Sérgio Machado, "apadrinhado" por Jorge Amado

Diretor uniu paixão pelo cinema e à Bahia na adaptação ao cinema de "Quincas Berro D'Água"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

As adaptações da obra de Jorge Amado andavam esquecidas do cinema brasileiro – passaram-se 16 anos desde Tieta , de Cacá Diegues. É curioso, então, que o autor que inspirou o campeão nacional de bilheteria – o lascivo Dona Flor e Seus Dois Maridos , lá na década de 1970 – volte à cena pelas mãos de um diretor, digamos, apadrinhado. Sim, porque Sérgio Machado, diretor da comédia Quincas Berro D’Água , teve o grande empurrão de sua carreira dado pelo próprio Jorge.

Reprodução
O encontro de Sérgio Machado e Jorge Amado em Salvador, no início dos anos 1990
Pode ter sido meio por acaso, mas foi o que aconteceu. No fim da faculdade, no início dos anos 1990, Sérgio dirigiu um média-metragem chamado Troca de Cabeças , só com atores negros. Além de ganhar status de cult na Bahia, o filme tinha como trunfo Grande Othelo no elenco, naquele que acabou sendo seu último trabalho. Compadre do ator, Jorge Amado ficou interessado em assistir o resultado e entrou em contato com o então estudante. “Imagine você com 20 e poucos anos e um dos escritores mais populares do Brasil liga e diz que quer conversar. É inacreditável”, lembra Sérgio, em entrevista ao iG .

Ele foi, então, até a casa de Jorge e “dona” Zélia Gattai em Salvador. O casal viu o filme, gostou e elogiou. “Generoso, Jorge disse que eu tinha talento e que se precisasse de alguma coisa... Estava precisando era ouvir alguma coisa dessa, porque não tinha muita perspectiva, não conhecia ninguém que fazia cinema, não tinha nem ideia de como começar e se era possível.” O escritor acabou mandando uma cópia VHS para Walter Salles, que estava acabando Terra Estrangeira (1996), assistiu e gostou também. No fim das contas, os dois se aproximaram e Sérgio virou assistente de direção de Central do Brasil , O Primeiro Dia e Abril Despedaçado . Não parou mais.

Uns bons anos depois, Sérgio estava na piscina de um hotel do Leblon quando começou a reler A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água (1961) e, para espanto dos outros hóspedes, gargalhar alto com as presepadas do bêbado falecido e seus comparsas de boemia. Na orelha de uma edição antiga do livro, um crítico da época afirmava que Quincas era o melhor roteiro de cinema já feito no Brasil. Aquilo ficou ecoando na cabeça do diretor. “Era bem na época do lançamento do [premiado] Cidade Baixa (2005) no exterior. Acordava de manhã cedo e mexia um pouquinho, comecei uma adaptação despretensiosamente. Comecei a escrever um roteiro que não deu muito certo e aí mergulhei no Quincas .”

O melhor de Jorge Amado

Futura Press
O diretor com o filho, Jorge, e Mariana Ximenes na pre-estreia em São Paulo
O prestígio da obra só contribuiu para que o diretor se decidisse pelo projeto. Uma enquete recente feita entre escritores e críticos literários apontou Quincas , apesar do tamanho (cerca de 100 páginas) como a obra-prima de Jorge Amado, com mais de 80% dos votos. “Eu também acho”, afirma o diretor. “É a fase em que o autor já domina seu ofício e está em grande forma. E pelo fato de ser menor, não tem os barroquismos que os outros livros dele às vezes tem.”

A primeira versão do roteiro ficou pronta rápido, em dois meses. Além da própria natureza da história, ajudou a experiência anterior de Sérgio na adaptação do romance Os Pastores da Noite (1964) para a televisão. “Os personagens são exatamente os mesmos, então você descobre um pouco mais deles, do passado. O Quincas é um pouco outro personagem, o Jesuíno Galo Doido, e o Massú se chama Pastinha, mas os outros têm o mesmo nome.” Como a obra original é muito pequena, Sérgio tomou a liberdade de aumentar personagens, criar outros e aproveitar informações de Os Pastores da Noite .

“A minha preocupação maior era manter o espírito do livro e de Jorge Amado. Tenho a sensação de que a melhor maneira de se aproximar de um autor é não colocá-lo em um pedestal, porque de outra forma qual é o sentido? A única razão de adaptar uma obra para o cinema é acreditar que eu tenha alguma coisa a acrescentar, se não é melhor as pessoas lerem o livro.”

A primeira decisão de Machado, portanto, foi tirar a ação de dentro do velório do protagonista e levá-la para as ruas do Pelourinho. Ele tem experiência nisso: Cidade Baixa , com o trio Wagner Moura, Lázaro Ramos e Alice Braga, se passa na desolada região portuária da capital. Sem contar o fato de o diretor ser baiano. “Quando falo do candomblé, por exemplo, não estou falando de uma religião exótica, mas da minha família, das pessoas que conheço. Minha mãe era amiga de pais de santo, que baixavam orixá, incorporavam e iam lá em casa, às vezes de madrugada. Converso com orixá desde que sou criança. Não é estranho, é o meu universo.”

Diretor cinéfilo

A esse conhecimento popular, somou-se a paixão pela história do cinema e pelos grandes cineastas. Sérgio Machado confessa que, ao pensar em adaptar Jorge Amado, o nome do diretor italiano Federico Fellini lhe veio automaticamente à cabeça. “Em filmes como Noites de Cabíria e A Estrada da Vida , os personagens beiram o absurdo, o ridículo, mas Fellini trata-os com muito carinho. São dois humanistas, Fellini e Jorge Amado.”

Divulgação
Sérgio Machado no set em Salvador: "Converso com orixá desde criança"
Ainda na busca por referências, fez uma ampla pesquisa e comprou em DVD tudo dos mestres da comédia: Charles Chaplin, Buster Keaton, Harold Lloyd, os irmãos Marx, Ernst Lubitsch, os italianos. Daí, surgiram pequenas homenagens inseridas no filme, como o cartaz e a animação inicial, inspirados no designer Saul Bass ( Anatomia de um Crime , O Homem do Braço de Ouro ), e um pequeno adesivo colado numa viatura, o mesmo que existe no carro de Vitorio Gassman em Aquele que Sabe Viver ( Il Sorpasso , 1962). “São umas brincadeirinhas que gosto de fazer.”

Isso é reflexo de apenas parte de um minucioso processo de preparação do diretor, que antes das filmagens elaborou um caderno de anotações com 500 páginas, repleto de frases, fotos e inspirações, e um storyboard em 3D de todas as sequências. Apesar disso tudo, Machado não diminui a importância do trabalho no set. “No set, você confronta tudo o que preparou. Trava contato com os atores, com uma equipe de 50 pessoas, cada uma criando do seu jeito e contribuindo para a coisa funcionar.” Mesmo assim, retoma seu lado cinéfilo ao assumir que as etapas de que mais gosta, assim como Michael Haneke, são o roteiro e a edição de som, onde “tudo é possível”. E aí também está a dublagem, outra de suas paixões, que compartilha com Fellini, ele de novo.

Com distribuição da Disney e apoio da Globo Filmes, Quincas Berro D’Água é o primeiro projeto da Videofilmes – a produtora de “arte” dos irmãos João Moreira e Walter Salles – com evidente potencial de bilheteria. Os ingredientes usuais de sucesso no Brasil estão lá: comédia e atores globais (Paulo José, Marieta Severo, Mariana Ximenes, Vladimir Brichta). O diretor procura não criar expectativa, mas é difícil esconder a animação. “Costumo não ficar projetando coisas, é tudo tão inesperado, mas a reação das exibições até agora deixou a gente muito animado. Se tomarmos isso por base, acho que dá pra esperar algo muito legal.”

Enquanto isso, Sérgio Machado vai tocando outros projetos. Além de concluir, com Karim Aïnouz, dois novos episódios da série Alice , da HBO, há três outros filmes na fila: o desenho animado A Arca de Noé , baseado na obra de Vinícius de Morais; a história da fundação da Orquestra Sinfônica de Heliópolis, em parceria com a Gullane; e, aquele que parece ser seu preferido, uma adaptação da biografia de Padre Cícero escrita pelo jornalista Lira Neto. “Tenho muita vontade de transitar perto do western, meu gênero favorito – sou fã absoluto de John Ford –, e esse é um western barra pesada”, conta ele, aos risos. “É uma história fantástica, violentíssima e totalmente surreal. O Lira Neto costuma dizer que nem o García Márquez tomando chá de cogumelo escreveria algo assim.”

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG