Steven Spielberg comove com "Cavalo de Guerra"

Diretor usa Primeira Guerra Mundial como pano de fundo para contar história de amor de garoto por seu cavalo, em homenagem ao cinema clássico

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Houve uma época em que muita gente desdenhava de Steven Spielberg. Se o diretor norte-americano era praticamente imbatível quando se falava de aventura (ah, "Indiana Jones"), suas investidas pelo drama eram vítimas de um preconceito difícil de entender – mesmo "A Cor Púrpura" e "E.T.", lá na década de 1980, mostravam um talento evidente.

Após 40 anos de uma carreira com mais acertos do que erros, olhar atravessado para Spielberg hoje seria um absurdo: afinal de contas, ele domina a gramática do cinema hollywoodiano como ninguém e sabe como atingir em cheio o espectador.

"Cavalo de Guerra", que chega nesta sexta-feira (06) aos cinemas brasileiros, é uma boa prova desse domínio. O filme concorre em duas categorias do Globo de Ouro e tem presença quase certa entre os indicados ao Oscar 2012 (a lista dos finalistas será divulgada no próximo dia 25). Spielberg assistiu à bem-sucedida montagem teatral londrina de "Cavalo de Guerra", baseada no livro infantil de Michael Morpurgo, um best-seller, e chorou um bocado. O diretor viu ali a chance de fazer o mesmo com plateias inteiras.

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Jeremy Irvine em "Cavalo de Guerra": relação entre garoto e animal resiste à guerra
Realmente, chances para levar o público às lágrimas não faltam. Além de situada na Primeira Guerra Mundial, que por si já aviva olhos marejados, a história tem material de sobra para trazer emoções à flor de pele, em especial por se apoiar num sentimento de inocência arrebatadora: o amor de um garoto por seu cavalo.

No interior da Inglaterra, em 1914, a família do jovem Albert (Jeremy Irvine), ancorada por sua mãe (Emily Watson, majestosa), batalha para conseguir sobreviver plantando em terras arrendadas.

O patriarca, Ted Narracott (Peter Mullan), soldado veterano e alcoólatra, num arroubo da bebida arremata um potro puro-sangue num leilão, quando precisava na verdade de um animal robusto para puxar o arado. E aí começa a magia de "Cavalo de Guerra": Joey, o cavalo, é especial. Espere, portanto, muitas demonstrações de coragem, carinho, força e inteligência.

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Por se tratar de uma história escrita originalmente para crianças, há um tom inegável de conto de fadas. Doce, de voz suave e ar angelical, Albert corre alegre pelas verdejantes colinas inglesas ao som de uma retumbante trilha orquestral – impossível não lembrar de "A Noviça Rebelde".

Assim como no filme estrelado por Julie Andrews, a candura é posta em suspenso pelos horrores da guerra: sem dinheiro para pagar o aluguel ao dono das terras (o excelente David Thewlis), o velho Narracott se vê obrigado a vender Joey ao exército britânico, para desespero de Albert.

Spielberg tem experiência de sobra na Segunda Guerra Mundial – fez "O Resgate do Soldado Ryan", "A Lista de Schindler" e inúmeros projetos como produtor, da série "Band of Brothers" a "Cartas de Iwo Jima".

O primeiro embate contra os alemães surgiu como uma oportunidade para o diretor explorar um mundo em plena mudança, rumo à mecanização. Foi a última guerra em que cavalos tiveram um papel fundamental, embora a indústria armamentista estivesse a pleno vapor. Nesse sentido, uma cena é exemplar: num ataque surpresa, a cavalaria britânica, elegante, galopa com espadas em riste rumo a um acampamento germânico, apenas para ser surpreendida por um paredão de metralhadoras.

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As imagens, claro, são fortes, mas nunca brutais. Spielberg comanda com desenvoltura o avanço de tropas pelas trincheiras, corpos voando pelos ares ou caindo alvejados, sem nunca mostrar sangue – afinal de contas, trata-se de uma produção da Disney. É uma forma de abordar a guerra e mostrá-la sem ser um "filme de guerra" propriamente dito. Aqui, o que importa é falar de amor, coragem, tragédia, moral, obstáculos e redenção.

nullCom closes frequentes em seus olhos expressivos, o cavalo (ou melhor, 14, o total de animais usados nas filmagens para interpretá-lo) serve como ponto de apoio para tudo isso. Joey passa por lugares e exércitos diferentes, sempre comovendo quem convive com ele – a não ser, obviamente, os personagens que fazem as vezes de vilão. Piegas? Sem dúvida.

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Primeira Guerra Mundial foi último conflito a ter cavalos no campo de batalha
Spielberg acerta ao conseguir, no entanto, caminhar no limite, sem resvalar para o mau gosto. É o sentimentalismo friamente calculado, infalível.

Não é difícil imaginar a satisfação do cineasta atrás do monitor, pedindo o zoom na lágrima dolorida de uma menina francesa, ou na mesa de edição, mexendo os botões para aumentar a trilha sonora melosa nos momentos-chave. Se eventualmente ele se alonga demais, perde de vez o pé na realidade ou exagera no açúcar, também é capaz de criar cenas espetaculares, de cortar o coração. Sair do cinema incólume é tarefa das mais complicadas.

Mesmo sem a ter a propriedade de Martin Scorsese, Steven Spielberg ainda fez em "Cavalo de Guerra" sua homenagem ao cinema dourado de Hollywood. De clássicos da Primeira Guerra ("Nada de Novo no Front") a obras-primas de John Ford (a cena final é puro "Rastros de Ódio"), o diretor não economizou nas referências.

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Não espanta, portanto, que cada fotograma de "Cavalo de Guerra" tenha praticamente um carimbo escrito "Oscar". O filme não deve ganhar os principais prêmios, mas com certeza ficará na linha de frente. Com mérito.

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