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Quem escreve o livro é o leitor , garante o português António Lobo Antunes

PARATY ¿ Com semblante impassível, língua afiada e muitas ideias, o português António Lobo Antunes, 66 anos, dominou como poucos uma conversa com a imprensa ontem em Paraty. Tido como recluso, o escritor ¿ considerado um dos grandes da prosa lusitana contemporânea ao lado do ¿antípoda¿ José Saramago, por sucessos como ¿Cus de Judas¿ e ¿Memória de Elefante¿ ¿ entrou em silêncio, mas poucos minutos foram necessários para ele dar início a uma espécie de palestra, entrecortada aqui e ali por perguntas de jornalistas.

Marco Tomazzoni, enviado a Paraty |

Divulgação/Edu Girão

"Se os livros fossem anônimos, poupariam muitos problemas", garantiu Lobo Antunes

Nascido em Lisboa, neto de brasileiros (sua família é do Pará), Lobo Antunes queria cursar a faculdade de Letras para ser escritor. O pai, médico, concordou, ou melhor, mais ou menos: Está bem, filho, disse, vais fazer medicina. Cursou psiquiatria ¿ porque cirurgia exigia muito estudo e precisava de tempo para escrever ¿, clinicou e, antes de se afastar da prática, já estabelecido como autor, aprendeu uma frase de um paciente esquizofrênico, barbudo, uma espécie de Cristo atormentado que apareceu no hospital, e que considera a grande revelação da literatura: o mundo foi feito por trás.

Na verdade, é isso mesmo. Na literatura, não se pode ver as costuras, o avesso. Em F. Scott Fitzgerald e Hemingway, é preciso ler quatro ou cinco vezes para tentar achar os pontos onde eles solucionaram impasses, os pontos difíceis. Pela dificuldade de encontrar obras costuradas direito, reclamou da quantidade de livros publicados e confessou ser um mau leitor, pela vontade de pegar a caneta e sair corrigindo. Escrever é muito, muito difícil. Mas ao mesmo tempo é uma experiência muito boa quando, como autores, conseguimos ficar de pé, sobre as duas pernas, e projetar uma sombra.

Conhecido por ser dono de uma narrativa complexa, que exige certo esforço para sua compreensão, Lobo Antunes refutou caminhos fáceis ou espertos e disse que quem precisa ser inteligente é o livro, não o autor. Não se pode seduzir o leitor dando soluções óbvias, como se estivesse piscando para ele. É errado dar transigência ao leitor, ele mesmo tem que aprender a lê-lo; os bons livros vêm com sua própria chave. Afinal, quem escreve o livro é o leitor; se o nome dele viesse na capa, resolveria muitas coisas.

Ao responder quem considerava atualmente o maior romancista da língua portuguesa, respondeu, eu. Diante da risada geral, emendou: se quiserem, posso mentir. As frases de efeito, trabalhadas com belos adjetivos e metáforas primorosas, fazem parte, reconheceu, de um jogo com a imprensa, uma encenação pura e simples. Não gosto de dar conselhos porque não gosto de receber, mas se pudesse dar um seria nunca acredita num escritor. Estou sempre a posar de perfil para a eternidade, reparem como sou profundo, brincou. A maior parte dos jornalistas querem que eu faça jus a essa postura, é um jogo de equívocos.

Em 2007, Lobo Antunes iniciou uma luta contra o câncer que, imaginava, não iria ganhar. Recuperado, fez da experiência motor para alguns trabalhos e lhe mostrou um lado que não conhecia, o de paciente. Doenças são uma falta de educação da natureza. Essas pessoas [doentes de câncer] têm uma dignidade natural, uma profunda coragem. Lembro de um senhor de 90 anos, com nódulos espalhados por todo o corpo, que sempre ia ao hospital de traje completo, a gravata mais bonita que já vi, e avançava para o guichê como se fosse um rei. Eles são muito melhores do que eu.

Autor de mais de 20 romances, Lobo Antunes vem à Flip para lançar dois novos livros no País: Explicação dos Pássaros (1981) e O Meu Nome é Legião (2007), ambos pela Alfaguara. Quanto ao ato de escrever, que dá nome à sua mesa, às 19h de sábado, confessou que está relacionado de certa forma a um complexo latente dos homens. Freud falava da inveja do pênis, mas a da gravidez é muito maior. No fim, escrever é a única maneira de ficar grávido.

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