"Scott Pilgrim Contra o Mundo" é o melhor filme de games já feito

Enredo baseado nos quadrinhos, porém, não tem muito a ver com o gênero

Caio Teixeira, editor do Arena Turbo |

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Michael Cera, o herói de "Scott Pilgrim Contra o Mundo": vidas extras, fases e armas especiais
Lembra de 1994, quando anunciaram "Street Fighter: A Batalha Final?" Se você era jovem, sem dúvida alguma entrou em uma euforia quase religiosa: “Mãe, eu vou poder ver o Ryu soltar 'hadouken' de verdade!”. Aí o filme começa, e o personagem principal é o Guile (Jean-Claude Van Damme), e o Sagat não soltava “tiger-robocop”, e o Ken não dava "shoryuken" e o Blanka era uma vergonha para o Brasil. Você nunca mais confiou em filmes de videogame, tudo bem, nem precisa – Uwe Boll ("Alone in the Dark", "Bloodrayne") está aí para realizar seus piores pesadelos. "Scott Pilgrim Contra o Mundo" chega aos cinemas paulistas nesta sexta-feira (05) provando que o melhor filme de videogame já feito não precisa ser inspirado em um game para conseguir o título.

Baseado na HQ homônima criada pelo quadrinista canadense Brian Lee O'Malley, "Scott Pilgrim" conta uma história básica de amor juvenil. O garoto, Scott (Michael Cera) se apaixona por uma garota, Ramona (Mary Elizabeth Winstead) que, no início, parece inatingível, mas que com um pouco de lábia e muita sorte acaba ficando com o mocinho. A história toma uma forma mais “fantástica” quando Scott descobre que, para poder ficar com Ramona, precisará enfrentar os Sete Ex-Namorados do Mal da garota.

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O casal do filme: no fundo, uma história de amor
Mas é aí também que boa parte do público se confunde no filme, lançado em agosto nos Estados Unidos com um desempenho decepcionante, algo próximo dos US$ 45 milhões. Quando Scott começa a brigar com os “exs” de Ramona, a referência a jogos de videogame é pesada, de golpes especiais, magiasa pontuações que resultam em uma “vida extra”.

Isso tudo acaba deixando o filme num limbo: é uma história de amor ou um filme de videogame? É uma comédia romântica ou uma aventura? Desse nó mental é que surge o brilhantismo da direção de Edgar Wright ("Chumbo Grosso", "Todo Mundo Quase Morto"). "Scott Pilgrim Contra o Mundo" é tudo isso e nada disso. Alguns podem interpretar as lutas como alegorias para o esforço de Scott em superar os “fantasmas do Natal passado” de Ramona. Para outros, menos preocupados numa interpretação tão elaborada, tudo não passa de batalhas incrivelmente bem-feitas e com ótimas referências contemporâneas.

“Choose your character!”

Um problema do filme é Michael Cera. Desde o sucesso de "Juno", o ator é considerado reflexo de uma geração, da juventude “nerd” no cinema. Logo, tudo que tem algo relacionado à cultura pop precisa ter Cera no elenco. Ele não interpreta mal Scott Pilgrim: apenas não combina com o personagem dos quadrinhos. Cera sempre terá a cara de alguém que precisa, desesperadamente, da mais nova edição de "Homem-Aranha", enquanto o Scott da HQ é alguém mais malemolente – tem sua banda (que sempre está a um passo do sucesso, mas nunca lá), teve algumas namoradas e até podemos dizer que tem uma facilidade com as mulheres. Tudo ao contrário do que Cera transmite.

Já Mary Elizabeth Winstead está perfeita como Ramona. Aliás, todo o elenco de apoio está muito bem no filme (apesar do indiano Satya Bhabha, o primeiro ex, caricato demais). Destaque para Wallace Wells (Kieran Culkin), “colega de quarto gay descolado de Scott”, como descrito no filme, que é ao mesmo tempo um grande alívio cômico e um personagem extremamente leve e bem construído. Por sinal, é difícil de ver atualmente um filme lidar com a homossexualidade de uma maneira tão madura e sem politicagem chata como aqui.

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Scott e o baixo: trilha sonora com ajuda de Beck
Quando a banda de Scott, Sex Bomb-Omb, tocava nos quadrinhos, era extremamente fácil pular as páginas – afinal, não tem como o leitor fazer ideia da melodia e a letra não é nem um pouco digna de nota. No cinema, o que você esperava virar algo equivalente a um NxZero da vida soa, literalmente, como música para os ouvidos. As onomatopeias da HQ são fundidas a cada acorde de guitarra, com a bateria de Kim Pine (Alison Pill) marcando o bate-cabeça na sala, junto com o baixo cru de Scott e o vocal mínimo de Stephen Stills (Mark Webber). Uma bela surpresa.

O compositor Beck participou ativamente de toda a trilha sonora, inclusive compondo a música “Ramona” e emprestando seu tecladista, Brian LeBarton, para criar uma versão 8-bit digna de um clássico do GameBoy. É empolgante escutar as músicas variando entre Blood Red Shoes, Rolling Stones, Broken Social Scene e Metric.

"Scott Pilgrim Contra o Mundo" é um filme para se assistir com a cabeça aberta – e qual não é?. Se a ideia era acompanhar uma reles história adolescente, a decepção pode ser tão grande quanto a de alguém que espera ver um legítimo “patektekdukem” ser desferido nas telonas. E isso, acreditem, quer dizer que é um ótimo filme.

Assista ao trailer de "Scott Pilgrim Contra o Mundo":

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