecido com ele. Seu sonho é morar em uma espaçosa cobertura no elegante bairro Upper East Side, em Nova York, pela qual desembolsa US$ 950 mil, ao lado de uma namorada moderna, sofisticada, conhecedora de todos os artistas de vanguarda. O cotidiano relatado na primeira parte do filme de 1987  não tem consistência hoje. As pessoas parecem lutar para ganhar dinheiro apenas por prazer, para consumir, comprar carros, roupas e coisas modernas e caras, como num comercial de perfume ou de relógios. Faltam-lhe elegância e refinamento natos.

Na sequência, Stone mostra que milionário é milionário. E não basta ganhar dinheiro em Wall Street para se tornar um deles. Quem nasce no subúrbio nunca chegará ao mesmo mundo, por mais dinheiro que tenha. Em uma festa beneficente para arrecadação de fundos promovida por um banco de investimento, em que se cruzam os personagens da primeira e da segunda versão, as mesas são ocupadas por homens elegantes e mulheres sofisticadas. As cintilantes jóias que usam em suas orelhas, pulsos e pescoços são para poucos: um colar daqueles deve valer o mesmo (ou mais) que muitas das obras expostas no Metropolitan Museum of Art, museu onde o jantar é realizado.

Em "O Dinheiro Nunca Dorme", a ganância e a cobiça são retratadas poelo diretor em cores mais sutis. Questionado pelo corretor Moore sobre qual era seu preço, o banqueiro Bretton James, na pele do ator Josh Brolin, responde simplesmente: “mais”. Não há valores na mesa, o que importa é conquistar mais e mais. Ele próprio aparece em uma reunião do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA, em que os banqueiros pedem dinheiro ao governo para salvar suas instituições. James é o que apela por mais bilhões de dólares para salvar o sistema.

Stone mostra, em seu "Wall Street 2", que não são apenas as bolhas econômico-financeiras e as consequentes crises que são cíclicas: os megaespeculadores, que ganham dinheiro tanto com as bolhas como com as crises também aparecem de tempos em tempos. Alguns na mesma pele, como Gordon Gekko.

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