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O inferno inacabado de Clouzot

Documentário francês resgata uma obra falha e lendária do diretor de clássicos como As Diabólicas e Salário do Medo

Antonio Querino Neto, especial para o iG Cultura |

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A atriz Romy Schneider, no auge da beleza e da carreira
O Inferno de Henri-Georges Clouzot , documentário de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea, é um desses filmes que cativam aqueles cinéfilos apaixonados pela história das produções e pelo véu de mitologia e técnica secreta atrás das obras realizadas, ou nesse caso, não realizadas, já que a fita é o registro de um fracasso, do sonho inacabado de um grande diretor, o francês Henry-Georges Clouzot (1907-1977). Praticamente ocultas por muitas décadas, as tomadas realizadas por Clouzot em 1964 (interrompidas após três problemáticas semanas) são resgatadas num documentário que dá pistas dos motivos pelo quais tão estrondoso projeto ficou inacabado.

Bromberg possui no currículo uma bem-sucedida carreira na área de restauração de filmes antigos e sua parceira, a romena Medrea, é estreante com esse documentário. Ambicioso e experimental, o filme retratado por eles contaria uma trama delirante de ciúme, na história de um gerente de hotel ( Serge Reggiani ) obcecado pela possibilidade de ser traído por sua sensual esposa (Romy Schneider, no auge da carreira).

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O diretor Henry-Georges Clouzot e a estrela de O Inferno: a obra-prima ficou inacabada
Bromberg e Medrea intercalam muitas imagens desse casal de astros (incluindo os testes), com depoimentos de membros da equipe de Clouzot, completando com a leitura de trechos do roteiro.
Clouzot delirou em excesso, em filmagens que experimentavam efeitos sonoros surreais e técnicas de cores revolucionárias para a época, tudo para registrar a mente de um marido enlouquecido pelo ciúme. Quando mergulhou nessa viagem, o cineasta (autor de O Corvo , nos anos 40, e O Salário do Medo e As Diabólicas , duas obras-primas dos anos 50 ) conseguiu carta branca dos produtores para suas experimentações.

Com seu inseparável cachimbo, ele era famoso pelas manias e pela meticulosidade, filmando absurdas vezes a mesma cena até atingir o ponto que julgava ideal. Sua relação com o set beirava a tirania, o que explica em parte a deserção do  astro principal Reggiani, acometido de depressão e stress. O próprio cineasta acabou doente em meio à tensão da realização dessa obra, que despertou colossais expectativas. Como sofria de insônia, Clouzot tinha o incômodo costume de acordar os atores às duas da manhã para falar dos planos para o dia seguinte nas locações, o que os enlouquecia.

Tudo é contado nesse documentário, que não desmancha dúvidas que ainda permanecem, tanto quanto as imagens do sorriso da linda Romy Schneider nadando nas águas provençais. Por que esse ousado projeto não deu certo? Teria faltado um produtor para administrar e controlar a produção, já que Clouzot centralizou tudo? Teria o cineasta se perdido no próprio excesso de pretensões artísticas, abandonando o contato com a realidade?

Assista ao trailer de "O Inferno de Henri-Georges Clouzot":

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