Ruy Guerra recebe Kikito de Cristal no Festival de Gramado

GRAMADO ¿ O cineasta moçambicano Ruy Guerra, 78 anos, recebeu na noite desta sexta-feira (14), das mãos da ex-mulher, a atriz Claudia Ohana, o Kikito de Cristal do Festival de Gramado. Aplaudido de pé, o diretor citou no palco uma frase do amigo Gabriel García Márquez, ao responder por que era cineasta: para que me amem, porque é um fascinante e doloroso ofício.

Marco Tomazzoni, enviado a Gramado |

Edison Vara/ PressPhoto

Ruy Guerra: homenagem pelo conjunto da obra

Radicado desde a década de 1950 no Brasil, Guerra se uniu ao Cinema Novo para lançar "Os Cafajestes" (1962) e, na sequência, "Os Fuzis" (1964), um dos filmes brasileiros mais celebrados da história. Na extensa filmografia do diretor, ainda estão "Ópera do Malandro", "Kuarup" e "Eréndira", inspirado justamente na obra de García Márquez.

Antes da cerimônia, Guerra comentou com a imprensa que considerava a honraria gratificante, ainda mais por ser pelo conjunto da obra, mas que ao mesmo tempo conservava um certo "sabor amargo". "Parece que gente está se aposentando, que vai ficar na prateleira e deixar os mais jovens fazerem cinema."

Verborrágico, sem papas na língua, o diretor ficou o tempo inteiro com um charuto nas mãos, apesar de não acendê-lo. Afastando de vez a chance de se afastar do ofício, disse que quer bater o recorde do português Manoel de Oliveira ¿ que aos 100 anos continua filmando ¿ e tem três projetos em andamento.

O principal deles é "Quase Memória", adaptação do livro homônimo de Carlos Heitor Cony, que deve ser rodada em 2010, graças a uma coprodução com Portugal. Os outros dois são "O Tempo à Faca", que marcaria um retorno do diretor ao Nordeste, e "Três por Quatro", ideia antiga de finalizar uma trilogia composta por "Os Fuzis" e "A Queda".

Apesar de ativo, Guerra lamentou seu recente divórcio com o público, devido aos fracassos de bilheteria de "O Veneno da Madrugada" e "Estorvo", baseado na obra de Chico Buarque. "Não me agrada que o público não veja meus filmes, mas também não me agrada fazer os filmes que o público gosta. Estou procurando um meio-termo", brincou. "Popular é fazer algo que defenda os interesses do povo e do público, e não o que procura agradar."

Divulgação / Cristiano Sant'Anna

Claudia Ohana e o diretor Ruy Guerra comemoram no lobby do Palácio dos Festivais

Decepcionado com a ficção contemporânea, o cineasta disse ter encontrado na ciência um modo de estimular sua criatividade. "Cheguei a um nível de paixão pela ficção que não encontro nos ficcionistas, são muito cartesianos. Já os físicos e matemáticos são delirantes, de uma loucura ficcional das mais extraordinárias. Quando leio física, sinto que não preciso respeitar nada."

O desapontamento de Guerra com a literatura, no entanto, é eclipsado pela maneira como enaltece o cinema nacional. Segundo ele, há anos o País produz filmes muito melhores do que Hollywood. "Independente de seus valores estéticos, desequilíbrios e imperfeições, o cinema brasileiro continua representando seu povo", defendeu. "Até certas comédias que acho horrorosas tem mais densidade cultural do que similares do cinema norte-americano."

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