O encontro de um bom ator com um filme medíocre

Na temporada do Oscar, uma reflexão sobre o papel de astros consagrados em produções feitas para mover a indústria de Hollywood

A.O. Scott, The New York Times |

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Nicole Kidman, indicada ao Oscar por "Reencontrando a Felicidade", em cena da comédia "Esposa de Mentirinha"
O início do primeiro semestre é a época tradicional de comemorar as boas atuações, já que as performances mais atraentes do ano anterior desfilarão diante de nossos olhos na longa marcha para a entrega do Oscar . No momento, como era de se esperar, alguns de nós, que se vêem obrigados a assistir a toda a lista de indicados para a estatueta, estão ocupados proclamando o talento artístico de Colin Firth e Annette Bening, Natalie Portman e Christian Bale. Mas, enquanto isso, no mundo real e cotidiano das salas de cinema, as poltronas devem ser ocupadas e as telas são tomadas por uma avalanche de gêneros de filmes – horror, ação, comédia romântica, aventura juvenil – que invadem os multiplexes, abdicando das considerações da Academia de Hollywood e esperando por alguns espectadores. Muitos destes filmes fazem parte de outro ritual sazonal bem menos aclamado: o espetáculo de excelentes atores atuando em filmes medíocres.

Aquela ali não é a Nicole Kidman? A mesma de “As Horas” e “Reencontrando a Felicidade”, bem mais alta que Jennifer Anniston num confronto com a atriz em um arriscadíssimo concurso de hula-hula em “Esposa de Mentirinha”? Pois é, ela mesma. Sim, aquela é mesmo a Portman, se aconchegando com Ashton Kutcher em “Sexo Sem Compromisso”. Talvez esses filmes ganhem algum prestígio com a presença de astros desse calibre, muito embora o oposto também possa acontecer.

Em todo caso, pode até ser meio divertido identificar astros eminentes em lugares tão improváveis. Mas, parece também haver uma classe especial de atores – em sua maioria homens, atravessando a meia-idade – que se especializam em tal incongruência, e talvez exista também um tipo particular de filmes que acomoda a vontade deles de brilhar em cenários tão desprezíveis.

Sem dúvida um dos prazeres de assistir a filmes como “O Ritual”, “The Eagle” e “Desconhecido” – somente para citar alguns exemplos da temporada – é a chance de ver atores como Anthony Hopkins, Donald Sutherland e Liam Neeson em ação. Hopkins resmunga, fala alto e lança um olhar furioso através de um conto meio assustador com linguagem sobrenatural incompreensível. E para não ser superado, Neeson também lança seu olhar fulminante enquanto estica os tendões do pescoço quase a ponto de rompê-los em uma história de ódio e vingança. Sutherland, em um punhado das cenas iniciais de “The Eagle”, perambula pelo filme aspirante a épico como um despreocupado membro do império romano, como se fosse um ancestral mais descontraído do professor universitário moderninho e ousado que ele fez em “Clube dos Cafajestes”. A diferença é que, desta vez, ele consegue usar a toga.

Sutherland é um daqueles atores cujo ímpeto pelo trabalho sempre atravessou a linha tênue entre o eclético e o indiscriminado. Atualmente ele também pode ser visto em “Assassino a Preço Fixo”, estrelado por Jason Statham. Dentre seus colegas, Michael Caine diminuiu um pouco o ritmo de trabalho, enquanto Gene Hackman se aposentou, mas cada um destes atores, que iniciaram a carreira no final dos anos 1960, gozou de períodos de semi-onipresença, décadas férteis quando era difícil imaginar que tipo de oferta eles recusariam.

Cada um deles teve sua parcela de papeis principais, mas, na maturidade frutífera, Hackman, Caine e Sutherland sempre foram atores que fundamentalmente criaram personagens – convidados para trazer cor e autenticidade a filmes que, talvez, de outra forma, não teriam tido tais qualidades. Em “The Eagle”, por exemplo, Sutherland funciona como uma espécie de mentor de Channing Tatun, o astro durão e taciturno, cuja busca austera para restaurar a honra de sua família conduz a narrativa. Sutherland alivia um pouco a tensão ao fazer o papel de alguém que já presenciou violência e glória suficientes para toda uma vida inteira – um epicúrio, um mestre em ironia que vive em um mundo dominado pelo estoicismo sem imaginação. Sua presença é um pequeno, e fabuloso, bônus – assim como foi em “Cold Mountain”, “Space Cowboy”, “Orgulho e Preconceito” e em diversos outros filmes.

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Sir Anthony Hopkins interpreta um padre especializado em exorcismos em "O Ritual"
No caso de “O Ritual” e “Desconhecido”, Hopkins e Neeson são os protagonistas. E se o intuito não era exatamente gerar controvérsias, é bem provável que os momentos de atuação sem arrependimento dos dois grandes astros provoquem, então, pelo menos um pouco de ceticismo. Afinal de contas, Hopkins foi um axioma dos dias de glória da produtora Merchant-Ivory (“Retorno a Howards End”, “Vestígios do Dia”), além de personificar Hannibal Lecter e Richard Nixon. Neeson, por sua vez, ocupa o topo da profissão, com suas atuações como o sexólogo americano Alfred Kinsey e do revolucionário irlandês Michael Collins, além de ter emprestado a voz a Aslan, o leão messiânico de Narnia.

O que é que atores de tamanho prestígio e estirpe estão fazendo em filmes como estes? Essa não é a primeira vez que essa pergunta vem à tona. Há dois anos, Neeson deu uma de vingador enfurecido em “Busca Implacável”– com bons resultados, vale lembrar – e Hopkins soltou seus uivos e murmúrios no mal-concebido “O Lobisomem”, no ano passado.

A suspeita é sempre que os atores aceitam tais projetos por razões mercenárias. O hábito de sentimentalizar a arte nos leva a distinguir trabalhos realizados por amor e glória daqueles cuja única motivação é o cachê. Mas seria essa uma distinção significativa ou apenas um exemplo do cinismo que é sempre o outro lado da moeda em nossa veneração aos astros de Hollywood? Afinal, mesmo que muitas vezes eles aceitem cachês inferiores por projetos “movidos a paixão”, eles não costumam trabalhar de graça, exatamente como a maioria dos mortais.

“Nenhum homem, somente algum imbecil, já escreveu alguma coisa de graça”, declarou Samuel Johnson no apogeu da imprensa no século 18. E embora um exército dos blogueiros de hoje refutem sua afirmação, pelo menos parcialmente, o princípio de profissionalismo insolente ainda é válido. Mesmo sendo bem antiga, em raríssimas vezes a profissão de ator foi considerada respeitável. E, mesmo que seus partidários possam até ser seduzidos pelo amor, eles – assim como nós – medem seu valor em moedas mais sólidas. O mundo está cheio de amadores, mas aqueles que pagamos para ver são os mesmos para quem atuar é um trabalho.

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Nicolas Cage em "Fúria Sobre Rodas": expoente máximo da máquina de Hollywood
Muito em voga atualmente, o não-profissionalismo cultural tem seus benefícios e não é somente nas estufas dos reality shows e dos vídeos virais feitos em casa. O cinema independente – tanto o americano como o estrangeiro, tanto o Mumblecore como o novo neo-realismo – foram revigorados pela honestidade e desconcerto que costumam caracterizar as apresentações sem técnica. Soltar inflexões e maneirismos aprendidos pode até oferecer algum corretivo extra aos artifícios familiares ao ofício de um ator. Mas o ofício ainda não perdeu seu apelo.

E é isso que bons atores emprestam aos filmes, mesmo aos ruins: disciplina, convicção, habilidade de ajudar a interromper nossa descrença nos fazendo acreditar que eles próprios acreditam no que estão fazendo. Quanto mais ridícula a situação, mais impressionante a proeza de parecer estar levando aquilo tudo a sério. É claro que existem outras medidas de excelência – sutileza emocional, perspicácia psicológica, sagacidade – mas este tipo de comprometimento inabalável e fanático é certamente um sinal de grandeza. Quase que podemos dizer que a excelência se mostra precisamente na discrepância entre o desempenho e o material. Se isso é verdade, então é algo como uma certeza matemática de que o melhor ator do mundo atual é Nicholas Cage.

Tal hipótese será testada na próxima sexta-feira nos Estado Unidos, quando “Fúria Sobre Rodas” entrar em cartaz nos cinemas, apenas dois dias antes da transmissão da cerimônia do Oscar 2011 . A estatueta não é nenhuma desconhecida para Cage – ele já recebeu o Oscar de melhor ator por “Despedida em Las Vegas” e foi indicado por “Adaptação”–, mas ele também já estrelou filmes de ação, fez comédia e, nos últimos anos, é o expoente mais prolífico de loucura do cinema americano.

Com algumas exceções (“Vício Frenético”, de Werner Herzog, e “O Sol de Cada Manhã” de Gore Verbinski), os críticos não aprovaram os filmes de Cage da última década, que inclui um punhado de sucessos e fracassos de diversos gêneros. Ele ancorou a franquia de ação juvenil “A Lenda Do Tesouro Perdido”, além de ter atuado em filmes de ficção científica e fantasia – como “Motoqueiro Fantasma”, “Presságio” e “O Aprendiz de Feiticeiro”. Merece uma menção “O Sacrifício”, remake de um mau gosto transcendental de um filme de horror dos anos 70, que ganhou uma fértil sobrevida como vídeo ridicularizado no YouTube.

Cage pode ter sido levado a aceitar alguns destes trabalhos por sua famosa dificuldade financeira e suas escolhas certamente deixaram alguns de seus admiradores com a pulga atrás da orelha. Mas ninguém nunca vai poder dizer que ele apenas fez uma ligação telefônica em uma de suas atuações. É muito mais provável que ele grite no telefone, ou quebre o aparelho em pedacinhos, ou faça algum outro tipo de gesto imprevisível e sublime. Em outras palavras, ele só está fazendo seu trabalho.

Tradução: Claudia Batista Arantes

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