"Oscar de filme estrangeiro é migalha", diz Eliane Caffé

Movida pela curiosidade, diretora paulistana promove "expedições" no filme "O Sol do Meio Dia"

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Octavio Cardoso/Divulgação
Eliane Caffé dirige o ator Chico Diaz em cena de "O Sol do Meio Dia", filmado no interior do Pará
Estreia nessa sexta-feira "O Sol do Meio Dia", terceiro longa-metragem da carreira da cineasta paulistana Eliane Caffé. Assim como ocorreu em seus trabalhos anteriores, "Kenoma", de 1998, e "Narradores de Javé", de 2002, a diretora promoveu uma verdadeira "expedição" para filmar a história de um triângulo amoroso que percorre regiões distintas do Estado do Pará.

Estrelado por Luiz Carlos Vasconcelos, Chico Diaz e pela estreante Claudia Assunção, o filme dá sequência aos seus trabalhos anteriores, revelando ao público dos grandes centros a riqueza cultural e abandono de regiões do Brasil pouco retratadas nos meios de comunicação.

Em entrevista concedida ao iG , Eliane revelou detalhes da produção do novo filme, explicando suas opções estéticas e a angústia que a dificuldade em trabalhar com cinema no país gera ao término de cada trabalho, além da perplexidade diante da euforia que parte da indústria cinematográfica brasileira nutre pelo Oscar de filme estrangeiro - uma "migalha".

iG: Um assunto em alta na indústria cinematográfica brasileira é o Oscar. O que você acha dessa busca incessante do Brasil pelo Oscar de filme estrangeiro?

Eliane Caffé: Acho realmente uma contradição enorme. É incrível como a gente comemora ou até reverencia uma indústria que nos tira quase toda possibilidade e espaço de exibição, que é a indústria do cinema norte-americano. E ela faz isso no mundo inteiro.

Não tenho o menor interesse pelo Oscar. É quase um efeito contrário. De um lado você vê aquele jogo político, com prêmios para filmes iranianos, e do outro aquela festa chata, com todo mundo correndo atrás daquela migalha, que é o Oscar de filme estrangeiro, e no final não acontece nada - talvez para a carreira daquele diretor específico, mas só.

iG: O que você achou da indicação de "Lula - O Filho do Brasil"?

Eliane Caffé: Acho que é uma indicação coerente para o tipo de festa que é o Oscar. Um filme com essas características - um governante que tem uma história diferenciada, de superação, e que teve um papel importante na política internacional - tem chances de ganhar o prêmio. Por outro lado, o Lula estava apoiando o Irã, e talvez eles não queiram dar um prêmio para esse cara - ou ao contrário, fazer uma média, uma aposta... Mas os responsáveis pela escolha estão jogando o jogo.

Octavio Cardoso/Divulgação
Eliane Caffé: "Uma coisa terrível é você terminar um filme e não saber se vai conseguir fazer o próximo"
iG: O que levou uma cineasta paulistana a desbravar regiões tão distantes e diferentes do Brasil em seus três longas-metragens ("Kenoma", de 1998; "Narradores de Javé", de 2002; e "O Sol do Meio Dia", de 2010)?


Eliane Caffé: Foi a curiosidade de conhecer um Brasil que a gente conhece muito pouco, que sempre aparece intermediado através da mídia, já vem interpretado. Cada filme tem sido como fazer uma expedição, mas sempre mais para o Norte e Nordeste. E só regiões muito fortes culturalmente. A manifestação cultural está presente nas pessoas. Quando se constrói uma cena ela transborda. Me identifico bastante.

iG: Em que momento do desenvolvimento do roteiro de "O Sol do Meio Dia" você e o Luis Alberto de Abreu decidiram filmá-lo no interior do Pará? Como surgiu a ideia da locação?

Eliane Caffé: Veio logo no começo, através de uma descrição que minha irmã (a arquiteta e desenhista Carla Caffé) tinha feito sobre mercado Ver-o-Peso, em Belém. Foi uma descrição tão forte que me impressionou bastante. A partir disso comecei a pesquisar e surgiu a ideia. Depois fiz uma viagem para lá e me deparei com essa paisagem diferenciada, uma cultura regional muito forte que poderia ser absorvida pelos personagens secundários do filme, abandonando a ideia de cidade grande como São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte...

iG: Em "Narradores de Javé" você mesclou atores com a população local. Nesse longa-metragem repetiu a experiência?

Eliane Caffé: Repeti, mas não de forma tão estrutural como em "Narradores". Nesse filme ele fica mais fechado. Eu acho que ele é mais intimista, mais concentrado na trajetória dos personagens. Mas quase todos os secundários são de lá.

iG: O roteiro de "O Sol do Meio Dia" foi originalmente chamado de "Andar às Vozes", correto? Por que a mudança de título?

Eliane Caffé: Ele partiu de um ritual que o Câmara Cascudo descreveu, chamado "Andar às Vozes". No Brasil, em Santa Rita de Cássia, as pessoas andam, fazem uma pergunta e a primeira palavra que cai no ouvido é a resposta do santo. Inicialmente seria muito mais estrutural, mas a ideia foi desaparecendo no processo de criação e acabou só como uma referência de um ritual daquele lugar, não explorado com a riqueza que o Câmara Cascudo explorou, que foi um motivo de inspiração inicial.

iG: Apesar de diferentes, as tragédias que obrigam os personagens Artur e Matuim a abandonar suas vidas e rumar para Belém não são detalhadas no filme. No roteiro essas histórias foram aprofundadas ou mesmo para vocês elas permanecem ocultas?

Eliane Caffé: Por exemplo, na primeira parte do Artur eu tentei construir um desassossego grande. Não há diálogo, mas você vê uma pessoa atormentada. Partir é uma forma de buscar uma nova possibilidade. Você sabe que ele estava numa prisão e quando ele pega o vestido fica evidente que houve uma tragédia, mas só. Já o Matuim não parte para fugir, ele quer quitar a dívida do pai. Cada um têm motivos diferentes para iniciar essa travessia, embora a certeza do que aconteceu só fique clara no final do filme.

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José Dumont (centro) no papel de Antônio Biá, protagonista do longa-metragem "Narradores de Javé", de 2002
iG: Em algum momento você cogitou chamar o José Dumont (protagonista de "Kenoma" e "Narradores de Javé") para um dos papéis?


Eliane Caffé: Não, porque dessa vez eu não enxergava o Zé no perfil dos personagens. Se fizesse o Matuim, ficaria parecido com o Antônio Biá (personagem de "Narradores de Javé"). Às vezes os próprios personagens vão opinando na escolha. Mas o próximo trabalho, "Devaneios de um Lourenço Príncipe", eu queria fazer com ele de novo.

iG: E você pode adiantar essa história? Será seu primeiro longa-metragem numa grande metrópole?

Eliane Caffé: Sim, ele trabalha com o universo do refugiado africano na cidade, no centro de São Paulo, que luta de certa maneira para se sobressair do anonimato. Mas o universo é esse. Concebemos a ideia, ganhamos o edital e vamos desenvolver o roteiro. Além disso, estou terminando um trabalho que chama "O Céu Sem Eternidade", todo rodado em Alcântara, nos quilombolas que estão em conflito com a base espacial - um conflito entre dois extremos.

É um misto de ficção e documentário e ainda não está pronto. Trabalhamos sem equipe num processo que eu gostei muito. Não sei o que vai sair como resultado, mas adorei o processo. Ele não tem data de lançamento.

iG: É possível apontar semelhanças visuais entre seu três longas-metragens: o ambiente rural, as casas de barro e tijolos aparentes, a aridez, a mata... E todos esses elementos são filmados de maneira crua, tanto numa história mais leve, como "Narradores de Javé", quanto no drama como "O Sol do Meio Dia". Você acha que isso pode definir o seu estilo?

Eliane Caffé: Não saberia dizer. Eu acho que de fato os três filmes também têm isso, essa estética, porque todos foram rodados no interior do país. O "Kenoma" rodamos no Vale do Jequitinhonha, uma das regiões mais pobres não só do Brasil, mas do mundo. "Narradores" foi no norte da Bahia, e esse filmamos no Pará e nas redondezas.

Se vamos nos deslocar para uma região tão longe, não tem sentido não assimilar a paisagem que existe no local. A direção de arte sempre teve esse conceito em todos os longas: fazer uma intervenção mínima nas locações. Acredito que essa estética predomina em função do que esses lugares oferecem. Mas não sei se isso define um estilo.

Se há alguma coisa em comum não seria um estilo, mas uma grande preocupação com os personagens, um trabalho muito focado no ator. Isso eu identifico: os personagens são a coisa principal da exploração estética. Tanto que os fotógrafos e diretores de arte sempre têm muita autonomia comigo. Alguns diretores dominam esses conceitos. Eu não. Por isso preciso muito deles, pois estou muito voltada para o trabalho da dramaturgia do ator.

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Os atores Luiz Carlos Vasconcelos, Claudia Assunção e Chico Diaz em "O Sol do Meio Dia": triângulo amoroso
iG: O intervalo entre "Kenoma" e "Narradores de Javé" foi de quatro anos. Deste até "O Sol do Meio Dia" foram oito. Esse longo intervalo foi uma opção sua ou reflete a dificuldade de fazer cinema no país?

Eliane Caffé: Total reflete essa dificuldade. Tanto que essas entressafras são muito angustiantes. Uma coisa terrível é você terminar o terceiro filme e não saber se vai conseguir fazer o próximo. O que fica em questão é sua própria identidade, quem é você no mundo. E no meu caso o prazer de sair do cotidiano é fazendo filmes. Se você não consegue...

É uma atividade muito dura, ainda mais se você não tem um respaldo, diferentemente de um Fernando Meirelles, que tem esse respaldo de uma grande produtora. Para a maioria, como a Tata Amaral, o Beto Brant, é uma luta a ponto de você entrar em crise. E depois também tem o problema do gargalo da distribuição - você passa oito anos de trabalho para o filme entrar em cartaz por semanas e acabar. Aí você pensa "Qual o sentido?"

Mas como se trata de uma identificação artística, que vem de uma imposição interna, você não tem escolha. Se fosse um projeto de vida visando um bem estar financeiro, eu não escolheria essa profissão ou não faria cinema desse jeito.

iG: Pensando por esse viés, existem alguns estilos de filmes que têm funcionado nas bilheterias brasileiras, como os de enfoque espírita ou policiais, chamados de filme-favela. O que você acha desses fenômenos? É difícil não se contagiar por esses modismos?

Eliane Caffé: Eu acho que depende muito do diretor, que de alguma forma se influencia mais por essa linha de cinema e mesmo sem perceber está buscando ideias que vão nessa direção.

Numa época surgiu o modismo de câmera na mão. Fotografia estourada era sinônimo de filme moderno. Foi um período em que os diretores de fotografia entravam na moda - todo mundo queria aquele diretor. Era um cinema autoral, mas influenciado por um tipo de modismo mesmo que inconsciente.

É difícil ficar ausente dessas influências. Elas ocorrem de diversas maneiras e segmentos. Acho que têm filmes que são feitos na busca por esse sucesso, e eles acabam influenciando principalmente os jovens em curtas e no YouTube. Antes era hip hop e todo mundo estava fazendo filmes de hip hop. Agora é favela e todo mundo passa a fazer filmes sobre favelas. Isso até daria um assunto interessante para uma pesquisa. É um fenômeno típico da realidade urbana, onde sua relação com o mundo está muito intermediada pela mídia. No interior do Brasil é muito diferente.

Quando eu voltei para São Paulo passei para ver uma instalação que retratava os lugares em que filmei. A diferença é infinita. O que é a arte? Em que lugar ela está? Onde grande parte da arte está concentrada? É muito mais fácil a gente se influenciar pelo modismo ao perder a realidade corpo a corpo de estar investigando.

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