"Os Homens que Não Amavam as Mulheres" adapta best-seller com vigor

David Fincher cria thriller intrincado e impactante, superior à versão sueca de "Millennium"

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

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A jovem Rooney Mara como Lisbeth Salander: transformação rendeu indicação ao Oscar de melhor atriz
Até que demorou para Hollywood adaptar a série "Millennium". Desde 2005, a trilogia escrita pelo sueco Stieg Larsson (1954-2004) vendeu 65 milhões de cópias e se tornou um dos maiores fenômenos recentes do mundo editorial, perdendo apenas para as franquias "Harry Potter" (450 milhões de livros vendidos) e "Crepúsculo" (120 milhões).

Mas foi só depois do sucesso da adaptação sueca do primeiro livro , "Os Homens que Não Amavam as Mulheres", que os estúdios deram sinal verde para o projeto. Mesmo assim, não deixa de ser surpreendente que ele tenha sido feito e chegue nesta sexta-feira (27) aos cinemas brasileiros trazendo na bagagem cinco indicações ao Oscar 2012 (a maioria técnicas).

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A comparação com os best-sellers juvenis só é válida mesmo para vendas. Os livros de Larsson são claramente voltados para o público adulto e não são nada leves: estupros, fanáticos religiosos, violência, acessórios sexuais, assassinatos em série, brutalidade, nada que facilite uma censura abaixo de 18 anos, número mágico para as bilheterias crescerem com facilidade.

Pois os norte-americanos apostaram na popularidade da série e entregaram o projeto nas mãos de David Fincher – se o diretor tem projetos acessíveis e maduros como "A Rede Social" e "O Curioso Caso de Benjamin Button", foi celebrado mesmo por seus trabalhos mais desafiadores, caso de "Seven" e "Clube da Luta".

Pode-se perguntar por que diabos Fincher se interessou em refazer algo que os suecos já tinham filmado, e que rendeu tantos elogios a Noomi Rapace, a atriz no papel da hacker Lisbeth Salander. Mas olhando as duas adaptações, percebe-se que "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" não seguiu a fórmula fácil do remake: a abordagem é outra. Não seria exagero dizer que se tratam de filmes diferentes, um bom e outro apenas regular. Fugindo do padrão, a versão norte-americana é bastante superior.

nullO roteirista Steven Zaillian, ganhador do Oscar por "A Lista de Schindler" e indicado neste ano pela adaptação de "O Homem que Mudou o Jogo" , está por trás disso. Zaillian manteve mais elementos do romance, com a mesma duração do filme anterior (2h40) e felizmente não transpôs a trama para os EUA. Além de o tempo passar rápido para o espectador, a complexidade dos personagens ganhou muito. Nem mesmo a alteração no desfecho provocou críticas dos fãs, tamanha a sintonia com a história.

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Rooney Mara e Daniel Craig em 'Os Homens que Não Amavam as Mulheres'
História que, nessas alturas, já virou parte do imaginário popular. No início, o jornalista investigativo Mikael Blomkvist (Daniel Craig) é condenado por publicar matérias supostamente caluniosas sobre um poderoso empresário sueco na revista Millennium, que dá nome à trilogia.

A resposta para superar a crise vem no convite de um industrial aposentado (Christopher Plummer) do gelado norte do país, que o contrata para investigar o desaparecimento da sobrinha, morta, acredita-se, 40 anos antes, por alguém da família. Os Vanger não são flor que se cheire: há reclusos, bêbados, nazistas e a coisa só fica pior. Para ajudar Blomkvist na tarefa, Lisbeth entra no jogo.

É ela a grande criação de Stieg Larsson. Com passado traumático e visual assustador, a hacker e investigadora parece ter um grande "não mexa comigo" escrito na testa. Chamá-la de punk seria resumi-la a um estereótipo. Lisbeth Salander é única, uma mistura de anti-herói e detetive gótica sem paralelo – sobrancelhas descoloridas, piercings, tatuagens, roupas pretas, tatuagens, coturnos.

Se Noomi Rapace já havia feito um trabalho memorável no filme sueco, a desconhecida Rooney Mara tomou o personagem para si. A atriz que estrelou o remake de "A Hora do Pesadelo" e fez uma ponta em "A Rede Social" tornou Lisbeth ao mesmo tempo frágil e durona, insegura e confiante.

É como se ela fosse um animal acuado o tempo inteiro e a explosão derradeira contra o inimigo, sua filosofia de vida. Uma interpretação poderosa, que deu a atriz uma indicação ao Oscar.

O mérito da escolha cabe a Fincher, que segurou a pressão do estúdio para escalar alguém mais "comerciável", como Scarlett Johansson e Keira Knightley, duas estrelas que fizeram testes para o papel.

Deu certo e só ajudou o diretor a fazer em "Os Homens que Não Amavam as Mulheres" um resumo de sua carreira: o baque de "Seven", a investigação de "Zodíaco", as relações disfuncionais de "A Rede Social", elementos de todos os seus filmes costurados por um clima tenso, sombrio e uma trilha sonora excepcional, mais uma vez a cargo de Trent Reznor e Atticus Ross. Um thriller intrincado e impactante, à altura de sua inspiração.

Leia também: Diretor quer filmar continuações de "Millenium" simultaneamente

O prestígio de Fincher em Hollywood hoje é tão grande que "Millennium" foi a maior aposta da Sony no final de ano na América do Norte, em pleno Natal. Era o "filme para sentir-se mal" da estação, como o marketing do estúdio usou como slogan. Não foi o suficiente para bater "Missão Impossível", "Sherlock Holmes 2" e "Alvin e os Esquilos 3", mas garantiu que os outros dois livros também sejam adaptados . A torcida para que a mesma equipe continue já é grande.

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