Selton Mello: "Queria fazer um filme para o grande público"

Ator apresentou "O Palhaço", seu segundo filme como diretor, no Paulínia Festival de Cinema; leia entrevista ao iG

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

Selton Mello , já não é de hoje, quer ser algo mais do que um ator. Em “O Palhaço” , seu segundo filme como cineasta, é também o protagonista, Benjamim, um palhaço em crise de identidade, que ele admite ter enfrentado na época de escrever o roteiro, também de sua autoria.

É isso: Selton Mello quer ser um autor, provocar reflexão, e ao mesmo tempo, feito Dom Quixote, como ele define, dialogar com a multidão de pessoas que o tem como referência de cinema popular.

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Selton Mello em "O Palhaço": ator protagoniza e assina o roteiro de seu segundo trabalho como diretor
”É o meu romantismo de acreditar que é possível fazer um filme que se comunique com muita gente, mas que tenha apelo para quem tem possibilidade de fazer outras leituras”, disse o ator em entrevista ao iG , se referindo às “camadas” de interpretação da história.

A julgar pela reação do público no Paulínia Festival de Cinema, onde o filme abriu a competição de longas-metragens de ficção, Selton chegou lá. Filas imensas na porta do Theatro Municipal, princípio de tumulto, sessão dupla para acalmar os fãs e aplausos calorosos em cena aberta. Contudo, ele ainda é reticente. “Era um ambiente favorável, filmamos aqui e boa parte da equipe estava na sessão.”

A estreia de Selton na direção aconteceu com “Feliz Natal” (2008), drama denso sobre uma família desestruturada, com relações emocionais aos cacos. Agora, a família aparece de novo, mas no picadeiro, na forma de uma trupe circense. Na coletiva de imprensa que seguiu a exibição, disse que desta vez, menos afobado, tirou o peso dos ombros e não se preocupou com referências. Mesmo assim, citou várias: Renato Aragão, Hans Christian Andersen, Pinóquio, Chagall, Jacques Tatit e Peter Sellers em “Muito Além do Jardim” (1979).

O ator e diretor mostrou discurso articulado sobre o que faz – “a arte é um organograma emocional, em que se ordena as ideias e sentimentos para criar algo palpável” – e, apesar das referências a sua vida – a crise profissional, a homenagem à sua cidade natal, Passos (MG) –, negou qualquer conteúdo autobiográfico. “Se fizesse um filme autobiográfico, eu mesmo sairia no meio”, brincou.

Na entrevista ao iG , Selton Mello relembra sua estreia no cinema, sua admiração pela figura do palhaço, suas ambições.

iG: Como você vê o "Feliz Natal" hoje?
Selton Mello:
Como um filme muito importante de ter feito, como uma coisa até um tanto afobada, de querer me expressar. O primeiro filme é algo querendo falar "sou também isso aqui". Já o segundo é conduzido e concebido de uma forma muito mais plácida. Saiu o peso do primeiro. Então agora quis contar uma história sobre identidade, vocação, sobre o talento nato que você tem, ou o que a vida lhe ofereceu e os dilemas que você tem sobre isso.
Podia ser sobre um advogado que tem pai advogado, mas a figura do palhaço foi a primeira que me veio. Acho que ele representa o artista mais puro e pensei que poderia ser bonito contar isso a partir do ponto de vista de um palhaço. E por ser um palhaço, por ser o circo, coloca toda a discussão também em outro terreno, da imaginação, da fantasia. Torna tudo mais bonito.

iG: O movimento do seu personagem fala não só de vocação, mas de uma jornada de autoconhecimento.
Selton Mello:
Quando a gente apresenta o personagem, ele está muito incomodado que não tem uma identidade, que fica andando só com uma certidão de nascimento. Isso é um assunto muito caro ao artista circense, nas pesquisas que a gente fez. São nômades, ciganos, pessoas que não têm um CEP, comprovante de residência...

iG: Quando você teve a ideia para fazer o roteiro, estava com alguma dúvida com relação à sua carreira? O que te balançou?
Selton Mello:
Tive uma fase logo depois de começar a dirigir de que não estava tão feliz como ator. Mas a minha capitulação foi bem menos romântica do que a do Benjamim, e mais rápida. No fundo, mesmo assim, tudo é assunto. Quando se vai fazer um filme, você precisa descobrir sobre o que quer falar, qual é o assunto. Como ator, posso topar filmes em que o assunto principal às vezes não me interessa tanto, porque tenho muito interesse em trabalhar com determinado diretor, ou porque o personagem é interessantíssimo, muito louco. Mas como diretor, penso que tem de ser algo que você queira falar, uma mensagem que eu queira mandar. Acho que a mensagem aqui é, primeiro, doce. Isso tem a ver com a fase da minha vida e também porque acho que tem poucos filmes assim. Gostaria como espectador de ver mais filmes assim, que façam bem para o espírito, façam você pensar. Façam bem, mas sem ser algo simplório.

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Selton Mello sobre o colega Paulo José: "Um dos atores mais importantes do cinema brasileiro"

iG: O que você achou da reação do público na exibição?
Selton Mello:
Eu e minha equipe estamos muito felizes. Foi uma sessão memorável, a maneira como o público entrou no filme e seguiu aquele personagem, a trupe, aquelas aventuras internas e externas. Me deixou bem comovido. Vir aqui com o Paulo [José], que eu acho um dos atores mais importantes do cinema brasileiro, ao lado do José Dumont, por quem tenho a maior admiração e tenho vontade de algum dia fazer alguma coisa junto. Tudo isso é muito rico.

iG: "O Palhaço" lembra um pouco "Bye, Bye Brasil" (79), em que Cacá Diegues flagra uma época em que o entretenimento artesanal, de rua, perdia espaço para a TV. Apesar de não localizar o filme historicamente, você parece ter um olhar mais esperançoso para a sobrevivência dessa arte.
Selton Mello:
A fé no produto manufaturado... Romântico, né? Tem isso, essa é a história que a gente fez. Tem também outra coisa, nada fácil, que é tentar fazer um filme que se comunique com um público grande, mas sem perder algumas camadas de entendimento mais finas. Isso é algo dificílimo de conseguir, e nem sei se consegui. A julgar pela sessão, parece que deu certo. Foi uma reação popular no humor, nas coisas engraçadas, e nas emocionantes também. É uma coisa que estou percorrendo, é o meu romantismo de acreditar que é possível fazer um filme que se comunique com muita gente, mas que tenha apelo para quem tem possibilidades de fazer outras leituras. Ele tem elementos e profundidade real para você entender a humanidade daqueles personagens em camadas, e capacidade para se comunicar ao mesmo tempo. Essa é a tentativa, meio quixotesca, que vou tentar até o fim.

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Selton Mello no Paulínia Festival de Cinema
iG: O Plínio Profeta, compositor da trilha sonora, comentou que você colaborou muito, chegando até a sugerir notas. Você sente essa necessidade de participar de todas as etapas do filme, como um autor?
Selton Mello:
Falando especificamente do Plínio, somos amigos há muito tempo e também sou músico. A música é mais uma etapa do negócio, então eu participava das gravações. Ficava ali, o clarinetista tocando, e eu falava "puxa, isso foi lindo, mas aquela frase que você tocou antes me serve mais".
É legal quando você trabalha num ambiente afetuoso, independente de ser amigo ou não, onde as pessoas se respeitam e trabalham com calma. Mas sim, é isso [postura autoral]. Precisa desse acabamento, para enxergar o filme como um todo. Tenho interesse, prazer nisso. Estive colado na edição de som, na mixagem, em cada plin, póin, tóin... Um trabalho bem meticuloso.

iG: Há cenas inteiras de você e do Paulo no picadeiro. Como foi a preparação para sustentar isso? Houve algum trabalho especial?
Selton Mello:
A gente teve um preparador espetacular chamado palhaço Cuxixo [creditado no filme como “personal palhacetor”]. Ele se apresenta no circo do Beto Carrero e é um dos melhores em atividade no país. Nos ensinou gags físicas e me ajudou a detalhar as sequências dos palhaços no picadeiro. Depois já entra a decupagem, o cinema. A sequência inicial no circo, por exemplo, é enorme. Foram dois dias de trabalho: bota câmera de um lado, faz só o Paulo, no dia seguinte, só o meu. É um trabalho de organização mental para enxergar que aquilo tudo vai dar certo, vai montar.

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