No penúltimo dia, "Amor?" desponta como favorito em Brasília

Filme de João Jardim é o melhor longa até o momento na competição do festival

Marco Tomazzoni, enviado a Brasília |

Divulgação
Julia Lemmertz: um dos destaques do elenco
Pautada pela experimentação e por um certo déjà-vu do cinema da década de 1960, a competição do 43º Festival de Brasília finalmente viu um concorrente com uma proposta bem realizada. "Amor?", de João Jardim ("Janela da Alma", "Pro Dia Nascer Feliz") conseguiu reunir histórias reais impactantes sobre violência e um elenco afiadíssimo. O resultado, além de belo e original, ajuda a refletir sobre o conceito de documentário.

A decisão do cineasta em usar atores, como ele explicou em entrevista , está relacionada ao teor dos depoimentos. As conversas revelam abusos, uso de drogas, tentativas de assassinato e agressões, muitas agressões. Colocar isso na tela seria exposição demais, por isso mascarar o personagem atrás de um ator foi a solução encontrada.

Apesar disso, a proposta inicial de se fazer um documentário permaneceu inabalada. O grosso do filme é composto por depoimentos dirigidos à câmera, com direito a perguntas dos entrevistadores – no caso, Jardim e a jornalista Renée Castelo Branco, responsável pela pesquisa em delegacias e entidades assistenciais antes das filmagens. O resultado é a encenação fiel de um documentário. Não é um, já que os atores estão lá, mas o texto mesmo assim soa verdadeiro, uma reprodução das conversas originais.

A experiência deu certo por mérito do elenco. Sem exceção – a não ser, em parte, Ângelo Antônio, que padece da retórica teatral, pomposa de seu personagem –, os atores incorporam os textos e fazem seus os dramas relatados. A impressão que se tem é de meticulosidade na fala, com pausas, titubeações, lágrimas e livre associação de ideias, numa experiência tão radical quanto "Jogo de Cena", de Eduardo Coutinho. Palmas para Lilia Cabral, Julia Lemmertz, Eduardo Moscovis, Mariana Lima, Silvia Lourenço e todos os demais.

As histórias são uma pedrada atrás outra. A adolescente controlada pelo namorado, outra que sofria nas mãos do pai e quase foi morta por ciúme, um casal de lésbicas envolvido com drogas, o homem que continuou o histórico de agressões vivido pela mãe, agora com as companheiras. A lista é farta, dolorida e de todas as classes sociais – dinheiro e estudo, comprovam os relatos, não são garantia de uma relação saudável. Tudo é costurado por belas imagens dos entrevistados na rotina ou detalhes de seus corpos, uma espécie de respiro para o peso que impera ao longo da projeção.

Interessante é observar o grau de lucidez das entrevistas. Uns admitem não conseguir fugir da violência, por ilusão ou comodismo. Outros chegam a dizer que a agressão foi essencial para que conseguissem mudar suas vidas. É unânime, no entanto, o discurso de que a violência é latente no ser humano, está em todos nós: basta uma situação trivial e um leve descontrole para ela aflorar e se tornar, em alguns casos, quase um vício.

"Amor?" surge, assim, como estopim de uma discussão essencial sobre o tema. O fato de ser uma ficção documental, digamos, traz ainda mais atenção sobre ele – o elenco estrelado, repleto de nomes globais, vai ajudar a atrair público para o filme, muito mais do que se fosse um documentário. A plateia não deve sair nem um pouco decepcionada.

* O repórter viajou a convite do festival

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