"Rio" contrapõe Zé Carioca e Zé Pequeno

Animação de Carlos Saldanha passa uma imagem cordial do brasileiro e encontra equilíbrio entre olhar estrangeiro e local

Ricardo Calil, colunista do iG |

Divulgação
Jade e Blu, os protagonistas de "Rio": afirmação do imaginário coletivo da cidade
Nova animação do carioca Carlos Saldanha, da série “A Era do Gelo”, produzida por um grande estúdio hollywoodiano, “Rio” promove um curioso encontro entre Zé Carioca e Zé Pequeno. Ou seja, entre dois bem-sucedidos produtos de exportação audiovisual made in Brazil, dois estereótipos quase opostos do brasileiro.

De um lado, o malandro boa-praça e afetuoso – encarnado por Zé Carioca em “Alô, Amigos” (1942), da Disney. Do outro, o criminoso frio e violento, incapaz de se relacionar com o próximo – personificado pelo Zé Pequeno de “Cidade de Deus” (2002). Ao longo de “Rio”, Saldanha tenta achar um equilíbrio entre essas duas visões, entre natureza e favela, entre bossa nova e pancadão.

Essa divisão fica evidente já na primeira cena: um samba na floresta com pássaros cantando e dançando animadamente em meio à natureza exuberante do Rio de Janeiro – até que todos eles são capturados por traficantes de animais, incluindo uma pequena arara-azul macho. Ele vai parar na gélida Minnesota, Estados Unidos, onde é criado como um rei pela tímida Linda (voz de Leslie Mann) e batizado de Blu (Jesse Eisenberg).

Muitos anos mais tarde, o biólogo brasileiro Túlio (Rodrigo Santoro) encontra Blu e convence sua dona a levá-lo ao Rio para cruzar com a fêmea Jade (Anne Hathaway) – os dois são os últimos sobreviventes da espécie. Mas, em meio ao carnaval carioca, os pássaros são logo sequestrados por um traficante e por uma ave do mal. Enquanto tentam escapar, o mimado Blu e a destemida Jade vão tentar brigar muito – até, obviamente, se apaixonarem.

No balanço final de “Rio”, prevalece uma imagem cordial do brasileiro, muito apropriada para este momento de reafirmação internacional do país. Mas as presenças de um traficante, de seus comparsas e de um garoto de favela a serviço do crime mostram que Saldanha entendeu também o impacto de “Cidade de Deus” sobre o imaginário coletivo do estrangeiro a respeito do Brasil. Há inclusive uma sequência que cita claramente a cena da perseguição da galinha no filme de Meirelles.

O fato de recorrer a esses estereótipos não torna “Rio” um mau filme – e nem Saldanha um mau cidadão. Porque o diretor soube brincar com eles a favor de sua obra, e não contra o país. Ele consegue achar um equilíbrio entre o olhar estrangeiro e o olhar de um local, entre o fantasioso e o real. Além disso, o cineasta “filma” muito bem o Rio, sua natureza, sua arquitetura, seu carnaval – melhor que a maioria dos filmes não-animados brasileiros. E, como já havia demonstrado em “A Era do Gelo”, Saldanha é bom de gags visuais.

O fim do filme – que envolve Túlio, Linda e o garoto favelado carioca – merecia uma análise sociológica. É quase uma proposta de rearranjo diplomático/social entre EUA e Brasil, riqueza e pobreza – uma ideia bem-intencionada, mas condescendente. Mas talvez seja levar o filme a sério demais. Mais preocupante é o fato de “Rio” ocupar mil salas de cinema a partir desta sexta-feira , deixando pouco espaço para filmes menores. É uma curiosa forma de dominação cultural: Hollywood exportando o Brasil... para o Brasil.

null

null

null

    Leia tudo sobre: rioanimaçãocarlos saldanhahollywood

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG