Produções de horror e fantasia voltam a São Paulo

Diretora do festival de cinema SP Terror fala sobre a segunda edição do evento

Guss de Lucca, iG São Paulo |

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"Survival of the Dead", filme mais recente do cineasta George A. Romero, compete no II SP Terror
Nesta quinta-feira (01.07) tem início a segunda edição do SP Terror - Festival de Cinema Fantástico, evento que exibe para o público paulistano uma seleção de filmes de fantasia e horror, gêneros que apesar de expressivos nas bilheterias, tem pouca tradição no Brasil.

Entre os sete concorrentes da mostra competitiva internacional os destaques são "A Centopéia Humana (Primeira Sequência)", filme sobre um cirurgião que pretende montar uma criatura unindo pessoas por suas bocas e anús, e "Survival of the Dead", filme mais recente do cineasta norte-americano George A. Romero, o "papa" dos filmes de zumbis.

Além desta, o evento ainda conta com uma mostra competitiva dedicada apenas a produções ibero-americanas e uma seleção dedicada ao cineasta japonês Takashi Miike, um dos nomes mais controversos do cinema de terror da atualidade.

Esta edição do SP Terror ainda exibe os longas "Pânico 2" e "Pânico 3", partes da série criada pelo cineasta Wes Craven, e "À Prova de Morte", trabalho de 2007 de Quentin Tarantino que nunca estreou nos cinemas brasileiros. Na sessão de abertura do evento, fechada apenas para convidados, será exibido "Rec 2", sequência do filme espanhol que fez sucesso em 2007.

Diretora do festival, Betina Goldman conversou com o iG sobre a dificuldade de emplacar um evento desse tipo no país, a ausência de convidados internacionais e a dificuldade dos cineastas brasileiros em sair da sombra de Zé do Caixão.

Qual a sua relação com os filmes de terror? Existe algum título preferido ou cineasta que você admire nesse meio?

Minha relação com os filmes de gênero começou no início dos anos 80 quando, morando na Inglaterra, fundei uma companhia de vendas internacionais de cinema brasileiro e comecei a trabalhar com os filmes do Mojica Marins [Zé do Caixão]. Com este trabalho tive uma clara visão da total idiossincrasia do cinema do Mojica e como suis generis seria recebido pelo mercado.

Não existe filme preferido, gosto de muitos. Amenabar, Guillermo del Toro, Jaume Balaguero e Paco Plaza estão entre os diretores favoritos latinos.

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Ainda inédito nos circuito oficial, "À Prova de Morte", de Quentin Tarantino, será exibido no festival
Essa é a segunda edição do SP Terror - Festival Internacional de Cinema Fantástico. Você pode fazer um balanço do primeiro evento e dizer o que mudou para o festival deste ano?

O primeiro SP Terror foi um incrível sucesso, mas nós, organizadores do festival, sabíamos que o público iria reagir bem, estava realmente faltando este tipo de evento na cidade, urbano e transgressor. Este ano o festival expandiu, pois está acontecendo também no CINE SESC – diferente do que ocorreu anteriormente, em que tivemos que lutar com "unhas e dentes" para que o evento acontecesse.

Mesmo com opiniões divididas na mídia, o primeiro SP Terror teve dificuldade com os investimentos. Possíveis patrocinadores teriam medo de se associar ao evento – embora esteja claro que nosso público é também formado por jovens que consomem informática, tecnologia, cerveja, fast-food... Enfim, estamos na segunda edição.

Qual foi o ponto de partida para a escolha dos filmes das mostras competitivas? E por que dividir uma internacional e uma apenas para longas ibero-americanos?

Nosso objetivo realmente é criar uma vitrine do que acontece internacionalmente, filmes que estão escandalizando, películas premiadas, ousadas, gêneros que acreditamos estar sempre a barreira do fantástico, do permissível, do diferente criativo.

A sessão Ibero-americana visa auxiliar o cinema de gênero que existe como contra corrente ao tal do imperialismo Americano, ao "boom" do cinema asiático, a um cinema que embora use elementos pré-estabelecidos, consegue reescrever novos elementos dentro do métiers cultural latino.

A programação de longas é formada majoritariamente por produções estrangeiras. A organização do evento cogitou trazer algum convidado internacional? Se sim, por que isso não ocorreu?

Como mencionei tudo o que gostaríamos é contar com os convidados, discutir sobre os seus filmes, queríamos muito mesmo, porém, ficamos desapontados pela falta de verba para isso.

Alguns trabalhos selecionados para a mostra internacional estão dando o que falar na internet há algum tempo. Destes destaco "A Centopéia Humana (Primeira Sequência)" e "Survival of the Dead", de George A. Romero. Você viu esses filmes? Qual é a expectativa para suas exibições?

"A Centopéia Humana" eu vi no Festival de Cannes, estava sendo exibido no mercado e não em competição. Havia sido exibido no BIFFF, Bélgica, que é um festival modelo para nós, dentre os outros. O filme realmente agrega todos os atributos que procuramos: é chocante, é ousado, é altamente controverso, é engraçado...

Já o "Survival of the Dead" é outro clássico, pois o público adora o George A. Romero. Não teríamos como deixar de incluir um novo trabalho deste diretor. Ele foi um verdadeiro pioneiro da arte de filmes de zumbis; hoje, é o avô dos filmes deste gênero, de fato.

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Cena de "Izo", filme de Takashi Miike é um dos destaques da mostra dedicada ao cineasta japonês
Por que uma mostra especial dedicada ao diretor japonês Takashi Miike? Como você avalia a obra do cineasta e qual dos filmes exibidos você recomendaria a alguém que nunca viu nenhum de seus trabalhos?

O Takashi Miike é um dos mais versáteis diretores do mundo, sua criatividade não tem fim e a cada novo filme ele surpreende, então, uma retrospectiva é algo muito especial mesmo, uma oportunidade ao público do SP Terror, dos cinéfilos de avaliar, ver a extensão da obra deste mestre. Eu não gosto de escolher, adoro todos, mas o "Gozu" e o "Izo" são títulos sensacionais.

No Brasil o cinema de terror é carregado praticamente nas costas do Zé do Caixão - ao analisar os filmes do SP Terror percebe-se essa ausência de longas-metragens nacionais. Isso é uma realidade brasileira ou ocorre no exterior também? Como você avalia esse quadro? Existe alguma chance dele se reverter?

Realmente tem sido difícil para os cineastas brasileiros saírem da sombra do Mojica. Ele é realmente o precursor de um cinema com muita força, muita presença, muita garra e tornou-se complexo para diretores novos ultrapassarem a imaginação, o terror do cinema do Mojica. Mas está andando, existe um pessoal novo começando a fazer barulho.

A ideia da seção Ibero-americana é incentivar a produção. A produção também é baixa em outros países latinos, como na Argentina, por exemplo, onde existe toda uma geração de cineastas trabalhando com cinema de gênero com orçamento baixíssimo, mas todos unidos, ajudando uns ao outros.

O interessante foi notar que este ano na seção Quinzena dos Diretores em Cannes, os grandes destaques sem dúvidas foram dois filmes latino-americanos: o mexicano "Somos Lo que Hay", que retrata uma família canibal, e o sensacional uruguaio "A Casa Muda" que é um tipo de "A Bruxa de Blair", isto é, medo em tempo real. Portanto, as vozes estão começando a ecoar...

Serviço

II SP Terror - Festival de Cinema Fantástico
duração: de 01 a 08 de julho
programação no site oficial: www.spterror.com

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