Steven Soderbergh cria catástrofe real em "Contágio"

Diretor escala elenco estrelado para contar como mundo reagiria a pandemia devastadora

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Filmes de vírus existem aos borbotões – a lista está aí, é só escolher . Mas nenhum deles é tão próximo da realidade como "Contágio", nova empreitada de Steven Soderbergh, que estreia nesta sexta-feira (28) no Brasil.

O incansável diretor de "Traffic" e da franquia "Onze Homens e Um Segredo" tem feito no mínimo um longa-metragem por ano desde 2004, numa filmografia cada vez mais diversificada e corajosa. Desta vez, a ideia era reproduzir com autencidade como seria o caos provocado por uma pandemia mundial. Funciona: é quase impossível sair do cinema sem prestar máxima atenção em tudo que se encosta, come ou bebe, atos insconcientes no dia-a-dia.

Divulgação
Kate Winslet em "Contágio": elo do público para entender o funcionamento do vírus
O roteirista Scott Z. Burns (que havia trabalhado com Soderbergh em "O Desinformante!") foi a campo pesquisar como as autoridades e cientistas reagiriam a uma ameaça dessa natureza. Baseado nisso, "Contágio" segue seguro, sem sobressaltos, os passos da reação em cadeia rumo ao colapso: os primeiros casos e mortes, o rápido alastramento da doença versus a morosidade para identificar o vírus e fabricar a cura, a barbárie na sociedade.

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A história se passa no mundo contemporâneo, escaldado pela gripe aviária e o vírus H1N1 – fica bem mais fácil imergir na trama. Também há uma clara crítica a grandes corporações, que dão jeito de lucrar em qualquer panorama, e uma mensagem ecológica nada sutil. Ao se cogitar a hipótese do vírus ter sido criado por alguma organização terrorista, um dos pesquisadores dispara: "Ninguém precisa transformar a gripe aviária numa arma. As aves estão fazendo disso".

Uma infinidade de personagens forma um painel amplo, democrático, no qual os médicos incrivelmente não são os protagonistas. Sobram papéis para todo mundo e, gente boa que é, Soderbergh conseguiu escalar seus amigos astros em participações menores, sem grande prestígio. Matt Damon interpreta um pai de família de luto após a morte da mulher (Gwyneth Paltrow), que havia acabado de voltar de uma viagem a Hong Kong. Paltrow é um bom exemplo desse desapego: morre logo nos primeiros cinco minutos e ainda se presta a uma cena nada glamurosa na mesa de autópsia.

Subordinada a Laurence Fishburne, Kate Winslet vive uma médica do Centro de Controle de Doenças que vai até Minneapolis investigar o caso. Ela se encarrega de explicar para o espectador o funcionamento do vírus e modos de contaminação (sabia que os humanos tocam o rosto de 2 mil a 3 mil vezes por dia?). Marion Cotillard é uma funcionária da Organização Mundial de Saúde (OMS) que viaja até a China atrás do foco inicial.

Exibindo um horrendo dente dianteiro falso para acentuar o visual britânico, Jude Law funciona como o vilão da história, no papel de um jornalista paranoico que espalha pânico e propagandeia um fitoterápico milagroso como cura. Não acaba aí: o elenco ainda traz Elliott Gould, Bryan Cranston, John Hawkes e Demetri Martin, entre outros rostos conhecidos e outros nem tanto (destaque para Jennifer Ehle, uma das cientistas em busca da vacina).

Com tanta gente assim, não havia a menor chance de "Contágio" dar conta desses numerosos núcleos dramáticos em menos de duas horas. Os atores fazem o que podem com o que têm. A não ser o personagem de Damon, que tem fácil apelo por ser o homem comum da história, os outros personagens servem mais como adereços para reforçar o tom "documental", objetivo primeiro de Soderbergh.

O saldo desse filme-catástrofe didático é um temor verdadeiro, que persiste depois do final da projeção. O diretor encheu o filme de closes de mãos em maçanetas, celulares, copos, talheres, espirros, coisas que favoreceriam a transmissão da doença. Potencializadas pela trilha sonora eficiente de Cliff Martinez, as imagens funcionam quase que subliminarmente para manter a tensão acesa por um bom tempo.

Nisso "Contágio" se diferencia de produções similares e funciona muito bem. Soderbergh pode riscar "thriller científico" da sua listinha de coisas a fazer antes da aposentadoria . "Haywire" , a ação anos oitenta estrelada por uma mulher, é o próximo da fila. Que venha logo.

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