Público banca realização de filme

Documentário brasileiro alia "crowdfunding" a incentivo fiscal para sair do papel

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Divulgação
A equipe do documentário "Eu Maior": os diretores Paulo e Fernando Schultz, o produtor André Melman
Uma das maiores novidades de 2010 no cenário cultural brasileiro aconteceu na música. Sem ter suas bandas e artistas favoritos com shows marcados no Rio de Janeiro, um grupo de fãs se mobilizou , distribuiu cotas e atingiu o número de participantes necessário para pagar o cachê de uma apresentação. Todo mundo ficou contente – os fãs, a banda, a casa de shows –, ninguém saiu perdendo.

Pois agora a manobra, conhecida internacionalmente como crowdfunding, chega pela primeira vez ao cinema nacional. Em fase de produção, o documentário "Eu Maior" iniciou campanha para arrecadar R$ 200 mil e conseguir ser concluído. As contribuições podem ser deduzidas do imposto de renda e os "sócios" ganham vantagens especiais.

O crowdfunding surgiu na era da internet como um modo de viabilizar projetos publicamente através da união de forças. Portais online – o Kickstarter é o mais famoso deles – servem como uma espécie de rede social para aproximar pessoas com boas ideias e outras, dispostas a ajudar. Há de tudo: discos, turnês, filmes, livros, óculos especiais, pulseiras para iPod e o que mais você imaginar. O artista ou inventor apresenta seu projeto e oferece algo em troca do apoio financeiro – ingressos para o show, cópias do livro ou, por exemplo, o produto em primeira mão. A distância entre fornecedor e consumidor diminui ou deixa de existir: a relação é direta, proativa.

Coprodutor de "Eu Maior", o engenheiro André Melman afirma ter se inspirado no sistema de doações às campanhas políticas de Barack Obama, nos Estados Unidos, e Marina Silva, no Brasil. Em meio ao processo de pesquisa, também descobriu o filme "The Cosmonaut" (o cosmonauta), coprodução entre Espanha e Rússia que é um dos maiores cases de sucesso no setor, ao lado do britânico "Just Do It" .

Aceitando contribuições a partir de 2 euros, a equipe da ficção científica "Cosmonaut" conseguiu até agora mais de 2,5 mil colaboradores, que terão seus nomes incluídos nos créditos e receberão mimos como certificados e produtos relacionados ao filme. "A gente pegou um pouco dessa experiência e trouxe para o contexto brasileiro, dando esse outro benefício que é a dedução do Imposto de Renda", conta Melman.

Divulgação
"The Cosmonaut": filme bancado por crowdfunding
Patrocinar um longa-metragem dessa forma não é nenhuma novidade para a legislação brasileira, só não é uma prática difundida entre pessoas físicas – existem apenas casos pontuais, geralmente envolvendo bastante dinheiro. Através da Lei do Audiovisual, a captação de recursos de "Eu Maior" foi aprovada pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), que abriu uma conta corrente para a movimentação do dinheiro arrecadado, limitado a 40% do orçamento total (R$ 550 mil).

"A gente misturou crowdfunding, em que se pulveriza o valor de projeto em cotas pequenas, com o incentivo fiscal", explica Fernando Schultz, um dos diretores e também produtor. "Para organizar a história, estipulamos cotas de R$ 100. Assim, a gente pode oferecer os mesmos benefícios proporcionalmente para todos."

O investidor pode deduzir na íntegra o valor aplicado nas cotas, desde que não ultrapasse 6% do total do imposto devido ( assista ao passo a passo aqui ). Além disso, terá seu nome incluído nos créditos na cópia do filme e no site oficial do projeto; ingresso para pré-estreia em São Paulo ou Rio de Janeiro; participação de sorteio de livros autografados e outros prêmios. "Não estamos abrindo mão de prospectar recursos junto a empresas, mas queremos envolver as pessoas. O filme é sobre autoconhecimento e queremos estimular o senso de individualidade das pessoas", garante Schultz.

Com previsão de estreia para o segundo semestre de 2011, "Eu Maior" reúne entrevistas com profissionais e pensadores de diversas áreas, que procuram responder questões como o papel do homem na sociedade e outras muito mais amplas, como o "sentido da vida". Até agora, já foram gravadas 20 conversas, com gente como o téologo Leonardo Boff, a monja Coen, o fotógrafo Araquém Alcântara, o médico Paulo Tarso de Lima, o músico Marcelo Yuka e a astróloga Bárbara Abramo.

Divulgação
Leonardo Boff grava depoimento: filme quer discutir autoconhecimento e busca da felicidade
Schultz admite o parentesco com sucessos recentes como "O Segredo" e "Quem Somos Nós", mas ressalta a personalidade do projeto. "Um filme sobre autoconhecimento não é necessariamente sobre espiritualidade e muito menos sobre religião. Quer promover uma reflexão moderna, atual, a respeito disso e da busca pela felicidade. Não tem apenas respostas, mas perguntas sobre seres humanos sendo humanos no século 21."

O diretor acredita que o crowdfunding tem muito potencial, mas enxerga alguns entraves para o uso no setor. "Cinema é muito caro, e levantar dinheiro via crowdfunding não é normal. Acho difícil conseguir fazer um filme usando só esse artifício, mas para projetos menores, ou arrecadar dinheiro para iniciar o trabalho, é viável."

Segundo Schultz, uma das principais dificuldades é a burocracia. "Nossa equipe é pequena, e o incentivo fiscal para pessoa física dá um trabalho enorme: são centenas de pequenos recibos de captação, com a mesma burocracia de uma empresa que estivesse investindo R$ 100 mil. Mas vale a pena, estamos aprendendo muito."

O documentário conseguiu até agora R$ 50 mil da meta de R$ 200 mil, com cerca de 30 colaboradores – o que signica que algumas pessoas compraram um bocado de cotas de R$ 100. São mais seis meses de produção pela frente, período em que o total do dinheiro será necessário para viabilizar viagens e a pós-produção – sem ele, o filme não será finalizado. O diretor está otimista. "A mobilização no Facebook está crescendo, no Twitter também. A ideia não é só dar a oportunidade de as pessoas participarem financeiramente, mas de formar uma rede. Isso vai ajudar na hora do lançamento – até lá, o filme tem chances de já ter milhares de pessoas sabendo que ele existe, apoiando e achando o projeto legal", sustenta Schultz.

    Leia tudo sobre: crowdfundingeu maiordocumentáriocinema brasileiro

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG