"O incentivo do governo é essencial", diz Adhemar de Oliveira

Empresário da rede Arteplex de cinema fala de sua empreitada na criação de complexos de salas populares

Guss de Lucca, iG São Paulo |

Ricardo Gama/Divulgação
Adhemar de Oliveira: para empresário, incentivo é essencial para a criação de cinemas para o grande público
O nome do empresário Adhemar de Oliveira está ligado ao cinema brasileiro há mais de duas décadas. O ano de 1993 foi um dos mais emblemáticos de sua biografia, devido à criação do Espaço Unibanco, projeto que transformou um cinema de rua em decadência em referência de salas de exibição do país.

Proprietário da rede Arteplex, foi responsável pela primeira sala IMAX do Brasil, localizada no Espaço Unibanco Pompéia, em São Paulo. Além disso, atua como sócio da distribuidora Mais Filmes, em parceria com Leon Cakoff, criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo .

Agora, ao lado do sócio Thierry Peronne, Adhemar administra uma nova empreitada que, com auxílio do programa Cinema Perto de Você, da Ancine (Agência Nacional do Cinema), pretende inaugurar salas de exibição em regiões populares - o primeiro complexo, inaugurado em setembro no bairro do Jardim Sulacap, no Rio de Janeiro, marca o início desse projeto.

O empresário conversou com o iG sobre a importância do incentivo do governo para a criação de novos espaços, a relevância da parceria com os supermercados e as dificuldades em administrar cinemas de rua.

iG: Vocês inauguram o primeiro complexo de salas de exibição financiado pelo programa Cinema Perto de Você, no Rio de Janeiro. Quando ele foi inaugurado e como você avalia o investimento até agora?
Adhemar de Oliveira: O Cine 10 Sulacap foi inaugurado em 30 de setembro. Foi um investimento de R$ 6 milhões de reais, que resultou em um complexo com 1.373 lugares divididos em seis salas, sendo uma delas 3D. O cinema mais próximo que a população do Jardim Sulacap tinha acesso ficava a dez quilômetros do bairro. Ele foi muito bem recebido - 40 mil pessoas passaram por lá no mês de outubro, o que nos faz crer que o cinema já é conhecido por 200 mil pessoas.

Deveríamos ter gasto mais em modelos alternativos de divulgação, como carro de som, outdoors, essas coisas, mas tivemos sorte de contar com o lançamento do "Tropa de Elite 2" , que exibimos em três salas.

Ivone Perez
Cine 10 Sulacap, no Rio de Janeiro: cinema divide espaço com supermercado de bairro carioca
iG: Esse incentivo da Ancine é realmente essencial para a criação de novas salas?
Adhemar de Oliveira: Ele é essencial por alguns elementos. Quando você monta um cinema no shopping classe A ou na periferia, os equipamentos de projeção são iguais. Você pode gastar menos em material de acabamento, mas o custo acaba sendo similar. E o retorno que você tem pelo preço médio leva um tempo maior, pois o valor dos ingressos é menor.

Se você olhar o exibidor como capitalista, ele bota o dinheiro para recuperar o seu lucro. O movimento de abertura de cinemas em shoppings centers existe porque há uma divisão de custo de instalação das salas entre o exibidor e o shopping. O shopping precisa do cinema e o cinema precisa do shopping.

Além disso, os shoppings se localizam em áreas com renda definida e preço médio maior, o que faz com que o tempo de retorno do capital investido seja de 48 meses, 60 meses - dependendo da área até menos tempo.

Ao aplicar essa mesma equação num local onde o preço médio do ingresso vai ser menor, você encomprida demais o seu retorno e torna o investimento uma coisa não produtiva. No caso de Sulacap, a parceria com o Carrefour ajudou a diminuir os custos e barateou a oferta para quem vai ao cinema, que, por exemplo, pode usar um estacionamento que é gratuito.

O financiamento também ajuda muito pois tem diferenças de taxas - e junto com isso, o próprio BNDES instituiu que a própria bilheteria seja a garantia do investimento. Senão a empresa não tem como ficar alavancando bens ou finanças que encarecem ou impossibilitam a tomada do financiamento.

iG: Qual foi o valor da linha de crédito que você conseguiu com o governo?
Adhemar de Oliveira: Investimos R$ 2.2 milhões de recursos próprios. Os demais vieram de financiamentos do Pró-Cultura, BNDES, Cinema Perto de Você e investimentos de fundo setorial.

Divulgação
Sucesso de "Tropa de Elite 2" ajudou a divulgação do Cine 10 no bairro Jardim Sulacap, no Rio de Janeiro
iG: Tanto o Cine 10 Sulacap, no Rio de Janeiro, quanto o Cine 10 Limão, de São Paulo, estão integrados a supermercados. Acha difícil o retorno dos cinemas de rua?
Adhemar de Oliveira: O cinema de rua está muito associado à questão de qual rua estamos falando. Há ruas e ruas. Mas foi a perda da segurança nos centros urbanos que minou o cinema de rua. O problema surgiu, os cinemas não souberam lidar com ele e os poderes municipais acordaram tarde para enfrentá-lo.

A questão em manter o cinema de rua era preservar a geopolítica do espaço urbano. O cinema de rua recupera as lojas, gera empreendimentos imobiliários ao seu redor, gera mais receita circulando - inclusive de impostos. Faltou na história das nossas cidades uma política de preservação dessas áreas, como ocorreu em Paris, por exemplo. As salas do Espaço Unibando, na rua Augusta, em São Paulo, recuperaram vários quarteirões. Mas para recuperar outras áreas o trabalho precisaria ser maior. Um espaço como o da Cracolândia, em São Paulo, precisa ter cinema - o próprio centro de São Paulo, ou os centros das cidades em geral, precisam de cinemas. Ao fecharem, aumentou a sensação de falta de segurança nesses locais.

Por outro lado, a manutenção de um cinema pode custar R$ 1 milhão por ano. E o cinema de rua pode ter custos até maiores, porque eles estão montados em contratos locatícios de preço fixo - diferentemente do que ocorre nos shoppings.

AE
Entrada do Espaço Unibanco, em São Paulo: cinema de rua ajudou a recuperar vários quarteirões
iG: Além de supermercados, em quais outros locais você acha que seria interessante abrir salas de cinema?
Adhemar de Oliveira: Possibilidades existem em todos os locais. Já vi cinemas em beira da estrada, shoppings, cinemas em clubes... A questão é ver qual é a taxa de ocupação desses imóveis e se eles possibilitam uma economia sadia ao cinema.

iG: Sua ideia é continuar investindo em cinemas com o perfil popular ou a rede Arteplex vai crescer também?
Adhemar de Oliveira: Para construir os cinemas da marca Cine 10, em parceria com os supermercados, criamos uma empresa específica, a Inovação Cinemas, sociedade minha com o Thierry Peronne, que tem o propósito específico de desenvolver cinemas nessas condições, com possibilidade de chegar a 200 salas. Ela não tem vínculo nenhum com a Arteplex - em comum apenas o meu nome.

iG: Quando as salas do Espaço Unibanco vão mudar de nome?
Adhemar de Oliveira: Essa questão está nas mãos do banco, que está estudando o que fazer. Vai haver um posicionamento, pois é uma área que afeta a estrutura deles.

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