Pablo Trapero defende que cinema argentino celebra diversidade

Na Mostra de São Paulo, diretor portenho apresenta "Leonera" e retrospectiva

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

Getty Images
O diretor Pablo Trapero em foto de arquivo
Um dos nomes mais celebrados do cinema argentino contemporâneo, Pablo Trapero está sendo homenageado na 32ª edição da Mostra Internacional de São Paulo. Aos 37 anos, o cineasta ganhou uma retrospectiva com seus cinco longas-metragens e ministra nesta segunda-feira (20) um workshop sobre direção na FAAP, já com vagas esgotadas. Além disso, apresenta na cidade, junto com a atriz e esposa Martina Gusmán, “Leonera”, candidato argentino ao Oscar que tem Rodrigo Santoro no elenco – o filme será exibido às 19h, também na FAAP.

O longa é uma co-produção entre Argentina, Coréia do Sul e Brasil, através da Videofilmes, produtora de Walter Salles que apóia Trapero desde o longa “Família Rodante” (2004). Em entrevista ao iG no final de semana, depois de uma feijoada promovida pela organização da Mostra, Trapero comentou que esse tipo de parceria entre sul-americanos favorece a circulação de filmes na região, já que a produção audiovisual local não é vista na América Latina.

“É mais fácil assistir filmes latino-americanos em festivais da Europa do que aqui. Por isso as co-produções são interessantes, ajudam a cruzar fronteiras”, disse. “O ‘Leonera’ já tem estreia garantida no Brasil, mas há dez anos isso não aconteceria. O quadro está mudando muito lentamente, mas está.”

Nesse sentido, também ajuda a escalação de Santoro para o elenco, apesar, segundo o diretor, do “marketing” da escolha nunca ter sido levado em conta. “Em primeiro lugar, Santoro é um grande ator, com muito compromisso. Assisti à interpretação dele em ‘Carandiru’, e essa experiência foi muito boa para mim e para ele”, admitiu.

Isso porque em “Leonera” Santoro interpreta Ramiro, preso por suspeita de assassinato assim como Martina Gusmán, a protagonista do filme. As poucas cenas do ator se passam ou na prisão ou no tribunal. Mesmo pequena, a participação do astro brasileiro chamou a atenção da crítica internacional e rendeu elogios rasgados de Trapero. Apesar disso, o diretor deixou claro que foi fundamental o fato de Santoro já estar aprendendo espanhol para “Che”, de Steven Soderbergh. “Se ele levasse dois anos para aprender a língua, não ia funcionar.”

Crianças na prisão

Mas não é só com atores e contratos internacionais que se garante a exibição. Na opinião de Trapero, esse é um trabalho de diversas partes, dos produtores, do circuito exibidor e do próprio roteiro, que precisa interessar a públicos diferentes. “Há uma subestimação dos espectadores, vistos como burros por filmes que usam uma linguagem infantil, para crianças de 4 anos. É preciso explorar as possibilidades de dialogar com o público”, advertiu.

E é por aí que Trapero navega na escolha de seus projetos. O diretor tem a característica de mostrar realidades distantes dos moradores de Buenos Aires (o gelado e ermo sul argentino em “Nascido e Criado”) ou histórias de fundo social (a polícia portenha em “Do Outro Lado da Lei” e o sistema prisional em “Leonera”). “São dois anos, em média, de dedicação a um filme, então tem que ser uma história que te interesse. Tento abrir espaço para assuntos esquecidos, que não estão na primeira página dos jornais e na televisão”, explicou. “Tento fazer o retrato de uma situação, de uma época, através da ficção.”

Divulgação
Martina Gusman, protagonista de "Leonera"
“Leonera” vai por esse caminho. O longa mostra a jornada de Julia, que vai para a prisão grávida, acusada de matar um dos dois namorados. A legislação argentina, no entanto, prevê que mulheres possam criar os filhos na cadeia até que completem 4 anos, lado a lado nas celas. Assim, alas específicas dos presídios viram verdadeiros berçários, com crianças crescendo atrás das grades.

Trapero se deparou com as peculiaridades do sistema carcerário ao dirigir um documentário no início da década. A preparação para “Leonera” envolveu um ano de pesquisas e entrevistas de Gusmán com detentas. Além disso, o elenco tem a presença de atores não-profissionais e de presas e policiais reais, mas o diretor nega que, por isso, o filme tenha um lado documental. “Qualquer forma expressiva tem ligação com a realidade. Um documentário tem uma olhar mais objetivo, entre aspas. Mas já que há um roteiro, o filme se torna uma ficção, com suas regras e equipe específicas.”

Celebração da diversidade

Apesar de parte da crítica enxergar certa unidade no cinema argentino de hoje – histórias humanas, com elenco afiado e personagens bem construídos –, Trapero defende que a situação é exatamente oposta. “Não há uma definição formal nem um manifesto, o que seria um erro. Há, sim, uma celebração da diversidade, com os filmes da Lucrecia [Martel], do [Daniel] Burmán, mais filmes experimentais, outros comerciais. Existe uma curiosidade por caminhos próprios, e essa diversidade é o que há de mais lindo e o que talvez dê unidade a essa cena.”

Com relação à homenagem da Mostra, batizada de “Apresentação Especial – Pablo Trapero”, o diretor se mostrou apreensivo, feliz e, acima de tudo, modesto. “Me agrada e também me dá muito medo”, brincou, “deviam fazer esse tipo de coisa para os grandes”. Trapero admitiu, porém, que esta não é a primeira vez que ganhou uma retrospectiva: depois de São Paulo, ele viaja a Paris para abrir evento similar na Cinemateca Francesa, e já foi assunto de ciclos no Uruguai e em Londres, no ano passado. “Sinto-me lisonjeado, mas meu negócio é continuar fazendo filmes”, esclareceu.

Assista ao trailer de "Leonera":

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