Por que Tiradentes é o melhor festival de cinema brasileiro

Mostra começa hoje e leva propostas ousadas, debate e beleza à cidade mineira

Ricardo Calil, colunista do iG |

Divulgação
"A Alegria", dos diretores Felipe Bragança e Mariana Meliande: risco e experimentação
Nem sempre o melhor fica para o fim. A Mostra de Cinema de Tiradentes, que inaugura o calendário audiovisual brasileiro, chega agora à sua 14ª edição para firmar sua reputação de melhor festival brasileiro. Uma reputação justa, firmada ao longo dos últimos anos, baseada em uma série de dados concretos, que tento listar abaixo.

- O primeiro diferencial é, sem dúvida, a curadoria, a cargo do crítico e cineasta Cléber Eduardo. Basta dar uma olhada na programação desta edição, que começa hoje e vai até o dia 29, para entender a diferença. A prioridade é por filmes com propostas estéticas ousadas, que assumam a idéia do risco, do erro, da experimentação. Em geral, isso vem de jovens cineastas, ainda não consagrados – como Felipe Bragança e Mariana Meliande (“A Alegria”), Guto Parente, Pedro Diógenes, Luis e Ricardo Pretti (“Os Monstros”), Eryk Rocha ( “Transeunte” ), entre muitos outros. Mas, sem preconceito geracional, pode surgir com força na nova obra de um cineasta veterano, como o cinemanovista Paulo Cesar Saraceni, que mostra o inédito “O Gerente” em Tiradentes e ganha homenagem do festival, ao lado do ator Irandhir Santos. É importante ressaltar também que, embora tenha crescido nos últimos anos, a Mostra tem resistido à ameaça do gigantismo que acomete muitos festivais brasileiros e vem mantendo a aposta na qualidade, não na quantidade.

- A produção do festival, a cargo da mineira Universo Produção, é impecável. Não há nenhuma extravagância no evento, nenhuma festa black-tie nababesca. Mas há sempre profissionalismo, respeito e acolhimento em relação ao público e aos convidados, com sessões na hora marcada, boa qualidade de som e imagem nas projeções, boa estrutura na tenda principal e na área da sessão ao ar livre e assim por diante.

Divulgação/Alexandre C. Mota
Sessão ao ar livre em 2010: plateia cheia
- A Mostra se tornou um raro espaço de reflexão entre os festivais brasileiros. A idéia é que não basta exibir. Os filmes precisam ser discutidos em debates entre realizados, críticos e espectadores. Já participei de quatro ou cinco e posso garantir que não encontrei em outro lugar um nível de perguntas e respostas – enfim, de debate – tão alto.

- Há também a questão da formação audiovisual do público. Numa região sem cinemas, com pessoas formadas pela TV, a Mostra tem oferecido muitos filmes que alguns classificariam rapidamente como “difíceis”. E a resposta quase sempre é muito boa, com sessões lotadas e aplausos ao fim. No ano seguinte, elas estão lá de volta, levando mais gente, dispostas a enfrentar propostas exigentes. Além dos filmes, há também vários cursos de realização e reflexão durante a Mostra. Alguns de seus alunos de anos passados já vêm mostrando seus filmes em edições recentes – mostrando que o projeto formou um círculo completo.

- Por fim, e não é um dado menor, Tiradentes é um cenário sensacional para uma mostra de cinema. Não só pela questão “social”, de comer e beber bem, tão privilegiada em outros festivais. É que a história, a arquitetura e a geografia da cidade, um pequeno enclave entre montanhas, facilita o agrupamento, dificulta a dispersão – e parece que todos os elementos que apontei acima se potencializam aqui. Como Tiradentes – o homem, não a cidade – já sabia há mais de 200 anos, é um lugar perfeito para conspirações libertárias.

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG