"Olhe pra Mim de Novo" debate gênero em Gramado

Documentario de Kiko Goifman e Claudia Priscilla foi exibido na mesma noite do uruguaio "El Casamiento", com tema similar

Marco Tomazzoni, enviado a Gramado |

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O protagonista de "Olhe pra Mim de Novo"
A competição do Festival de Cinema de Gramado 2011 na noite de quarta-feira (10) foi exclusiva da discussão de gênero. Os longas-metragens da mostra nacional e latina, ambos documentários, tratam da questão da transexualidade, apesar de abordagens e resultados distintos. O diálogo, no entanto, entre o uruguaio "El Casamiento", de Aldo Garay, e "Olhe pra Mim de Novo", de Claudia Priscilla e Kiko Goifman, existe.

O filme brasileiro tem um casal experiente como realizador – Goifman está por trás dos celebrados "33" e "Filmefobia", enquanto sua mulher, produtora, roteirista ou assistente nos trabalhos do marido, dirigiu o ótimo documentário "Leite e Ferro" , premiado em Paulínia no ano passado. O longa sobre detentas que amamentavam seus filhos dentro da cadeia se apoiava nos personagens e "Olhe pra Mim de Novo" utiliza o mesmo expediente, ainda com mais intensidade.

Os diretores seguem Sílvio Lúcio, um transexual masculino, ou seja, uma mulher que se identifica como homem, em Pacatuba, Ceará, pleno sertão. Sílvio se porta e veste como homem, mas tem voz e corpo notadamente femininos. Isso não impede que ele se imponha: exige que seja chamado de "senhor" e luta para ser reconhecido como um.

Articulado, bom contador de histórias, Sílvio domina o filme, que esmiuça sua jornada de transformação – fala do espanto e desgosto da família conservadora, do uso de hormônios, da ligação com sua prótese peniana, do desejo de ter um filho com a esposa, da ansiedade pela operação de mudança de sexo.

Curioso é descobrir aos poucos como a personalidade masculina de Sílvio foi moldada a partir de estereótipos. Ele caminha como se estivesse em cima de um cavalo, coça a virilha, estala os lábios se imaginando com um palito na boca. Orgulhoso de suas inúmeras aventuras sexuais, um verdadeiro conquistador, ainda se refere às mulheres como "pombas" e até "marmita" – um machista, portanto.

A história já era interessante, mas Goifmann e Priscilla resolveram colocar o personagem numa espécie de road movie, rodando pelo nordeste atrás de pessoas que sofreram preconceito. Sílvio conversa com pessoas que descobriram ter pais diferentes através do exame de DNA, encontra portadores da Síndrome de Berardinelli, fala como loiros são tratados de forma diferenciada.

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O casal de "El Casamiento": cotidiano humilde
Demora-se a entender qual o propósito do narrador/protagonista nesses lugares e as sequências ficam perdidas no meio da narrativa – afinal de contas, apesar dos novos entrevistados, a grande estrela continua sendo Sílvio, seja paquerando mulheres na Feira de Caruaru ou na esperada conversa com sua filha, cuja expectativa é construída ao longo da projeção.

Outro ponto fraco são as mensagens na secretária eletrônica espalhadas pela trama. Quando o próprio Sílvio comenta que elas poderiam ser aproveitadas no filme, a artificialidade de algumas delas faz sentido e parece tudo encenado. Se a ideia era brincar com o limite entre realidade e ficção, ficou pelo meio do caminho.

Do Uruguai, veio o delicado "El Casamiento". O filme flagra um casal na velhice: Ignacio, ex-trabalhador da construção civil, e Julia, transexual operado. O diretor Aldo Garay conheceu os dois na década de 1990 e gravou algumas imagens na época, mas o projeto não foi para a frente. No ano passado, com o convite de ser padrinho de casamento da dupla, retomou o filme.

"El Casamiento" é simples e humilde como o casal que retrata. Desdentados e com problemas de saúde, Ignacio e Julia vivem sozinhos e reafirmam o tempo inteiro qual o motivo do sucesso da relação: "a solidão é muito ruim". Aborda-se a questão do gênero, mas como Julia é operada, não parece inspirar maior preocupação. Apesar das diferenças, os dois cuidam um ao outro e vão esperando o tempo passar, ao lado dos bichos de estimação. A história comove, mas o documentário esbarra na singeleza para conseguir inspirar maior simpatia.

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