Política é o eixo central do É Tudo Verdade 2011

Festival exibe 92 documentários de 29 países em São Paulo e no Rio de Janeiro

Ricardo Calil, colunista do iG |

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A ativista americana Angela Davis em "Black Power Mixtape", que abre o É Tudo Verdade em São Paulo
Quando o filósofo norte-americano Francis Fukuyama resgatou no final da década de 1980 a ideia do “fim da história” – que aconteceria com triunfo definitivo da democracia liberal ocidental sobre outros sistemas de governo, econômicos e ideológicos –, ele não podia prever que dois aviões pilotados por terroristas islâmicos derrubariam as Torres Gêmeas, que a China ameaçaria a hegemonia americana, que revoluções começariam a ser tramadas no Facebook, que um tsunami promoveria um revival da catástrofe nuclear... e que o “fim do mundo” se tornaria um tema mais urgente do que o “fim da história”.

Enfim, Fukuyama não poderia prever que o mundo voltaria a se tornar um ambiente essencialmente... político. E que, em pleno 2011, esta tema seria o eixo central da 16ª edição do É Tudo Verdade. Espelho de um mundo em convulsão – seja a bélica ou a ambiental –, o festival de documentários começa nesta quinta-feira (31) em São Paulo e sexta (1º) no Rio com uma vasta programação dedicada às mais variadas manifestações da política, das mais diversas épocas.

Na abertura em São Paulo, por exemplo, será exibido “The Black Power Mixtape”, que recupera arquivos da televisão sueca sobre o movimento negro nos Estados Unidos entre os anos 1960 e 1970. A política será também a tônica dominante da competição internacional, em filmes como “Você Não Gosta da Verdade - 4 Dias em Guantánamo” (sobre adolescente canadense acusado de matar um soldado americano no Afeganistão) e “Cliente 9 - A Ascensão e Queda de Eliot Sptizer” (sobre o governador de Nova York que renunciou quando se revelou que ele era cliente de uma rede de prostituição de luxo). Entre os programas especiais, está “Reagan”, que traz o olhar de Eugene Jarecki sobre o caubói do cinema que virou presidente americano.

Apenas sobre o Irã – país que se tornou um termômetro das relações diplomáticas entre Estados Unidos ou Brasil – serão exibidos três filmes: “A Onda Verde” (que reconstitui o clima das eleições presidenciais de 2009 por meio de animações e relatos em blogs e no Twitter), “Uma Odisseia Iraniana” (que resgata a figura do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, derrubado por um golpe de Estado executado pela CIA em 1953) e “A Queda de um Xá” (que, por sua vez, mostra a trajetória do xá Reza Pahlevi, que chegou ao poder com o mesmo golpe e saiu dele com a Revolução Islâmica de 1979). Somados, os três filmes compõem um belo painel da história recente do Irã.

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"A Onda Verde" mostra clima das eleições presidenciais no Irã através de animação
O mesmo pode ser feito com a história da Rússia a partir dos filmes de Marina Goldovskaya, a grande homenageada da edição deste ano. Goldovskaya documentou melhor do que ninguém a crise do modelo soviético em seu país e as transformações sociais ocorridas com o fim desse período. Dela, o festival traz desde clássicos como “O Camponês de Archangelsky” (1986), sobre a coletivização de terras promovida por Stalin, até o recente “O Sabor Amargo da Liberdade”, sobre sua amizade com a jornalista investigativa Anna Politkovskaya, assassinada em 2006.

No front brasileiro, não é diferente: a política dá o tom da competição nacional, a mostra mais prestigiada do festival. A programação vai desde a política institucional (“Tancredo, a Travessia”, nova biografia por Silvio Tendler) até a educacional (“Vocacional, Uma Aventura Humana”, sobre as escolas vocacionais fechadas pela ditadura militar), passando pelas questões trabalhistas (“Carne, Osso”, sobre as condições dos trabalhadores em frigoríficos) e agrárias (em “Vale dos Esquecidos”, que documenta a violenta história do maior latifúndio do Brasil).

Mas é claro que a política não monopoliza um festival abrangente como o É Tudo Verdade e vários filmes excepcionais passam longe dela – caso de “Homem Erótico”, de Jorgen Leth, e “Santos Dumont Pré-Cineasta”, de Carlos Adriano. Se fosse possível identificar um segundo tema predominante nesta edição, seria o processo artístico. Inspirado por uma pesquisa sobre literatura e documentário feita pela poeta Ana Cristina César, a retrospectiva nacional traz 15 títulos sobre poetas brasileiros, desde “Castro Alves” (1948), de Humberto Mauro, até “Pan-cinema Permanente” (2007), sobre Waly Salomão, de Carlos Nader. Na competição nacional, há ainda “Assim É, se lhe Parece”, sobre o artista plástico Nelson Leirner. Em meio a tanta política, um pouco de poesia e arte não faz mal a ninguém.

Serviço – 16º Festival É Tudo Verdade
De 31 de março a 10 de abril
Entrada franca
Salas em São Paulo: Cine Livraria Cultura, Centro Cultural Banco do Brasil, Cinemateca Brasileira, Reserva Cultural, Cinemark Eldorado
Salas no Rio de Janeiro: Unibanco Arteplex, Centro Cultural Banco do Brasil, Instituto Moreira Salles, Estação Museu da República, Ponto Cine Guadalupe, Cinemark Downtown, Auditório BNDES
Informações: site oficial

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