"Quincas Berro D'Água" revive chanchada

Adaptação de Sérgio Machado é fiel à obra de Jorge Amado e não apela para humor barato

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Há muito tempo uma comédia como "Quincas Berro D'Água" não chegava aos cinemas do país. Não só por ser uma adaptação de Jorge Amado, mas pelo espírito de chanchada. Não, não pense na derivação com pouca roupa da década de 1970. Pense na diversão descompromissada, no deboche, na malandragem das produções da Atlântida. O diretor e roteirista Sérgio Machado ("Cidade Baixa") buscou inspiração em outros lugares, mas a sensação de túnel do tempo é inconfundível. Tire um pouco da ingenuidade, transfira a trama para Salvador, ponha os astros da novela, acrescente a qualidade técnica atual e ei-la, uma versão do século 21 de primeiríssima qualidade.

Divulgação
Os companheiros de farra de Quincas Berro D'Água: "morto muito louco" em Salvador
A ambientação nos anos 1950 ajuda, é verdade. Na história, o ex-funcionário público Joaquim Soares da Cunha (Paulo José, excelente) desiste de perder tempo com a rotina da repartição e cai na vida: se autoproclama rei dos vagabundos da Bahia e vira personagem folclórico da noite, amigo dos bêbados, prostitutas e todo tipo de figura do submundo local. Na noite de seu 72º aniversário, Quincas Berro D'Água – apelido que ganhou na farra – inventa de morrer, infelizmente em seu próprio quartinho imundo. “Descarnar na cama é coisa de burocrata bunda mole”, ele lamenta.

A filha Vanda (Mariana Ximenes) e seu marido (Vladimir Brichta) descobrem e tentam dar um jeito da notícia não vazar – afinal de contas, para a alta sociedade soteropolitana Joaquim estava na Europa esse tempo todo. A família não contava, contudo, com a lealdade dos companheiros de bebedeira de Quincas, interpretados por Luis Miranda, Irandhir Santos, Frank Menezes e Flavio Bauraqui. Inconsoláveis, eles não arredam pé do velório – “um pelotão nunca abandona seu comandante” – e, na primeira oportunidade, embriagados, saem pelas ruas com o morto nos ombros, na ilusão de que ele continua vivo.

O absurdo da situação gera as cenas cômicas óbvias e, mesmo que involuntária, a lembrança da trama de "Um Morto Muito Louco" (1989), clássico da Sessão da Tarde, está lá. Mas não é só de comédia que "Quincas" se alimenta. O mundo de Jorge Amado, em sua obra mais celebrada, chega às telas intacto, com seu amor pela Bahia, o sincretismo religioso, a sexualidade latente, a transformação dos personagens. O humor, de fato, é o tempero principal da história, mas a melancolia e o carinho também comparecem para dar liga e personalidade ao conjunto.

Sérgio Machado não apelou, e talvez isso dificulte o desempenho do primeiro filme “comercial” da Videofilmes nas bilheterias. O que não tira em nada o brilho de "Quincas Berro D'Água", que ainda conta com participações iluminadas de Marieta Severo, Milton Gonçalves e Othon Bastos.

Assista ao trailer do filme:

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