Retrato íntimo do homenageado Manuel Bandeira encerra Flip 2009

PARATY ¿ O último dia da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip, dedicou neste domingo (05) mais uma bela homenagem a Manuel Bandeira, grande nome do evento, ao trazer para o palco da Tenda dos Autores duas personalidades que conheceram em pessoa o poeta. O pesquisador Edson Nery da Fonseca, 88 anos, e o jornalista Zuenir Ventura, 78 anos, compartilharam lembranças de Bandeira e celebraram seu legado, declamando sem comedimento várias de suas poesias.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Professor emérito da Universidade de Brasília, Nery foi amigo e correspondente do poeta durante anos e publicou Alumbramentos e Perplexidades, análise sobre as influências na obra bandeiriana relançada durante a Flip com um CD em que o autor lê as poesias abordadas. A idade avançada tornou o caminhar do professor mais lento, mas manteve intacta uma memória prodigiosa, capaz de reproduzir dezenas de poemas do homenageado.

Nery lembrou que ouviu falar pela primeira vez de Bandeira através do sociólogo Gilberto Freyre, de quem é o maior especialista no País. Freyre havia encomendado ao poeta uma poesia sobre a capital pernambucana, mas o pedido foi recusado de pronto: Poema não é bolo de casamento ou algo que se encomende. No fim das contas, pensou melhor e entregou Evocação do Recife, um de seus mais belos trabalhos.

Zuenir Ventura, por sua vez, foi aluno de Bandeira na Faculdade Nacional de Filosofia, no Rio, na disciplina de letras hispano-americanas. Míope, dentuço, com tosse de ex-tuberculoso, não era nada bonito, nem dava espetáculos na sala de aula. Como ele mesmo já disse, parecia que tinha engolido um piano e deixado as teclas saírem pela boca. Na década de 1950, já desfrutava de carreira consagrada, mas, mesmo assim, tinha um certo pudor, não deixava isso transparecer na universidade, que ficava em frente ao prédio onde morava.

O jovem Ventura, aliás, visitou com um grupo de colegas o apartamento do mestre, fato que narra no livro Histórias dos outros ¿ um lugar asséptico, pequeno e rodeado de livros, típico de um acadêmico solteirão. Isso não queria dizer, no entanto, que ele não fosse namorador. Nery citou Rachel de Queiroz, que falava que as mulheres adoravam Bandeira, e ele a elas.O problema, dizem, era o temor do casamento.

Além de lembrar que Bandeira passava bastante tempo com artistas populares numa época em que isso era visto com preconceito, Ventura contou que, ao sair do apartamento do professor, ganhou um poema sujo, cheio de palavrões, cuja simples menção fez Nery da Fonseca sair do sério. Não é pornográfico, é porco, atacou, dizendo duvidar que o poeta o tivesse escrito. Cordato, o jornalista não discordou, apesar de comentar que tem coisas do Bandeira ali.

Elogioso o tempo inteiro com o amigo, Nery rebateu as críticas de que sua obra é melosa, lírica demais. As pessoas se enganam quando chamam Bandeira de sentimental, piegas ¿ tem sentimento, mas não sentimentalismo. Com uma voz grave, clara e interpretando com gosto cada palavra, o estudioso declamou diversos poemas: Última canção do beco, Arte de amar, Cotovia. A empatia com a plateia foi tão grande que as perguntas foram substituídas por poesia, e os aplausos de pé, no final, foram naturais a uma cena tão emocionante.

Leituras preferidas

Na última mesa do dia, parte dos escritores convidados leram trechos de seus livros preferidos. As maiores estrelas deste ano ficaram de fora, mas, mesmo assim, Tatiana Salem Levy, Rodrigo Lacerda, Mario Bellatin, Sophie Calle, Anne Enright, Atiq Rahimi e James Salter proporcionaram bons momentos ao trazer ao palco indiretamente grandes nomes da literatura mundial, como Marguerite Duras e o poeta e.e.cummings.

Fonseca trouxe o romance Viva o povo brasileiro, de João Ubaldo Ribeiro, citado na noite de ontem por António Lobo Antunes. Foi um dos livros que fez com que eu mais tarde quisesse ser escritor. João Ubaldo é um dos raros escritores em que a literatura é um traço de caráter, muito mais do que uma pirueta intelectual.

Mesmo tendo recusado a princípio participar da mesa, a francesa Sophie Calle voltou atrás porque isso não parece funcionar em Paraty. A surpresa, contudo, ficou justamente por conta da escolha da artista plástica: O Convidado Surpresa, de Grégoire Bouillier, seu ex-namorado, que descreve no livro como foi a relação dos dois. Sempre sonhei em ter um livro dedicado a mim, mas no dia em que ele foi lançado, Grégoire me deixou, disse, acrescentando ter sempre mantido a obra longe. Hoje à noite parece um bom momento para encerrar meu desgosto, completou, antes de iniciar a leitura.

A sétima edição da Flip ficará lembrada por ser o ano em que aconteceu a vinda de Lobo Antunes. Em uma palestra cheia de humor, simpatia e amor à literatura, o autor português protagonizou o que vem sendo descrito como um dos mais belos momentos da história do evento, se não o melhor.

O tema que permeou diversos debates de 2009, em uma sintonia voluntária ou não, foi a barreira entre realidade e ficção. A mistura entre as duas fontes inesgotáveis para a literatura foi assunto das conversas de Tatiana Salem Levy, Sérgio Rodrigues e Arnaldo Bloch, passou pelo encontro de Calle e Bouillier e surgiu ainda no bate-papo de Mario Bellatin e Cristovão Tezza, sem contar a não-ficção de Gay Telese e da francesa Catherine Millet.

Confira abaixo o balanço realizado pelos organizadores da Flip e os principais destaques da festa em Paraty:

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