Porto Alegre se despede de salas de cinema

Dois espaços do conjunto Guion são fechados e vão a leilão

Tássia Kastner, especial para o iG, de Porto Alegre |

Tássia Kastner
O Cine Guion, em Porto Alegre
Nesta terça-feira, dia em que a Prefeitura de São Paulo tenta impedir o fechamento do Belas Artes ao iniciar processo de tombamento do prédio, Porto Alegre se despede de duas salas.

O Guion Cinemas, antes formado por três conjuntos de salas, realiza um leilão que marca o fechamento de duas delas: o Guion Sol, que encerrou suas atividades em 2009 depois de 12 anos penando em busca do público da zona sul da cidade, e o Aeroguion, que manteve três salas, sempre deficitárias, no Aeroporto Internacional Salgado Filho por seis anos.

O Guion Center, único que permanece aberto, mantém suas atividades desde 1995, mas também está ameaçado. Em fevereiro, o proprietário Carlos Schimidt decidirá pela renovação do contrato de aluguel do espaço. Se optar por seguir com a programação, será por, no máximo, mais um ano. Segundo ele, a falta de público impede que o negócio se mantenha.

A série de fechamentos desses cinemas dedicados a exibir filmes fora do circuito comercial pode ser vista por vários ângulos. Do aumento no número de salas comerciais até o baixo valor dos ingressos. "São muitos cinemas na cidade, não tem como competir", sentencia Schimidt.

Porto Alegre possui cerca de 20 cinemas, somando mais de 60 salas. Além da programação diferenciada, é preciso procurar outros atrativos para não perder público. No Guion Center, as salas foram reformadas, as poltronas estão mais distantes umas das outras e é possível, inclusive, alugar um pufe para apoiar os pés durante o filme.

"É um jeito de trazer mais conforto para o espectador, e um diferencial que traz o público para o nosso cinema. Com a distância, acabam o cochicho e os chutes da poltrona de trás", explica Schimidt.

As medidas não surtiram o efeito esperado, e hoje o cinema mantém uma média de 600 espectadores por semana para as suas três salas de exibição. "Eu precisaria de cerca de 2,2 mil pessoas para manter o negócio", diz Schimidt.

A solução para não fechar as salas seria buscar financiamento por meio de leis de incentivo à cultura. No entanto, mesmo os cinemas públicos enfrentam dificuldades na captação de recursos. A Cinemateca Paulo Amorim, localizada na Casa de Cultura Mario Quintana, pertence ao governo do Estado e recebe patrocínio de R$ 10 mil por mês do Banrisul.

O valor serve apenas para pagar o salário de alguns funcionários, como o projecionista. O restante das despesas é mantido, precariamente, com verba pública. As dificuldades modificaram o perfil de filmes exibidos pela casa, que nesta semana mantém em cartaz títulos como "Tropa de Elite 2" e "A Rede Social".

Segundo Luiz Antonio de Assis Brasil, que assumiu a Secretaria da Cultura do Rio Grande do Sul no dia 1º de janeiro, o perfil da cinemateca deve mudar nos próximos meses, trazendo de volta a tradição de filmes alternativos para o espaço. "A cultura é uma área que enfrenta dificuldades em todos os governos. Temos apenas R$ 300 mil por mês para investimentos", explica Assis Brasil.

O secretário também argumenta que a captação de recursos junto à iniciativa privada, por meio das leis de incentivo, é o caminho mais moderno para investir na cultura. "Nesta semana, vamos apresentar ao departamento de marketing do Banrisul uma proposta que mostra todas as carências da cultura no Estado. Estamos buscando uma alternativa para o baixo orçamento", complementa.

Mais do que recursos, é preciso que as instituições culturais, sejam elas públicas ou privadas, encontrem estratégias para tornar seus espaços interessantes para o público. Carlos Schimidt assegura que o Guion só seguirá na ativa se a nova estratégia de comunicação, que está sendo implementada agora, mostrar algum sinal de resposta junto à comunidade. Já Assis Brasil aposta na criação de uma identidade para a Casa de Cultura Mario Quintana para garantir mais público aos departamentos da casa, como a cinemateca.

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