"Quero que me julguem por minha arte", defende Cláudio Assis

Diretor de "Febre do Rato" critica "demagogia" sobre a nudez no país e fala em Paulínia sobre as filmagens em Recife

Marco Tomazzoni, enviado a Paulínia |

Divulgação/Agência Foto
O diretor Cláudio Assis em Paulínia
O diretor pernambucano Cláudio Assis é famoso no circuito de festivais por sua personalidade forte. Expansivo, sem papas na língua, xinga e fala palavrões com a naturalidade de quem diz "obrigado". Na coletiva de imprensa no Paulínia Festival de Cinema 2011, não foi diferente. Ao falar sobre a nudez dos atores em "Febre do Rato" , que encerrou a competição de longas de ficção na noite de quarta-feira, vociferou com gosto.

"A sociedade é muito idiota. A gente quase foi preso durante as filmagens. A TV expõe miséria e ninguém fala nada. Temos que parar com essa demagogia!", gritou. "A vida é assim, o ser humano é assim. Qual é o problema de uma bunda, de um peito, de um pau?", disse, emulando, intencionalmente ou não, o diretor teatral Zé Celso Martinez Corrêa.

Assis se referia à filmagens de uma cena no Dia da Independência, em que o poeta Zizo, interpretado por Irandhyr Santos, acompanhado de Nanda Costa e outros integrantes do elenco, declamam poesias nus em frente à Assembleia Legislativa, em Recife. A produção havia pago à companhia de tráfego da cidade para fechar as ruas do entorno e retirou da área todas as pessoas que não eram figurantes. Mesmo assim, armou-se uma confusão. "Deduraram a gente e vieram nove viaturas da polícia", lamentou o cineasta. Irandhyr escapuliu às pressas num carro da equipe, levando os negativos da câmera.

Todas as atrizes se mostraram muito à vontade com a nudez em frente às câmeras. Mariana Nunes disse que se despir no set foi bastante tranquilo. "Desde o início sabia que ia estar num filme de Cláudio Assis", riu, lembrando sequências semelhantes nos outros filmes do diretor ("Baixio das Bestas", "Amarelo Manga"). Já Nanda Costa, conhecida por "Sonhos Roubados" e atualmente no elenco da novela "Cordel Encantado", afirmou que se apaixonou por sua Eneida, o interesse romântico de Zizo. "A partir do momento em que visto a roupa do personagem, não tenho nenhum problema em tira-la."

Divulgação/Agência Foto
Nanda Costa: sem problema em tirar a roupa do personagem
Sobre sua fama de encrenqueiro, Assis desabafou, mas sempre com o dedo em riste. "Não importa a minha bebedeira, se sou louco ou mulherengo. O que importa é minha arte, quero que me julguem por isso."

A respeito da opção pelo preto-e-branco, o cineasta contou que decidiu em conjunto com a equipe e com o diretor de fotografia Walter Carvalho. "Queria mostrar Recife de uma forma humana, fazer uma tradução da cor e do suor daquele povo", disse o cineasta, falando dos moradores da periferia da cidade. "Para mim, a fotografia em preto-e-branco é a mais importante da história do cinema e perfeita para se escutar poesia."

O roteirista Hilton Lacerda, parceiro do diretor em seus longas anteriores e autor de "Estamos Juntos", premiado recentemente no Cine PE , explicou que o ponto de partida de "Febre do Rato" foram os poemas que escreveu ao longo da vida. A partir deles, tratou de encaixá-los numa história. Ele esclareceu que se inspirou em poetas da cena independente recifense, como Miró e Zizo, que batiza o protagonista, mas sem retratar exatamente nenhum deles.

"Foi uma forma de homenagear essa geração dos anos setenta e oitenta da poesia marginal de Recife, uma geração sem editora, mas que tinha muita voz", explicou. "No filme, Zizo representa uma consciência que parou no tempo, uma utopia. Não com uma intenção saudosista, mas sim na construção de um tempo que ainda pode vir."

* O repórter viajou a convite do festival

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