Solanas une denúncia e política em documentário sobre ferrovias argentinas

GRAMADO ¿ A estreia da competição latino-americana em Gramado, na noite desta segunda-feira (10), foi, como esperado, de alto nível. Um dos cineastas mais respeitados do continente, o argentino Fernando Solanas foi convidado pelos curadores a participar do festival com o documentário ¿La Próxima Estación¿, que enfoca o desmonte da rede ferroviária de seu país. Através de uma investigação profunda, Solanas não só procura despertar a consciência crítica do espectador, como também apresenta uma proposta claramente política e, por isso mesmo, conflitante.

Marco Tomazzoni, enviado a Gramado |

La Próxima Estación é o quarto filme de uma série de cinco sobre a sociedade argentina que busca lançar luz a temas como democracia, corrupção, educação, pobreza e crise energética. Artista engajado, Solanas já produziu pérolas do gênero documental, cujo exemplo máximo é o clássico La Hora de Los Hornos, de 1968, sobre o neocolonialismo e exploração sul-americana. Atualmente, no entanto, mais do que analisar a realidade em que vive, Solanas desempenha papel duplo: é político atuante e há pouco foi eleito deputado federal pela província de Buenos Aires com votação expressiva.

Divulgação

Filme de Fernando Solanas traça ascensão e declínio do sistema ferroviário argentino

Mas nada disso vem à mente nos primeiros minutos, tamanha é a urgência das informações apresentadas ao espectador. Até meados da década de 1950, as ferrovias argentinas uniam praticamente todo o país. Nacionalizadas e com tecnologia de ponta, desenvolvida por profissionais formados nas escolas técnicas do governo, as locomotivas levavam o progresso a cidades distantes, no auge do peronismo. Contudo, sucessivos golpes de estado e a entrada em cena de multinacionais de automóveis e pneus fizeram com que as estradas de ferro fossem deixadas de lado e o sistema ferroviário entrou em declínio, junto com os transportes em geral.

Rico em dados e entrevistas, La Próxima Estación é didático ao mostrar a situação de falência dos trens argentinos e o fracasso das privatizações promovidas pelo governo Menem: se antes as ferrovias davam prejuízo de US$ 1 milhão por dia, hoje, com a farra de subsídios governamentais, seriam US$ 3 milhões diários, sendo que se manteve apenas 20% da frota original e o serviço é descrito pelos cidadãos como digno de transportar porcos. Diante desse quadro alarmante, Solanas deixa no ar a pergunta: é fato que os trens antigamente não davam lucro, mas a função de um bem público não é servir?

Esse conceito, aliás, é uma das coisas que o cineasta procura deixar claro ao longo do filme. Ninguém pode defender o que não sabe que tem, diz a certa altura um dos entrevistados. Não se trata de uma derrota puramente econômica, mas cultural. Não há pensamento crítico. Depoimentos emocionados ou lúcidos como esse são de uma crueza desconcertante.

Não há como contestar a qualidade do cinema de Solanas, que aos 73 anos é completo autor, se colocando frente às câmeras, conduzindo as investigações, e ativo atrás delas, assumindo pesquisa, texto e até a filmagem. Mas também não é possível assistir ao documentário de olhos fechados: a última parte do filme, batizada de Trem para todos, funciona como uma plataforma política. Altamente panfletária, defende a reestruturação das ferrovias argentinas com a objetividade de um programa eleitoral, com direito a propostas e palavras de ordem na tela.

Solanas não pôde vir a Gramado devido a compromissos políticos em Buenos Aires. Com chances reais de se candidatar pela segunda vez à presidência da república, o cineasta se dedica às bases de seu partido, o Projeto Sul, e à conclusão do quinto filme da série documental, La Tierra Sublevada. Prova de que as duas atividades estão, nos últimos anos, cada vez mais íntimas e, portanto, conectadas. Cabe ao espectador ter a perspicácia de distinguir uma coisa da outra.

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