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Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo leva experimentação ao Festival de Veneza

SÃO PAULO ¿ Um falso documentário, um filme que até tem dúvidas de ser um, uma história em que o protagonista não aparece em nenhum momento. É com esse ar assumidamente desafiador que o brasileiro ¿Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo¿, de Marcelo Gomes e Karim Aïnouz, chega ao Festival de Veneza, na mostra parelela ¿Horizontes¿.

Marco Tomazzoni |

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O diretor Karim Aïnouz

O projeto inicial começou na década de 1990, quando os diretores ainda nem haviam dirigido seus primeiros longa-metragens: Aïnouz, Madame Satã, e Gomes, Cinema, Aspirinas e Urubus, ambos reconhecidos internacionalmente. Vindos do Nordeste ¿ o primeiro do Ceará, o outro de Pernambuco ¿, os dois se encontraram na capital paulista e de cara perceberam que tinham isso em comum, numa época em que ser de fora do eixo Rio-São Paulo ainda importava. Começaram a trocar ideias sobre seus roteiros e daí surgiu uma afinidade de sempre colaborar um com o outro.

Em 1999, a dupla saiu vencedora de um prêmio do Itaú Cultural e foi a Juazeiro do Norte filmar o sertão. Junto com uma não-equipe, com Heloísa Passos na fotografia, produtores e motorista, colheram imagens na Bahia, Sergipe, Ceará, Alagoas e Pernambuco com a ideia de fazer um documentário. A experiência rendeu o curta-metragem Sertão de Acrílico Azul Piscina, mas o farto material parecia pedir algo mais.

De Nova York, onde passa uma temporada, Karim Aïnouz explicou ao iG que aquelas imagens traziam alguma coisa nostálgica para ele e Marcelo, seja pelas várias bitolas utilizadas nas gravações ¿ super-8, 16 mm, digital ¿, seja pelas memórias dos antepassados que não conheceram. O sertão que a gente imaginava, isolado, não era mais tão isolado assim, com a globalização na virada da década. Ao mesmo tempo, mais do que uma viagem pelo sertão, foi pra gente uma travessia do deserto, disse.

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"Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo" tem imagens colhidas em cinco estados

O tempo passou e com ele surgiram novas inspirações, boa parte delas fruto das filmagens de Cinema, Aspirinas e Urubus, Madame Satã e O Céu de Suely (também de Aïnouz), todos filmados no Nordeste. Em busca de uma outra forma para contar essa história, unindo também slides, fotos e músicas colhidas em suas viagens, os diretores decidiram trazer um personagem ficcional e transformar tudo em uma espécie de diário de viagem, como aquilo havia sido de fato para eles.

Aí entrou o ator Irandhir Santos (Besouro, A Pedra do Reino, Baixio das Bestas) como um geólogo enviado para realizar uma pesquisa de campo no sertão que se identifica com o isolamento da paisagem e sofre com a saudade da ex-mulher. Em nenhum momento, no entanto, ele aparece em cena, e o trabalho dos dois cineastas foi justamente construir a dramaturgia do filme só com a narração em off e as imagens.

Foi esse o grande desafio, lidar com o desejo do espectador de querer ver o personagem depois que o filme acaba, contou Karim, afirmando que o resultado final surgiu mais de uma experiência empírica, colocando a mão na massa, do que de planejamento. Foi um trabalho eterno no roteiro. O texto teve umas seis versões, mudamos imagens e regravamos o texto várias vezes, para encontrar sutilezas na interpretação e descobrir o tipo de velocidade na fala.

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Personagem principal de "Viajo Porque Preciso" nunca aparece no longa-metragem

O saldo disso tudo é descrito pelo diretor não como um filme, mas sim como um experimento cinematográfico, uma pesquisa de linguagem que talvez não fosse possível se o projeto estivesse atrelado a interesses comerciais. Nosso desejo era fazer algo que a gente tivesse controle sobre tudo. Uma coisa íntima, que não precisasse ser debatida com cinco produtores e de olho no mercado. Um cinema feito à mão.

O desprendimento é tanto que a dupla pretende questionar até o formato de exibição. Segundo Karim, a ideia é fazer com que Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo entre na cartaz nas salas brasileiras, mas que o público o consuma de uma maneira diferente, quem sabe em espaços menores,  para 20, 30 pessoas, em galerias de arte ou até ar livre.

É um filme para ser visto por pessoas jovens, para provar que é possível fazer cinema com restos de imagens, de película, que existem formas diferentes de se contar uma história e que ainda é possível que ele seja visto, por isso é bacana essa seleção para Veneza, apontou Aïnouz.

Assista a trechos de "Viajo Porque Preciso, Volto Porque Te Amo":

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