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Quadrinho não precisa ser literatura , defende Rafael Grampá

SÃO PAULO ¿ Pela primeira vez a Flip ¿ Festa Literária Internacional de Paraty vai abrir um espaço destinado apenas aos quadrinhos, reunindo em uma mesa redonda os quadrinistas Rafael Coutinho, Fábio Moon, Gabriel Bá e Rafael Grampá, sendo os três últimos ganhadores do http://www.omelete.com.br/quad/100014061/Eisner_Awards_2008.aspxEisner Awards 2008, mais importante premiação de quadrinhos norte-americana, pela HQ 5, feita ainda com a participação de Becky Cloonan e Vasilis Lolos.

Guss de Lucca |

Divulgação

Rafael Grampá: "Parece que acharam
uma desculpa para gostarem de HQs"

O convite deixa clara a importância cada vez maior da arte sequencial no mercado editorial e certamente reacenderá a discussão sobre quadrinhos serem ou não literatura. Se por um lado o cinema já acertou seus ponteiros com as HQs, um certo ranço parece persistir quando o assunto envolve gibis e livros.

Um dos capítulos mais emblemáticos desse impasse foi a escolha da HQ "Maus - A História de um Sobrevivente", de Art Spiegelman, como vencedora do Prêmio Pulitzer de Literatura de 1992. A partir desse momento, a discussão não parou, voltando à tona sempre que os quadrinhos pareciam invadir o território "inimigo".

Também vale citar a nomeação de "Watchmen", de Alan Moore, como um dos 100 melhores romances do século 20 pela revista Time e a indicação de "American Born Chinese", de Gene Luen Yang, ao National Book Award ¿ tendo o último gerado um rebuliço entre leitores de HQs, que se enfureceram com o ataque do jornalista Tony Long, um dos editores da versão online da revista Wired.

Para adiantar um pouco desse debate, o iG conversou com Rafael Grampá, autor da HQ "Mesmo Delivery", lançada no Brasil pela editora Desiderata, sobre sua carreira, novos projetos e a expectativa da mesa "Novos traços" da Flip.

Como você recebeu o convite para participar da Flip?

Deixa eu me lembrar... Talvez o Joca [Reiners Terron, mediador da mesa] tenha me avisado. Convidaram ele falando que eu ia ser um dos convidados, só que eu não sabia. Esperei me ligarem e depois o Joca confirmou. Até um amigo do jornal O Globo havia me perguntado se era verdade e eu falei para ele em off, só que ele logo colocou no jornal e deu um furo (risos).

Você acha que ainda se discute se quadrinho é literatura? Ou essa discussão já morreu?

Tenho me preparado porque essa pergunta vai rolar. Não há uma resposta pronta, porque não é, mas tem gente que acha que é. Eu que faço quadrinhos posso dizer que o processo de criação e o momento de leitura são diferentes de um livro, a sensação quando se lê quadrinhos é totalmente diferente.

Não acho que é literatura não, pois tem seu próprio público e seu próprio prestígio. Não precisa ser comparado à literatura, é uma grande bobagem. Parece que enfim acharam uma desculpa para as pessoas gostarem de HQs, o que é um erro.

É a mesma coisa que dizer que foto é cinema. Uma coisa é bem diferente da outra, mas há uma certa proximidade. Os quadrinhos podem acabar encantando os amantes de literatura e o inverso também.

Reprodução
A influência do cinema no seu trabalho é clara e declarada. Onde entra a literatura nos seus quadrinhos?

Existe muito pouco. Eu sou um cara bem visual mesmo. E para fazer esse primeiro trabalho a literatura foi a menor das influências. Gosto do Cormac McCarthy. Talvez tenha um pouco de "Onde os Velhos Não Têm Vez" na "Mesmo Delivery", aquela parada mais árida do texto dele.

Desses mais novos seria isso, para não citar os clássicos brasileiros, que todo mundo têm que ler. Eu li o "Onde os Velhos Não Têm Vez" antes de escrever, meio durante... Talvez aqueles cenários tenham me inspirado, mas já tinha na minha cabeça. Não sei se tem tanta influência.

O interessante é que eu fui pegar o [livro] "A Estrada" para ler e é uma história apocalíptica - eu não sabia disso. E atualmente estou trabalhando numa história apocalíptica.

Em entrevista ao Omelete , você falou sobre o perigo da frustração de trabalhar só com quadrinhos, principalmente quando se copia outros autores. Mas o que se vê na maioria dos casos são aspirantes copiando trabalhos de desenhistas consagrados. Você acha que isso é uma cilada?

Não, acho que esse é o começo, mas não pode ser o fim. Começa por aí, mas se você só copiar o cara será mais um, vai ganhar uma mixaria e viver reclamando. Se tiver potencial para fazer algo diferente, que só você está fazendo, a capacidade de sobreviver com ele e da sua carreira durar é maior. A cópia do Jim Lee vai ser só a cópia do Jim Lee. A molecada tinha que fazer gravuras, outras coisas, porque isso só ajuda a achar o seu caminho.

Além do prêmio Eisner Awards pela HQ "5", pode-se dizer que a responsável pelo seu reconhecimento no exterior ocorreu com a "Mesmo Delivery". Observando algumas páginas suas na revista "Hellblazer", nota-se de cara que a paleta de cores é muito semelhante com a da "Mesmo". Isso foi uma opção sua ou um pedido dos editores?

Nos Estados Unidos, o Eisner Awards não teve tanto impacto para a nossa carreira. Muita gente ruim ganha o Eisner. Já vi caras ganharem que "pelo amor de Deus"... O Eisner fez diferença aqui no Brasil por causa do ineditismo. Lá no exterior tem muita gente boa, então o que destaca não é o prêmio, mas a qualidade do trabalho.

Quanto à paleta de cores, foi uma decisão minha trabalhar com o mesmo colorista, o Marcos Pena. Eu o convidei e mandei uma prova do desenho, pedindo que incluísse mais amarelo e azul na paleta.

Reprodução

Arte de Grampá para "Furry Water

Como é passar de um trabalho autoral, como a "Mesmo Delivery", para algo mais "industrial", como são as revistas do mercado norte-americano de quadrinhos?

Eu não sei te dizer, pois só fiz uma história de oito páginas. Não cheguei a entrar no mercado "fabriquinha" e nem é essa minha ideia. Meu plano é seguir como artista autoral.

Voltando a falar da "Mesmo Delivery", como andam as action figures dos personagens principais, Rufo e Sangrecco?

Elas vão sair sim. Eu queria lançá-las na San Diego Con, mas o processo da fábrica chinesa demorou por causa dos moldes, que serão feitos de ferro. Por causa disse teremos moldes para fabricar infinitos bonecos.

Seu próximo projeto é a HQ "Furry Water". O que dá para adiantar dele?

Daqui a um mês vou anunciar o projeto na San Diego Con, revelando imagens, personagens e explicando a ideia. Revelei no meu blog uma personagem, mas não posso falar mais nada, pois tenho contrato que não permite isso.

Além do "Furry Water", você tem feito alguma outra coisa?

Não dá tempo. Você já tentou fazer quadrinhos? É bem difícil. Meu desenho é detalhado. Preciso de no mínimo dois dias para fazer uma página. Na "indústria" o normal é uma por dia, mas como eu desenvolvo um trabalho autoral, fazendo lápis, arte final e roteiro, pedi esse tempo para a editora.

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