Sophie Calle e ex-namorado compartilham intimidade e falam de vida e arte em Paraty

PARATY ¿ No fim, todos saíram vivos. O debate entre a artista plástica francesa Sophie Calle e seu ex-namorado, o escritor Grégoire Bouillier, transcorreu sem qualquer atrito maior entre os dois, a não ser uma faísca aqui, outra ali, suficientes para deixar o público que lotou a Tenda dos Autores, no final da manhã deste sábado (04), satisfeito.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

No início do encontro, o mediador Angel Gurría-Quintana declarou que poucas vezes o título de mediador foi tão apropriado, lembrando as características singulares da conferência. O motivo de tanta expectativa era que essa foi a primeira vez que a dupla se reencontrou após a separação, que serviu de inspiração para obras dos dois: Calle criou a exposição Cuide de Você, representante da França na Bienal de Veneza de 2007 e que chega a São Paulo na próxima sexta-feira, enquanto Bouillier escreveu O Convidado Surpresa, que acaba de ser publicado no Brasil.


Artistas se reencontram na Flip, em Paraty / Agência Estado

A premissa da mostra de Calle é, como boa parte do currículo da artista, desconcertante. No mesmo dia em que Bouillier lançou o livro na França, o autor mandou um email para a então namorada terminando a relação. Confusa com o texto, que, na sua opinião, era obscuro, sem dar a entender se o rompimento era definitivo, Calle mostrou-o três dias depois para sua melhor amiga e, a partir disso, concebeu o projeto.

Estou acostumada a reverter as situações para tentar sair por cima. Decidi fazer do limão uma limonada, afirmou no palco. A tal limonada foi a ideia de levar o email para 107 mulheres diferentes darem sua interpretação do assunto, cada uma com sua especialidade: a revisora falou dos erros gramaticais, a psicanalista analisou, a atriz interpretou e a cantora, claro, cantou. A seleção incluiu até uma mediadora familiar: Calle levou a carta ao escritório da profissional, colocou o texto na cadeira ao lado da sua e a mulher tentou fazer uma conciliação, sem sucesso. Terminei a apuração falando com um papagaio, macho, que engoliu a carta.

A decisão de usar a arte para superar a desilusão amorosa surgiu, segundo Calle, devido a uma espécie de insegurança ¿ contou que não sabia o que responder a Bouillier, o que dizer ao encontrá-lo. Além disso, havia também o temor de que se eles voltassem a ficar juntos, seria impossível prosseguir com o projeto. A arte me interessou muito mais do que a história de amor. No fundo, queria que ele tivesse voltado, mas não queria ser a provocadora dessa volta.

Bouillier começou sua participação afirmando que era ao mesmo tempo trágico e divertido estar em Paraty. Na defensiva, o escritor ¿ que já teve uma vida errante, na qual trabalhou como pintor e morou nas ruas ¿ fez questão de lembrar que o rompimento da relação foi algo completamente normal. Talvez seja bobagem dizer por ser uma verdade fundamental, mas não é proibido dar um fora em alguém. É nosso direito amar e deixar de amar.

Também justificou que, apesar de parecer complexo, quem elaborou a carta não era o escritor, mas alguém que escreveu um texto com uma função específica, e que por isso o email não poderia ser julgado como literatura. Para isso, Calle tinha uma resposta na ponta da língua. Para mim ficou claro que não era de um escritor, mas de um homem que queria partir, uma carta desengonçada de alguém que quer cair fora. Me pareceu estranho receber o email no mesmo dia em que o livro sobre nossa relação foi lançado, talvez por isso eu tenha tido uma reação imediata. Mas definitivamente não é um projeto de vingança.

Sobre o fato de utilizar a própria vida para compor seu trabalho, Bouillier, assim como em entrevista à imprensa , disse que a realidade é às vezes mais interessante do que a ficção. Acho que qualquer pessoa é personagem de sua própria existência. A vida é uma ficção, e a gente desempenha o papel principal. As coisas que vivemos são tão extraordinárias que é um desafio ter de contá-las. Nesse sentido, defendeu que a falta de medo em apagar a barreira entre realidade e ficção é uma característica comum entre ele e Calle. O que nos aproxima é que não temos medo da ficção. Misturamos as duas coisas e acho que esse é um debate importante hoje em dia.

Essa mistura, justamente, sempre foi a tônica do trabalho de Calle. Artista conceitual, fotógrafa e documentarista, nunca parou de surpreender. Uma vez seguiu um homem que passava aleatoriamente na rua de Paris até Veneza, sempre registrando tudo que ele fazia. Em outra, se fez seguir por um detetive, que por sua vez era seguido por um amigo da artista. Também em Veneza, trabalhou como camareira em um hotel e tirava fotos do que havia nas malas dos hóspedes. Um dos pontos altos, que está em seu livro Histórias Reais, foi quando um fã mandou uma carta afirmando que estava arrasado depois de uma separação e precisava deitar na cama de Sophie para se recuperar. Poucos dias depois, ela atendeu ao pedido: mandou a cama, com lençóis e tudo, para o rapaz na Califórnia.

A transformação de histórias em arte, segundo Calle, é o mecanismo que achou para se defender do sofrimento. Tento controlar tudo que não funciona criando regras para o jogo, e tenho facilidade em acreditar nelas. É uma maneira de me proteger da vida de verdade, de ter o controle e não ser vítima dos sentimentos.

Nunca foi processada, para espanto de seu advogado, a não ser uma vez, quando foi acionada por um escritório de advocacia. Animada em ir atrás de informações e guardar os detalhes para transformar o caso em um projeto artístico, ficou de mãos abanando: a parte desistiu do processo.

A ânsia de usar tudo o que vive em seus trabalhos não atrapalhou, até o momento, a vida amorosa da artista. Meu amor atual pediu para não usá-lo na arte. Aceitei... (pausa) Mas isso não quer dizer que não vou acabar fazendo. No encerramento do debate, Calle contou que, antes de entrar na tenda, ficou pensando em dizer para Bouillier: Se você pedir desculpas, caso com você. O escritor, atento, não se fez de rogado: Eu nunca pedi desculpas. Nada como um casal bem resolvido.

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