O Minhocão numa sessão de cinema

Documentário exibido no próprio elevado falha ao tentar capturar a triste riqueza desse ambiente degradado no coração de São Paulo

Pedro Alexandre Sanches, repórter especial iG Cultura |

Divulgação
Uma das imagens do filme: o desastre urbanístico visto de dentro de um dos apartamentos afetados
É início da noite de domingo, 30 de abril, e algo fora do comum acontece no centro de São Paulo, especificamente no Elevado Presidente Costa e Silva, mais conhecido como Minhocão. Não é incomum a multidão presente, pois a via expressa, fechada aos domingos, é ponto popular de lazer entre os moradores das vizinhanças. Mas hoje há um telão plantado no meio do passeio público, à altura da rua Helvétia. Há cerca de 500 cadeiras ocupadas, além de muitas pessoas de pé, e as janelas e sacadas dos edifícios à beira do Minhocão estão cheias de gente.

Trata-se de uma sessão gratuita ao ar livre do documentário Elevado 3.5 , que entra em cartaz nesta sexta-feira, 4 de junho. A estreia em circuito comercial é tardia, pois o filme venceu a edição de três anos atrás do festival É Tudo Verdade e já foi exibido várias vezes na TV. Mas a sessão no próprio cenário retratado revela grande senso de oportunidade, diante do anúncio da prefeitura, no início de maio, de que o Minhocão será demolido (em data por enquanto desconhecida). Talvez parte dos espectadores presentes no “local do crime” busquem no documentário argumentos pró e contra a demolição. E é provável que grande parte desses voltem para casa sem argumentos.

Dirigido por Paulo Dominguez Pastorelo e João Clark de Abreu Sodré, arquitetos e urbanistas, e por Maíra Santi Bühler, cientista social, Elevado 3.5 carece de foco jornalístico. Filmado ao longo de poucos dias, não dá pistas de ser fruto de um trabalho exaustivo de investigação e seleção. Personagens ricos (como o vendedor de bonecas negras) se misturam sem prioridade a outros inclinados à caricatura, ou cujas entrevistas não rendem depoimentos relevantes ou impactantes.

O documentário não chega a explicitar um ponto de vista. Mas elege uma somatória de personagens folclóricos (alguns defendendo ferrenhamente a permanência do Minhocão), situações melancólicas ou deprimentes, habitações sujas e opressivas. E, nesse embalo, deixa a impressão de que talvez o único remédio seja, sim, implodir o elefante branco erguido por Paulo Maluf no coração gelado da cidade.

Pode até ser, mas a superficialidade da abordagem deixa questões cruciais ao relento. Que destino terão moradores idosos, decadentes ou marginalizados como os expostos, caso o inferno do Minhocão deixe de existir de uma hora para outra? O elevado com nome de ditador é irrecuperável, ou haveria soluções para reintegrá-lo a uma cidade menos dura e sucateada que a São Paulo atual? O Minhocão e seus arredores são feitos só de decadência e ruína, como insinua esse retrato excessivamente inspirado no Edifício Master (2002) de Eduardo Coutinho? Não há ali nenhum frescor, nenhuma alegria? E, se não há, como explicar a multidão exuberante que correu para ver Elevado 3.5 em cima da corcova do próprio dragão?

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