Projeto Revelando os Brasis leva cinema ao interior do país

Projeto permite que habitantes de pequenos municípios enviem suas histórias por vídeos; selecionados participam de curso no Rio

EFE |

"Uma câmera na mão, uma ideia na cabeça e diferentes realidades do Brasil". Assim é como se apresenta o projeto audiovisual "Revelando os Brasis", dirigido aos moradores de municípios com até 20 mil habitantes. Maria José Estevam de Souza nunca tinha ido ao cinema em seus 58 anos de vida e também não tinha saído de sua cidade, General Sampaio (CE), com 6.540 habitantes. O professor Daniel Vieira Corrêa vive em uma cidade amazônica do Pará onde só se tem acesso por barco. De lá para Belém, o trajeto dura três dias a bordo de uma embarcação que nem sempre reúne as condições mínimas de segurança e higiene para os passageiros.

O que essas pessoas têm em comum? Eles foram alguns dos participantes das últimas edições de "Revelando os Brasis", uma iniciativa do Ministério da Cultura que chegou a sua quarta edição este ano. O projeto é destinado aos pequenos municípios do país, cujos habitantes podem propor ideias, escrever histórias e, se escolhidos, ter a possibilidade de realizar seus projetos por um vídeo que mostre "a memória e diversidade cultural do Brasil". A Secretaria Audiovisual do Ministério da Cultura e o Instituto Marlin Azul lideram desde 2004 esta iniciativa, orientada a estimular a formação e inclusão audiovisual e "transformar a vida dos brasileiros em um filme".

Qualquer cidadão das pequenas cidades pode enviar sua história, verdadeira ou fictícia, que é avaliada pelos responsáveis do projeto. Os 40 melhores autores selecionados participam de um curso intensivo de cinema no Rio de Janeiro, onde têm a "oportunidade de conviver com profissionais da área", segundo Beatriz Lindenberg, diretora do Instituto Marlin Azul.

A maioria dos participantes das edições passadas nunca tinha visto um filme na vida antes que sua história fosse escolhida e depois até transformada em filme, explica Lindenberg. Além disso, ela ressalta que, em muitos casos, como ocorre com um participante de Tibau do Sul (RN), os selecionados procedem de municípios que nem sequer têm uma sala de cinema, tal como é a realidade em um quarto dos 5.563 municípios do país. Segundo dados oficiais, o Brasil conta hoje com 2,2 mil salas de cinema, concentradas em 1,4 mil cidades, enquanto nas demais simplesmente não há nenhuma.

Após o curso no Rio, os selecionados voltam a seus municípios de origem para montar uma equipe com outros habitantes e produzir um vídeo, para que "toda a cidade se envolva no projeto" desempenhando funções artísticas, técnicas e de apoio, indica Lindenberg.

A iniciativa tem três fases. A primeira é um curso de formação básica de 12 dias; a segunda tem como objetivo a captação de imagens no município de origem; e a última é a parte de edição e direção do vídeo junto com profissionais. Anualmente, o projeto recebe entre 700 e 800 inscrições e, desde a primeira edição, em 2004, já produziu 120 obras, entre elas algumas que foram levadas a festivais de cinema no Brasil e em outros países.

Assim como os novos cineastas do interior do Brasil podem chegar a um festival, suas produções também são vistas em seus municípios, nos quais, embora não haja salas de cinema, são exibidos em caminhões adaptados que estão a serviço do projeto. Essa iniciativa não acaba com a produção do filme. Ela continua para alguns participantes de outras edições, que abriram "suas próprias produtoras, fizeram cursos superiores de cinema ou produziram outros vídeos", complementa a coordenadora.

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