¿Sou da era paleolítica do cinema¿, diz Babenco

Diretor recebeu troféu durante homenagem na abertura do Festival de Paulínia

Marco Tomazzoni |

Divulgação/Leandro Moraes
Hector Babenco segura troféu na abertura do festival: "o celuloide está morto"
O Festival de Paulínia foi aberto na noite de ontem por um emocionado Hector Babenco. O cineasta argentino, radicado no Brasil desde o início dos anos 1970, recebeu o troféu Menina de Ouro e agradeceu a homenagem. “Sou da era paleolítica de se fazer cinema, um bicho em extinção”, disse ele no microfone. “Muito solitariamente, sempre fiz o que quis. Tirando o cinema e pregar botões, já que meu pai era alfaiate, no resto sou um inútil”, brincou.

Em sua terceira edição, sempre no luxuoso Teatro Municipal – com suas colunas gregas e paredes envidraçadas –, o festival, pelo menos na abertura, não chamou a atenção dos habitantes da cidade no interior de São Paulo. Sim, o evento era fechado para convidados, mas não deixou de ser bucólico ver os arredores do teatro completamente vazios. As grades ao redor do tapete vermelho só enfrentavam a resistência do vento, que soprava forte, para desespero das representantes da alta sociedade local e de Campinas.

No palco, os atores Lázaro Ramos e Fernanda Torres foram os mestres de cerimônia e tornaram uma tarefa trivial em algo digno de nota, em meio ao desfile de autoridades municipais e a autopromoção de Paulínia, que realmente se tornou um dos maiores financiadores do cinema nacional – em 2010, 20 longas-metragens receberão apoio e recursos através de editais.

A homenagem a Babenco foi precedida por clipes com imagens da filmografia do diretor – Lúcio Flávio, o Passageiro da Agonia , Pixote , Ironweed , Carandiru – e depoimentos de amigos e colegas, como Lauro Escorel, Sérgio Machado e o produtor Francisco Ramalho Jr. No final, uma gag de Arnaldo Jabor: “o Babenco é uma figura... pena que é argentino”.

A sessão de abertura contou com uma cópia restaurada de O Beijo da Mulher Aranha , que completou 25 anos e foi exibido este ano em Cannes. Falado em inglês, mas filmado em São Paulo, com equipe brasileira, O Beijo foi consagrado pela imprensa internacional e um vitorioso em diversas premiações, inclusive ganhando um Oscar de melhor ator (William Hurt) e outras quatro indicações. “Tinha contas para pagar e achei que fazendo um filme em inglês poderia tirar um dos pés do charco”, disse Babenco, “mas fomos roubados olimpicamente, não sabemos como lidar com esse tipo de coisa no Brasil”.

O cineasta dedicou a sessão a Manuel Puig, autor do romance que inspirou o livro, e disse que sua missão é seguir atrás das câmeras. “Quero continuar tentando que o cinema seja menos banal e que o brasileiro tenha acesso a esse cinema; é para ele que quero fazer.”

Culto até hoje

Em conversa com a imprensa na tarde desta sexta-feira, Babenco voltou a falar do lançamento de O Beijo da Mulher Aranha . Filmado com dificuldades, de maneira independente, os negativos tiveram que ser resgatados pela produção de Cannes para que o filme fosse exibido no festival, já que ninguém tinha dinheiro para pagar as dívidas com o laboratório norte-americano.

A equipe do longa comemorou quando um distribuidor comprou os direitos de exibição por US$ 1,5 milhão. Pouco depois soube-se que o mesmo empresário vendeu a terceiros apenas a licença para distribuição em VHS pelo mesmo valor, sem contar que o filme foi um sucesso em todo o mundo. “Soube que um distribuidor na Itália resolveu fechar sua empresa de tanto ganhar dinheiro com o filme”, lamentou o diretor.

O curioso é que ainda hoje existem interessados em O Beijo . Recentemente, um fã da universidade de Harvard, nos Estados Unidos, expressou o desejo de comprar todo o material referente ao filme: negativos, som, sobras, tudo o que for relacionado a ele, inclusive direitos para um remake. “É comum isso acontecer com escritores, através de fragmentos, diários e coisas do tipo, mas no cinema é algo que deve ser inédito.”

Babenco também fez questão de lembrar a importância de Burt Lancaster no projeto. Depois de encontrar o astro norte-americano em uma premiação para Pixote nos EUA, ele se interessou em participar do filme no papel do homossexual e apresentou o jovem Raul Julia, então em temporada na Broadway, para o cineasta. Poucas semanas antes das filmagens, no entanto, adoeceu e cancelou sua participação.

Julia, então, apresentou um amigo, William Hurt, estrela ascendente em Hollywood ( Corpos Ardentes , O Reencontro ). Babenco não levou muita fé nessa possibilidade, mas viajou a Nova York para fazer uma leitura do roteiro. Ao ver o homem com jeito de “caubói saído de um comercial da Marlboro”, não tinha a mínima esperança de dar certo. Mudou de ideia em minutos. “Enlouqueci ao ver aquele monstro de 1,88m parecer um passarinho, delicado. Decidi por ele na hora.”

Novas tecnologias também foram a tônica do bate-papo. Depois de ver em maio uma versão digital da cópia restaurada de O Beijo , em Cannes, Babenco decretou: o celuloide está morto. “Não há condições de continuar usando película. O famigerado digital não está de passagem – veio para impor uma nova estética e um modo de preservar o cinema.”

* O repórter viajou a Paulínia a convite do festival

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