Reginaldo Faria volta romântico em "O Carteiro"

Ator retoma trabalho como diretor em comédia do túnel do tempo exibida em Gramado

Marco Tomazzoni, enviado a Gramado |

Queridinho do Festival de Gramado, onde ganhou dois prêmios de ator e recentemente outro pelo conjunto da obra, Reginaldo Faria disse no Palácio dos Festivais se sentir "quase um gaúcho". Praticamente três décadas depois de dirigir seu último filme, apresentou na noite de quinta-feira (11), em competição no evento, "O Carteiro", rodado no Rio Grande do Sul – cumpre, portanto, a cota do tradicional representante gaúcho no evento, independente da qualidade. Como era de esperar, o palco ficou lotado de integrantes da equipe quando Reginaldo confirmou no microfone: "renasci aqui, após esse intervalo longo de 27 anos".

Divulgação
Candé Faria como Victor, o protagonista de "O Carteiro", dirigido pelo pai, Reginaldo Faria
Integrante de um dos clãs do cinema brasileiro, Reginaldo Faria cresceu no meio. Ao lado do irmão, Roberto Farias, futuro presidente da Embrafilme, vivia a rotina dos sets e estreou como diretor no fim da década de 1960 com a safadeza de "Os Paqueras". Fez outros filmes do gênero, experimentou o policial em "Barra Pesada" (77) e disse adeus com a comédia "Aguenta, Coração" (84).

Sem conseguir emplacar um projeto desde então, amadureceu e chegou aos 74 anos saudosista, ansioso por retratar um estado de pureza e ingenuidade perdido no mundo contemporâneo. O resultado disso é o roteiro de "O Carteiro", filmado em Vale Vêneto, distrito de colonização italiana no interior gaúcho.

Ali criou o universo de Victor (Candé Faria, filho do diretor), jovem carteiro fascinado por poesia e Machado de Assis que tem por hábito violar a correspondência dos moradores. Conhece todas as paixões e intrigas da comunidade, com a cumplicidade do companheiro de trabalho, Jonas (Felipe de Paula), o alívio cômico. Os dois se divertem interferindo nas mensagens, tanto para confundir ou para dar uma mãozinha a corações desesperados.

A coisa muda de figura quando a colegial Marli (Ana Carolina Machado) se muda para a cidade e Victor se apaixona. Ao ler as cartas da adolescente, contudo, descobre que ela tem namorado e, sem conseguir se conformar, começa a se passar por ele. As idas e vindas de envelopes colaboram para um emanharado de tramoias, corações dilacerados e comédia ligeira.

Mesmo situado na década de 1980, "O Carteiro" é anacrônico. Por mais que naquela época não houvesse tecnologia, o sentimento geral é do Romantismo, digno de um melodrama de José de Alencar, onde se pode morrer de amor, suspirar de paixão olhando para uma paisagem bucólica e chorar ao pensar na pessoa amada – que o diga a prosa poética do protagonista. Tudo embalado por uma trilha sonora onipresente e faceira.

nullAté aí, tudo bem – seria difícil não se identificar com um garoto apaixonado. O mundo ao redor dele é que não tem estofo suficiente para sustentar a simpatia. Felipe de Paula é engraçadinho como o amigo atrapalhado e o veterano Anselmo Vasconcelos rouba as cenas em que aparece, mas os outros personagens são pouco desenvolvidos ou equivocados – estão no grupo o delegado (Marcelo Faria), a inacreditável fotógrafa Natalina (Ingra Liberato), e a desamparada Doroti (Dany Stenzel, mulher de Candé). Da fogosa viúva Genoveva (Fernanda Carvalho Leite) e do dono do bar (Zé Victor Castiel), pouco se sabe.

A impressão é que Reginaldo quis fazer seu "Amarcord" pessoal – impossível não lembrar do álbum de recordações de Federico Fellini. A diferença é que enquanto o italiano tece uma colcha de retalhos, o brasileiro cria uma esburacada trama de investigação, sem roteiro decente. Se antes era possível ignorar os problemas de fluência, rumo ao desfecho as travessuras de Victor perdem a pouca graça e as situações, quando não artificiais, são sem sentido, mal explicadas.

Cheio de boas intenções, "O Carteiro" simula uma engrenagem há muito tempo sem funcionar. Se azeitada, podia ficar muito melhor. Disposição, Reginaldo Faria tem.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG