"O humor é a minha salvação pessoal", afirma Bruna Lombardi

Roteirista e estrela da comédia "Onde Está a Felicidade?", atriz fala ao iG sobre a carreira e como descobriu sua veia humorística

Marco Tomazzoni, enviado especial a Paulínia |

Estrela da televisão brasileira, musa inspiradora do poeta Mario Quintana e mulher de Carlos Alberto Riccelli, Bruna Lombardi mudou de ares em "Onde Está a Felicidade?" , exibido na competição do Paulínia Festival de Cinema. De atriz dramática, ela estreia, aos 58 anos, como roteirista e protagonista de uma comédia deslavada.

De fato, ela leva jeito para a coisa. Antes da conversa com o iG , Bruna participou ao lado da equipe e do marido, também diretor, de uma coletiva de imprensa repleta de piadas. Ao lembrar que escreveu sozinha os diálogos de um programa de debates de futebol, esporte do qual não entende nada, lascou: "Devo ter psicografado. Pronto, agora a gente vende como se fosse um filme espírita".

Divulgação
Bruna Lombardi em "Onde Está a Felicidade?"

"Onde Está a Felicidade?" tem parentesco direto com as chanchadas da Atlândida, de Oscarito e Grande Othelo, e as comédias italianas, mas não deixa de lado o caráter místico que move as histórias da atriz. Ela afirma, por exemplo, que sua grande escola de humor é a vida. "As pessoas são muito engraçadas. Deus é o maior roteirista."

Na trama, Bruna interpreta uma apresentadora de TV que perde o emprego e, em crise com o casamento, resolve fazer o Caminho de Santiago de Compostela. Desta vez, o esoterismo serve só como pano de fundo para as trapalhadas dos personagens, bem diferente da parceria anterior de Lombardi e Riccelli, o drama "O Signo da Cidade" (2007), que tratava de solidão e solidariedade. O diretor afirma, inclusive, que desde o início queria abordar a peregrinação de forma despojada.

Na entrevista ao iG , Bruna Lombardi fala como foi escrever as piadas de "Onde Está Felicidade?" e de sua descoberta como comediante.

AgNews
A atriz Bruna Lombardi na estreia em Paulínia
iG: Você imaginava que iria escrever uma comédia?
Bruna Lombardi:
Eu não sabia nem se as pessoas iam rir, para dizer a verdade. Você nunca sabe nada. Mas se fosse pela mãe, ela diria, "minha filha, você é uma palhaça" [risos]. O que eu quero dizer é que amigos íntimos desde sempre acham que sou muito engraçada. O humor é a salvação da minha vida pessoal, sou tão dramática no meu dia-a-dia. Escrevi antes um filme superdenso ["O Signo da Cidade"], que batia forte nas pessoas, fiz muita gente chorar. Essa comédia é para ter esse equilíbrio no universo.

iG: Como foi estruturar o roteiro de uma comédia?
Bruna Lombardi:
A comédia tem rigor, é mais difícil do que escrever tragédia. Na tragédia você mata pessoas e já está trágico, mas a comédia requer filigranas, um trabalho de muita delicadeza. Foi bastante instintivo. Você pode fazer qualquer curso no mundo, mas não existe uma fórmula. Conheci o [roteirista] Charlie Kaufman e em "Adaptação" (2002) ele fez o roteiro pensando justamente em tudo o que não se poderia fazer, para dizer ao mundo que não existem fórmulas. Acredito nessa liberdade, que você possa fazer tudo se fizer visceralmente, com honestidade, com a melhor das intenções.

iG: O que você achou da recepção do público?
Bruna Lombardi:
Surpreendente. Não tínhamos feito nenhuma exibição pública, só testes, mas mesmo assim não fui em nenhum. Me contaram que o filme foi aplaudido oito vezes em cena... Eu não ouvi nada. Para mim, é como se eu estivesse num rodamoinho. Tem uma emoção inevitável. Por mais que você queira ser forte, desmontei ali.

iG: Alguma escola de humor te serviu de influência?
Bruna Lombardi:
A verdade, a observação. A vida é a melhor escolha de humor do mundo. Não gosto de humor preconceituoso, grosseiro, detesto. Gosto de humor escrachado, mas baseado na humanidade. Qualquer roteirista é infinitamente menor do que uma história de vida. Deus é o maior roteirista [risos]. O ser humano é muito engraçado, esse é o grande humor.

iG: O que você acha do humor feito no Brasil hoje?
Bruna Lombardi:
Torço para tudo dar certo, todo tipo de humor. Saímos de uma fase em que o cinema brasileiro em si era o gênero. Se falava "gosto de western, comédia e não gosto de cinema brasileiro". Hoje estamos num momento deslumbrante porque o cinema brasileiro é diversidade. Aqui no festival há proposta, conceito, conteúdos diferentes. Isso é lindo.

iG: "Onde Está a Felicidade?" tem nitidamente um viés comercial. Vocês se preocuparam em falar com um público maior?
Bruna Lombardi:
Não era essa a ideia, de jeito nenhum. Você não sabe nem o tamanho que projeto vai ter. Podia ser um filminho, mas de repente foi ficando maior, as pessoas se interessaram, vieram falar com a gente. A coisa foi tomando volume e virou uma grande aventura ["Onde Está a Felicidade?" é uma coprodução com a Espanha e tem orçamento de R$ 10 milhões]. A ideia era comunicar, porque comédia precisa disso, mas não ter mais ou menos público. Que mago pode responder a essa pergunta? Ninguém sabe.

iG: Você já tinha feito um papel escrachado como esse?
Bruna Lombardi:
Não. Nos papéis da televisão, sempre me ofereceram a heroína romântica. Tentei quebrar isso, mas é difícil numa protagonista de novela. Consegui quebrar, então, em várias minisséries. Fiz "Avenida Paulista" (82), em que era uma herdeira louca. Diadorim, do "Grande Sertões: Veredas" (85), em que quebrei totalmente minha figura, virei um homem mesmo. Até foi muito bom: tenho um amigo gay que fala, "pena, viu, que você não ficou naquela" [risos]. Em "Memórias de um Gigolô" (86), fazia uma prostituta. Então tentava quebrar esse rótulo, que poderia virar um personagem eterno.

iG: A televisão é um veículo que ainda te interessa?
Bruna Lombardi:
Eu gosto de televisão, acho que faz e se pode fazer coisas ótimas. Mas estou tão concentrada nesse filme agora... Se tiver um projeto que é legal, interessante, que me deixe fascinada, claro, topo. O veículo é maravilhoso. Acho, ao contrário de muita gente, que as pessoas tentam fazer coisas muito boas na TV, mas é uma indústria difícil, eles fazem milagres. Cinema, no fundo, também é assim. É demorado, mas também tem essa pressa.

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