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Corumbiara cria suspense em filme sobre massacre indígena em Rondônia

GRAMADO ¿ Ao longo de 20 anos, um mistério paira sobre o massacre indígena na Gleba Corumbiara, em 1985, no sul de Rondônia. Há todos os indícios de que houve uma aldeia e tiroteio numa área da mata agora ocupada por madeireiros, mas nenhum índio para contar a história. O documentário ¿Corumbiara¿, de Vincent Carelli, que fechou a noite de quarta-feira (12) no Festival de Gramado, vai atrás das pistas e se revela uma epopéia de como vive e sofre o desconhecido índio brasileiro.

Marco Tomazzoni, enviado a Gramado |

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Documentário descobre tribo "perdida" na Amazônia, remanescentes de massacre

Criador do projeto Vídeo nas Aldeias, militante da causa há quatro décadas, Carelli atendeu ao chamado do indigenista Marcelo Santos no final dos anos 1980 para documentar os vestígios de Corumbiara. Sem apoio do governo, por mais claras que fossem as provas de que uma tribo havia sido dizimada, a investigação teve de parar. Nos anos seguintes, já com respaldo da FUNAI e da Justiça Federal, o grupo voltou à carga, e o resultado de tanto tempo de dedicação deu origem ao filme.

Destacado pelo governo para supervisionar tribos isoladas em Rondônia, Marcelo, com auxílio da câmera de Carelli, acaba localizando dois índios na floresta de um fazendeiro, em uma aldeia escondida mata adentro. A descoberta tem repercussão nacional porque ninguém consegue reconhecer a etnia e a língua do casal, o que só aumenta as suspeitas de que eles seriam remanescentes de Corumbiara.

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Cena de "Corumbiara"

Narrado em primeira pessoa, o filme foi apresentado pelo diretor no festival como um projeto autobiográfico e sem patrocínio, feito na cara e na coragem, coragem instigada pela indignação. Tanto esforço aparece nas telas através do farto material em imagens e da surpresa gerada pelo desenrolar da história.

A aproximação desses índios que ninguém entende, a procura por outros escondidos nos arredores e o embate com os madeireiros cria um clima de suspense que mantém o espectador atento, tenso, ansioso pelo que vem. Ao longo dos anos ¿ a trama se desenvolve de 1986 a 2006 ¿ e da narrativa construída por Carelli, os índios acabam se tornando personagens e criam empatia com o espectador, trunfo de qualquer documentário.

Longe de ser inofensivo, Corumbiara denuncia o rolo compressor que atravessou a Amazônia e deixou tribos encurraladas pelo avanço do desmatamento. O gado, a soja e o comércio de madeira, pela lógica distorcida dos fazendeiros, são os protagonistas da modernidade e os índios, apenas uma barreira a ser removida a bala. A questão fica clara nas declarações do advogado dos madeireiros de Rondônia: Quer impedir o desenvolvimento? É só criar uma reserva indígena, diz, além de enaltecer o extermínio dos índios nos Estados Unidos como forma de aumentar a produção de grãos.

Mesmo com duas horas de duração, não se sente o tempo passar em Corumbiara, sentimento compartilhado pela plateia, que retribuiu com os aplausos mais fortes até agora dos longas exibidos em competição. É difícil imaginar uma carreira comercial para o filme, mas momentos como esse provam que há público até para documentários engajados na causa indígena ¿ resta alguém ter a iniciativa.

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