"Rango" usa camaleão para homenagear faroeste

Além de dublar personagem-título, Johnny Depp inspirou equipe de animadores

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
Rango na cidadezinha de Poeira: camaleão banca o valente e é promovida a xerife
Depois de três filmes da milionária franquia "Piratas do Caribe" e da comédia dramática "O Sol de Cada Manhã", o diretor Gore Verbinski decidiu fazer uma animação, que, na sua opinião, seria um projeto "menor", mais simples. No fim das contas, "Rango" consumiu cinco anos de trabalho, US$ 135 milhões e ganhou estatus de grande lançamento ao ser adquirido pela Paramount, em especial pela presença de Johnny Depp, chapa de Verbinski, liderando o time de dubladores. O casting foi perfeito: Depp nasceu para interpretar um camaleão perdido no Velho Oeste, por mais bizarro que isso possa parecer e, por isso mesmo, ideal para o ator. Conheça animações de subgêneros do cinema

É mais ou menos essa a premissa de "Rango", escrito por John Logan, que já acumula duas indicações ao Oscar ("Gladiador" e "O Aviador"). Preso em uma caixa de vidro, sem interagiar com ninguém, o réptil do título vive em um mundo ilusório, criando folhetins num arremedo de Shakespeare para passar o tempo e tentar arranjar alguma identidade em sua rotina de animal doméstico exótico. Ele acaba caindo do carro dos donos no meio do Deserto de Mojave, na Califórnia, e vai parar numa cidadezinha típica de faroeste, mas com bichos: ratos, esquilos, galinhas, tartarugas, lebres, tatus e por aí vai.

Forasteiro da vez, Rango adentra o saloon local, se mistura – ele é um camaleão, afinal de contas – e encarna o dramaturgo amador que é: finge ser durão, matador profissional, e assume como xerife. O povoado de Poeira enfrenta uma crise sem precedentes de falta d'água e ele tenta resolver o problema, enquanto se engraça pela iguana Beans (Isla Fisher, mulher de Sacha Baron Cohen). Tudo é narrado por quatro corujas mariachis, que completam a trilha sonora folclórica composta pelo grupo Los Lobos.

Apesar da estrutura simplória da trama – herói não é quem diz ser, mas passa por prova de fogo para recuperar a confiança de todos –, a animação não é nada infantil, a começar pelas referências. Diversos filmes são citados, de aventuras clássicas como as cinesséries "Indiana Jones" e "Guerra nas Estrelas" a "Chinatown" (1974) e "Medo e Delírio" (1998), loucura lisérgica de Terry Gilliam a partir do livro gonzo de Hunter S. Thompson. Depp era o protagonista – atenção para a versão digital do personagem logo no início – e lembrou bem daqueles tempos para compor o camaleão.

A diferença aqui é que a personalidade dos dubladores não ficou restrita às vozes, mas orientou a composição dos animais. No primeiro longa animado da Industrial Light & Magic, companhia de efeitos especiais de George Lucas, Verbinski, ao invés de conduzir gravações tradicionais em frente aos microfones, vestiu os atores com figurinos de época e fez eles interpretarem de verdade as cenas, para extrair o máximo de autenticidade cada um, filmando tudo. As gravações serviram de base para os animadores criarem os personagens, seus movimentos e suas expressões faciais – não é surpresa, portanto, que Rango se pareça, de certa forma, com Depp, assim como os outros atores e seus papéis ( confira no vídeo abaixo ). Também no elenco, estão Abigail Breslin, Ned Beatty, Alfred Molina e Bill Neaghy, impagável, como a cascavel vilã.

nullO resultado, além de fluente, é genuíno, ainda mais pela consultoria do veterano diretor de fotografia Roger Deakins, indicado a nove Oscar, que tem ao menos dois faroestes no currículo, "Bravura Indômita" (2010) e "O Assassinato de Jesse James pelo Covarde Robert Ford" (2007). E, apesar das influências díspares, é esse o território mãe de "Rango", em especial os westerns spaghetti de Sergio Leone. A homenagem é clara e Rango, uma versão desajeitada do Estranho Sem Nome interpretado por Clint Eastwood (citado ao longo da história).

Essas piscadelas cinéfilas garantem boa parte da diversão, mas "Rango" é despretensioso, bem-humorado e ágil o suficiente para segurar o espectador o tempo inteiro. Levar as crianças é arriscado, embora os bichos possam acabar cativando pela estranheza e traços engraçadinhos. É mais seguro ir por satisfação própria, procurando as cópias legendadas – o sotaque caipira da dublagem em português fica longe, bem longe das vozes originais.

Assista ao trailer de "Rango":

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