Pedro Bial: "O Brasil é muito confuso em relação à moral"

Em meio à correria da reta final do BBB, o jornalista lança com Heitor D'Alincourt documentário sobre Jorge Mautner no festival É Tudo Verdade

Anderson Dezan, iG Rio de Janeiro |

Frederico Rozário/TV Globo
"Alguma coisa é tão fascinante no BBB que as pessoas amam odiá-lo", opina Pedro Bial
Treze anos após a estreia de seu primeiro filme, Pedro Bial está novamente no papel de diretor de cinema. Se da primeira vez o jornalista optou por levar às telas a adaptação de um livro de Guimarães Rosa, nessa segunda jornada ele juntou-se a Heitor D´Alincourt para filmar a vida e a obra de um dos artistas mais multifacetados da cultura brasileira. Produzido pelo Canal Brasil, o documentário “ Jorge Mautner – O Filho do Holocausto ” retrata a trajetória do compositor, violinista, poeta, escritor e cantor carioca, autor da “Mitologia do Kaos” e da teoria da “Amálgama Brasileira”.

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Assim como Mautner, Pedro Bial também é filho de pai judeu e mãe gentia que chegaram ao Brasil fugindo do regime nazista de Adolf Hitler. A semelhança foi um dos fatores que levou o jornalista a topar participar do projeto. Sua mãe, inclusive, faz uma participação no início do documentário falando em alemão com Mautner. “Ao incluí-la fiz uma afirmação: essa é a minha história também e por isso decidi contá-la”, avalia. O filme abriu a edição carioca da 17ª edição do festival “É Tudo Verdade” e será exibido na versão paulistana do evento nesta sexta-feira (30), às 19h, no Cine Sesc, e no domingo (1), às 20h, na Cinemateca do BNDES.

Em meio à correria da última semana do Big Brother Brasil , reality show que apresenta há 10 anos, Pedro Bial conversou com a reportagem do iG . No bate-papo, falou sobre o BBB, a fama de maldito de Mautner, fascismo, moral, indústria fonográfica e Holocausto. O único tema que não rendeu muita conversa foi o programa que irá comandar na TV Globo no segundo semestre. “Não será com a Fátima Bernardes. Serei apenas eu, sozinho. Só posso adiantar que vai ter a direção do Luiz Gleiser, nada mais”. Confira a entrevista:

Frederico Rozário/TV Globo
Pedro Bial: "Há mil maneiras de ver e, principalmente, de não ver o Big Brother Brasil"
iG: O retorno ao cinema serve para calar aqueles que dizem que você se afastou do jornalismo por causa do BBB e consideram o programa vazio e anticultural?
Pedro Bial: O Big Brother me alimenta pra caramba e me estimula intelectualmente. É como aquele cereal: há mil maneiras de ver e há, principalmente, mil maneiras de não ver também! [risos]. As pessoas não contentes em não ver acham um absurdo e reagem ao programa. Basta mudar o canal! Mas alguma coisa é tão fascinante no BBB que as pessoas amam odiá-lo. Faço Big Brother, mas nunca me afastei do jornalismo e do cinema. Uma repórter francesa me perguntou uma vez como eu fazia para sair do BBB e ir gravar o Jorge Mautner . Respondi que pegava um táxi! Isso quando não ia de bicicleta! [risos] Não tem porque uma coisa excluir a outra. Somos versáteis e podemos ser muito mais do que uma coisa só.

iG: Mas você acha que a fórmula do reality show está gasta?
Pedro Bial: Surpreendentemente não. Pelo senso comum deveria estar, mas o programa está com fôlego. Essa 12ª edição deu mais audiência que a anterior. Isso é algo raro no mundo. Acho que o BBB ainda tem uma visibilidade e uma demanda.

iG: Como surgiu a ideia de fazer o documentário sobre o Mautner?
Pedro Bial: Fiquei muito emocionado quando li “O Filho do Holocausto” (livro escrito por Mautner) porque a história é muito semelhante à minha. O Heitor (D´Alincourt) teve então a ideia de fazer o filme sobre o Jorge e colocou a minhoca na minha cabeça. Eu aceitei, mas sem muita convicção até que fui cobrir as Olimpíadas de Pequim, em 2008. Lá, fiquei muito impressionado como as pessoas ficaram arrebatadas por um espetáculo absolutamente fascista que foi a cerimônia de abertura dos Jogos.

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iG: Como assim?
Pedro Bial: Essa foi a primeira Olimpíada , desde Berlim em 1936, em que o hino nacional foi cantado por militares. Havia uma cerimônia muito linda, mas era a celebração da aniquilação do indivíduo. Todo o fascismo do regime chinês estava ali esteticamente embrulhado e o mundo todo aplaudindo. Para o filósofo alemão Walter Benjamin, a definição de fascismo é justamente essa: a estetização da política. Fiquei muito mexido com as Olimpíadas de Pequim.

iG: E a partir daí, você aceitou fazer o documentário com o Heitor sobre o Mautner?
Pedro Bial: Reli o “O Filho do Holocausto” e percebi que ele colocava essa discussão de uma maneira insinuante, através do humor e da graça. Aí, decidi fazer o filme. Passei a estudar a vida do Mautner e me convenci ainda mais disso. Outra coisa que me levou a desejar fazer esse filme é que em cada canção o Mautner discute moral. É muito saudável e bem-vinda a discussão da moral no Brasil.

Divulgação
Pedro Bial, Jorge Mautner e Heitor D´Alincourt na noite de abertura do festival "É Tudo Verdade", no Rio
iG: Você acha que ela é pouco discutida?
Pedro Bial: O Brasil é muito confuso em relação à moral. Às vezes se confunde, fica-se questionando se algo é ético ou não, quando a discussão está apenas no terreno da moralidade. A moral é algo que se transforma de época para época. É tudo isso o que o Mautner representa. Um ser político fazendo música e entretenimento proporcionava um desafio muito sedutor para um documentário.

iG: Atualmente, falta alguém provocador como o Mautner? Alguém que discuta a moral?
Pedro Bial: Falta alguém que discuta a moral com inteligência como o Jorge discute. A música brasileira vive um momento que não me atrai muito. A história da música brasileira é tão rica, veio com Chiquinha Gonzaga , Noel Rosa e Cartola . Depois teve a geração de Chico , Caetano e Gil. Seria difícil essa linhagem produzir mais uma geração de gênios. Mas esse é um sintoma no mundo todo. Aquela história de acompanhar a carreira de grandes artistas, disco após disco, está sendo substituída por pop-ups. Um ano é o Luan Santana , no outro o Michel Teló .

iG: Foi difícil retratar o “Kaos” de Mautner nas telas?
Pedro Bial: Ele é muito complexo e não se deixa agarrar. Faz um palhaço dele mesmo quando ele não é um. Acho que conseguimos com o filme tornar sólido todo o caráter insólito do Jorge e de sua obra. O desafio era retratar o “Kaos” de maneira não caótica. Tínhamos o desejo de tornar mais claro o que poderia ser propositalmente confuso, com pistas falsas, que é característico na obra do Mautner. Buscamos evidenciar as faces dele, para que cada uma pudesse ser vista e tudo fizesse um mosaico coerente.

Zé Paulo Cardeal/TV Globo
"A música brasileira vive um momento que não me atrai muito", conta Pedro Bial
iG: O filme não reforça a sua fama de “maldito”. O documentário quis mostrar outro lado do Mautner?
Pedro Bial: A fama de maldito surgiu porque ele estava muito à frente do seu tempo. Durante várias gerações, foi recebido como maldito. As crianças e os adolescentes de hoje ouvem o Mautner, entendem perfeitamente, se divertem e não enxergam nada de maldito. E ele é o mesmo, não mudou nada. Uma das coisas bonitas evidenciadas pelo filme é que esse homem luta pela eterna juventude e consegue. O documentário mostra o envelhecimento físico, mas ele se recusa a envelhecer a cabeça.

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iG: Você acha que Mautner é a personificação da teoria da amálgama brasileira (mistura de influências e opiniões que gera um novo caminho) criada por ele?
Pedro Bial: [Pensativo] Acho que sim. Ele pratica e é um exemplo da amálgama. Misturou tudo e está aí um caráter brasileiro, uma visão de Brasil. As pessoas podem compactuar ou não com a sua visão, mas uma coisa é inegável: essa é uma nação em construção. Hoje em dia falta visão de Brasil, não só para os artistas, mas principalmente para os políticos. Uma visão além do partidário. Não governar de olho nos índices de popularidade, mas fazer o que tem que ser feito.

iG: Quem teria esse perfil?
Pedro Bial: Um exemplo recente é Nelson Mandela, na África do Sul. Tem uma cena linda no filme “Invictus” em que ele faz uma aliança com um time de brancos. Quando criticado pela atitude, que poderia soar impopular, ele respondeu que não governava por índices de popularidade, mas fazia o que deveria ser feito. É isso. Homens estadistas têm que olhar a longo prazo.

iG: Além do Mandela, você identifica mais alguém com essa característica?
Pedro Bial: Dos artistas, acho que além do Jorge Mautner, temos o Caetano Veloso , de uma maneira até mais cética e azeda, e o Gilberto Gil , sem dúvida. Entre os homens públicos, não me arriscaria a dizer nenhum. Acho que o último foi Fernando Henrique Cardoso .

iG: Por quê?
Pedro Bial: Ele tinha uma visão de Brasil. Fez o que deveria ser feito e não saiu com a mesma popularidade que o Lula . Mas não existiria o Lula se não tivesse o Fernando Henrique. Esse é o caminho da social democracia. As decisões duras, desagradáveis e impopulares que propiciaram a multiplicação da distribuição de renda que tinha começado com o Plano Real foram tomadas pelo Fernando Henrique. Mas o Lula também tem toda a sua grandeza histórica inegável.

Frederico Rozário/TV Globo
Pedro Bial no Big Brother Brasil, na eliminação da participante Laisa
iG: Muitos documentários que são lançados no Brasil ficam, na maioria das vezes, pouco tempo em cartaz devido ao baixo público. Você acha que o brasileiro gosta de ver este tipo de filme?
Pedro Bial: Temos no Brasil um documentarismo maduro. A consequência natural é chegar às telas e o que está provando que isso é bem-vindo é a boa carreira de alguns filmes. O exemplo maior é “Vinícius”, do Miguel Faria Jr., que fez 200 mil espectadores, mas temos outros que cumpriram uma bonita carreira nas telas e depois na distribuição de DVDs. Brasileiro adora a história do Brasil quando ela é contada de uma maneira boa, não quando é assassinada nos bancos escolares. Temos público para isso.

iG: Mas a questão da distribuição e divulgação de documentários ainda não deixa a desejar?
Pedro Bial: Pode ser aperfeiçoada e muito, mas não é uma questão exclusiva dos documentários. É uma questão da nossa rede de exibição. Temos poucos cinemas e um mercado muito dominado. Não que isso seja diferente em qualquer país do mundo. Assim é a vida, o que vale é a lei de mercado. Potências como França, Inglaterra e até os Estados Unidos, apesar de ser o país do cinema, têm leis de proteção. No nosso caso, podíamos ter uma política pública mais clara quanto à rede distribuidora.

iG: O Holocausto é o ponto de partida do filme. Você acha que o Brasil recebeu bem os judeus refugiados?
Pedro Bial: O Brasil é esse caldeirão feliz que reúne a África, a herança ibérica, o massacre da população nativa, os italianos, japoneses e os judeus. O que é bacana é que os judeus brasileiros se vêm primeiro como brasileiros, depois como judeus. Isso é muito raro. No exterior, as pessoas migram, mas não deixam de ser gregas, judias, armênias. No Brasil não. Na primeira geração, todo mundo já vira brasileiro. Isso com uma cultura que aparentemente não tem muita solidez, que absorve tudo. É uma geleia que ao mesmo tempo possui uma consistência e um poder de sedução incrível. A cultura brasileira deixou os refugiados muito à vontade. Não que tenha sido fácil, mas é uma cultura cuja informalidade recebeu bem aqueles que vieram tão desestruturados, como a minha família e a do Mautner.

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