Pode me chamar de Joe, ou Apichatpong Weerasethakul

Cineasta tailandês, queridinho de Cannes, é homenageado no Indie 2010

Ricardo Calil, colunista do iG |

Divulgação
"Mal dos Trópicos", premiado em Cannes em 2004: sexo, natureza e sobrenatural combinados
De todas as mostras brasileiras, o Indie parece ser aquela mais disposta a encarar o que de mais urgente acontece nos grandes festivais do mundo – a segurar, portanto, a batata mais quente do cinema contemporâneo. No ano passado, o Indie fez uma retrospectiva da obra do filipino Brillante Mendoza, que, meses antes, havia ganhado o prêmio de melhor diretor em Cannes por Kinatay . Neste ano, o grande homenageado é o tailandês Apichatpong Weerasethakul, Palma de Ouro no festival francês em 2010 com Tio Boonmee que se Lembra de suas Vidas Passadas . Dele, o Indie traz cinco longas e 20 curtas, selecionados pelo diretor para o Indie.

A obra de Apichatpong oferece uma experiência tão inusitada e única quanto o nome do cineasta (que adotou o apelido de Joe para facilitar a vida dos interlocutores estrangeiros). Assistir a seus filmes é como caminhar pelo sonho de outra pessoa. Um espaço que lhe dá a sensação de um outro tempo, mais dilatado, com um sentido de espiritualidade distante do nosso ocidental, com cenários e sonoridades que lembram a realidade, mas ligeiramente distorcida, com uma narrativa que teima em desobedecer a linearidade, com situações, personagens e locais recorrentes. Florestas tropicais, homens-animais, amores gays, entrevistas médicas, vidas passadas... Elementos que se repetem ao longo dos filmes de Joe.

Nascido em 1970, filho de médicos, ele cresceu no alojamento de um hospital de Khon Kaen, nordeste da Tailândia, rodeado por outros filhos de médicos e habituado a circular por ambientes esterilizados, vendo pessoas doentes ou mortas em macas. Formou-se em arquitetura na Tailândia e fez mestrado em cinema no Art Institute of Chicago, nos Estados Unidos. Nos anos 1990, começou a fazer vídeos, curtas, instalações, longe do rígido sistema de estúdio tailandês, construindo uma obra que sempre amalgamou cinema, arquitetura e artes plásticas. Na Bienal de São Paulo que começa no próximo dia 25, Joe estará presente com uma instalação – num evento que trará trabalhos de outros três cineastas, a belga Chantal Akerman, o português Pedro Costa e o alemão Harun Farocki.

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Apichatpong Weerasethakul, o "Joe", com a Palma de Ouro do Festival de Cannes, em maio
Na seleção do Indie, está o primeiro longa de Apichatpong, Objeto Misterioso ao Meio-Dia (2000), mistura de documentário e ficção, alternando entrevistas médicas e sequências encenadas. Eternamente Sua (2001), centrado nos dramas sexuais de três personagens, ganha o prêmio de melhor filme na mostra Um Certo Olhar em Cannes e chama a atenção do Ocidente para o cineasta de nome impronunciável. As Aventuras de Iron Pussy (2003) vai mais fundo nas questões sexuais, tema recorrente na obra de Joe, ao eleger um travesti como protagonista.

Prêmio do Júri em Cannes, Mal dos Trópicos (2004) é o filme da consagração internacional, da decantação de um estilo, de uma linguagem. Na primeira metade, história de amor homossexual. Na segunda, um dos amantes se perde na floresta. Sexo, mito, cidade, natureza, realidade, sobrenatural – as obsessões do tailandês estão lá, condensadas.

Em Síndromes e um Século (2006), os elementos voltam, retrabalhados: um monge que não consegue dormir por conta de seus pecados, um dentista amante da música clássica que trata outro monge fã de rock; a médica que busca uma cura para a dor... e outro grande êxito artístico para o currículo de Apichatpong. O Indie não traz o longa ganhador da Palma de Ouro deste ano, mas apresenta o curta Uma Carta para Tio Boonmee, que deu origem ao outro filme.

Há quem reclame de uma certa monotonia nos longos planos silenciosos de Apichatpong. Mas quem mergulhar fundo no mundo de sonhos de Joe corre o risco inverso: acordar achando a realidade um tanto enfadonha.

Serviço – Festival Indie 2010 em São Paulo
De 16 a 30 de setembro
Cinesesc (Rua Augusta, 2075)
Entrada Franca
Programação completa: site oficial

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