"Sequestro" rumo ao Oscar

Filme sobre as "ações" da Divisão Anti-Sequestro de São Paulo anima Academia americana, mas divide opiniões no Cine Fest PE

Valmir Moratelli, enviado especial a Olinda (PE) |

Daniela Nader
O cineasta Wolney Atalla
Vencedor do prêmio da categoria documental no 10º Festival de Beverly Hills, “Sequestro”, do paulista Wolney Atalla, é apontado como fruto do sucesso de “Tropa de Elite”, ainda que o projeto tenha iniciado há nove anos. É mais um filme voltado à temática das ações do policial urbano, o que já é apontado como modismo atual do cinema nacional. Durante todo este tempo, a equipe de filmagens acompanhou o trabalho de operações da Divisão de Anti-Sequestro (DAS), de São Paulo. Exibido em Los Angeles e em alguns festivais nacionais, o longa foi apresentado na noite de quarta-feira (28), no Cine Fest PE, em Olinda. E dividiu opiniões.

As cenas são fortes. Uma das que provoca mais tensão é a do resgate de uma menina de seis anos, que estava prestes a ser morta pelos seqüestradores, e mantida em cativeiro, debaixo de uma cama, por várias semanas. “Por ter acompanhado este resgate, paramos as filmagens por duas semanas. Foi muito difícil lidar com determinadas situações de risco, ainda mais envolvendo crianças”, contou Atalla, que, após as filmagens, teve que recorrer a remédios para conseguir dormir.

O documentário, apelidado por uns como “BBB policial” - pela incrível aproximação das câmeras com as situações de risco, também arrancou risos contraditórios do público. Como na cena em que um bandido diz que não estupra suas vítimas porque “preza pela ética”. Segundo o diretor, foi tudo feito com o consentimento dos policiais. Além de casos de anônimos, também são citados alguns já bastante conhecidos do público – como o seqüestro do publicitário Washignton Olivetto, em 2002, e o do empresário Abilio Diniz, de 1989.

No documentário quem faz as vezes de “Capitão Nascimento”, o polêmico policial herói de “Tropa de Elite”, são os delegados da DAS. Quanto à crítica de que “Sequestro” os revela como bonzinhos livres de qualquer falha moral, ele não vê dessa forma. “Não é um filme sobre policiais, mas sobre vítimas”, define. "Achei o filme muito pró-policiais, até parece que temos ótimos profissionais atuando nas ruas", disse o estudante Paulo Antonio, após a exibição. "Faltou dar a cara a tapa, mostrar as fraquezas e medos dessas homens também. Ninguém é super-herói", disse a professora Maria Esteves. "Mas de qualquer forma, chorei muito durante o filme, e torci para que tudo terminasse bem", continuou.

A seguir, a entrevista com o diretor.

Interesse pelo assunto
“Estava nos Estados Unidos, quando soube que o publicitário Washington Olivetto havia sido seqüestrado. E fiquei interessado, porque nos Estados Unidos o assunto não é nem comentado. Em São Paulo, seqüestro é rotina no papo das pessoas diariamente. Vi que ali havia um bom tema para ser levantado e discutido pelas pessoas. A vontade veio de dessa indignação ao tentar entender isso”.

Acordo com policiais
“O único acordo que fizemos foi que eles poderiam assistir aos cortes do filme e dar palpite sobre o que entraria ou não, visto que estaríamos mostrando estratégias de negociação e de atuação deles.”

Bondade
“Nunca existiu qualquer tipo de acordo na forma como iríamos retratá-los em cena. Não é um filme com atuações, é sobre vitimas. Os policiais do DAS, por exemplo, não falam palavrão. Por isso mesmo, quem diz o único palavrão do filme é de um dos seqüestradores”.

Dificuldade financeira
“Por ser um tema polêmico, tivemos dificuldades de conseguir patrocínio. As marcas não queriam se associar a este assunto. Captamos, após muito custo, o valor de 1 milhão de reais para a realização. Mas ainda preciso de cerca de 200 mil para o lançamento.”

Oscar
“Não vamos colocá-lo agora imediatamente em cartaz, porque vamos exibir mais algumas vezes em festivais americanos. Os próprios membros da Academia me pediram para inscrever o filme ao prêmio do ano que vem. Eles gostaram muito”.

Conseqüências
“Além de ter que dormir à base de remédios, coisa que nunca tinha me acontecido antes, fui morar no Rio. Não que eu ache a cidade mais tranqüila... A lição que as pessoas seqüestradas, após libertadas, tiram é que não há preço que pague a liberdade. É o que todos falam logo que são soltas. Você fica se dedicando muito tempo ao trabalho e por vezes não dá valor ao contato diário com quem você ama. Só quando perde isso é que enxerga a convivência de outra forma”.

 * O repórter viajou a convite da organização do evento

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