Projeto Vídeo nas Aldeias comemora 25 anos com livro e DVDs

Vincent Carelli, diretor do premiado "Corumbiara", colocou câmeras nas mãos de índios como uma nova forma de recuperar memória das tribos

Valor Online |

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Capa do livro comemorativo do projeto
Ao longo dos anos 1970 e 1980, o indigenista Vincent Carelli buscou desenvolver uma nova forma de trabalhar a memória, a cultura e a linguagem das tribos brasileiras. Para afastar-se de uma etnografia que impõe seus próprios conceitos às manifestações das aldeias e para romper com o indigenismo tradicionalmente sob tutela do Estado, conforme o enxergava na prática oficial durante o regime militar, Carelli encontrou uma ferramenta excelente: o cinema.

Em 1986, as tentativas resultaram na fundação do Vídeo nas Aldeias, Organização Não Governamental que organiza oficinas de imagem para mais de cem aldeias em diversos Estados do Brasil. Na celebração de seu primeiro quarto de século, o projeto de Carelli é registrado em livro. "Vídeo nas Aldeias, 25 Anos" (256 págs, R$ 150) é uma edição luxuosa, repleta de fotografias e acompanhado de dois DVDs, contendo dez filmes realizados por indígenas entre 1990 e 2011. O volume também traz uma série de ensaios críticos, de Jean-Claude Bernardet, Carlos Fausto, Alfredo Manevy, Henri Arraes Gervaiseau e outros.

O primeiro documentário de Carelli contou com a ajuda do antropólogo Carlos Alberto Ricardo e do cineasta Andrea Tonacci. "A Festa da Moça" conta em 18 minutos a relação de uma aldeia Nambiquara, no norte do Mato Grosso, com um rito seu de iniciação feminina. "Ao assistirem a suas imagens na TV, eles se decepcionam e criticam o excesso de roupa", relata o diretor.

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Filmes mais recentes do Vídeo nas Aldeias, como "Cheiro de Pequi" (2006, 36 minutos) e "Bicicletas de Nhanderu" (2011, 48 minutos) são assinados pelos próprios membros da tribo, depois de participarem das oficinas.

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Cena do documentário "Corumbiara", vencedor de dois prêmios no Festival de Gramado
Carelli se define como "iniciante autodidata". Conta que chegou às aldeias "não 'com uma ideia na cabeça e uma câmera na mão', mas com a câmera na mão e a cabeça aberta para o feedback da aldeia". Com isso, viu-se jogado de imediato no "vídeo-transe", "sem jamais ter ouvido falar em Jean Rouch ou no Cinema Verdade". O aprendizado de Carelli surtiu efeito e ele continuou realizando seus filmes, além do trabalho com as oficinas do Vídeo nas Aldeias.

Em 2009, seu filme "Corumbiara" levou o Kikito de melhor filme no Festival de Gramado. O próprio Carelli foi premiado, também, como melhor diretor. "Corumbiara" relata as investigações em torno do massacre de uma aldeia inteira, de uma etnia não identificada e chamada apenas de "índios do buraco" porque tudo que restou de suas casas foram buracos com diâmetro suficiente para caber uma pessoa. Após longas buscas, Carelli e o sertanista Marcelo encontraram o último remanescente da tribo, que vive sozinho e é periodicamente monitorado pela Funai (Fundação Nacional do Índio).

Comentando o trabalho em uma aldeia Kuikuro, o antropólogo Carlos Fausto comenta a dificuldade imposta pelas diferentes linguagens: o mito, repleto de voltas, círculos e repetições, e a montagem cinematográfica, ordenada e silogística. "O equivalente da poética oral indígena não pode ser a gravação do cara contando um mito inteiro, assim como ver ópera cantada á distância é uma coisa insuportável", explica.

O resultado final não é apenas a transmissão de uma realidade indígena para quem tem curiosidade. Para os próprios indígenas, os vídeos têm um efeito de resgate e valorização de temas e mitos. Carelli conta o episódio de um grupo de jovens que entrevistam o homem mais velho da aldeia e se espantam de ouvir histórias que até então desconheciam. E o ancião responde: "Vocês nunca me perguntaram".

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