No Festival de Brasília, ¿Os Residentes¿ radicaliza sem conteúdo

Longa na competição retoma espírito libertário sessentista, mas só fica nisso

Marco Tomazzoni, enviado a Brasília |

Divulgação
"Os Residentes", de Tiago Mata Machado
Se o segundo dia de competição no 34º Festival de Brasília trouxe a beleza de “ Transeuntes ”, a noite de sexta-feira (26) retomou o experimentalismo de “A Alegria”, exibido na estreia. O mineiro “Os Residentes”, de Tiago Mata Machado, radicaliza ainda mais e consegue a proeza de se tornar praticamente insuportável. O Cine Brasília, abarrotado até nos corredores no início, logo viu seu público cair pela metade. Não tinha gente suficiente nem para as vaias no final, que não vieram.

Mesmo público, aliás, que antes havia ovacionado o documentário em curta-metragem “Braxília”, de Danyella Proença. O filme segue o poeta Nicolas Behr em sua visão idílica e, ao mesmo tempo, decepcionada com a capital federal. As belas imagens da cidade e, em especial, o humor dos versos e da persona de Behr arrebataram a plateia, que urrava após a projeção e no início do longa-metragem.

“Os Residentes” não tem uma história bem definida, nem quer ter. Arauto do cinema anti-hollywoodiano, é composto por cenas sem uma sequência natural, apresentadas por um letreiro e uma peça de roupa colorida, pendurada numa parede branca. Aos poucos se percebe a existência de uma comunidade alternativa numa casa caindo aos pedaços, com seis adultos, uma criança e uma artista sequestrada. Os protagonistas, talvez involuntariamente, são um casal ansioso por uma vida anormal e prolixo na discussão da vida conjugal (detalhe para uma bizarra prova de amor).

O grupo se traveste de revolucionários, dá tiros com cabos de vassoura, adota um discurso político e defende que a “estética é a ética do futuro”. Fica claro porque, então, Machado só quer saber de exercitar um conceito de estilo que só ele julga relevante, da imagem pela imagem, da polêmica pela polêmica, ao longo de duas horas. A ideia era chocar o público, motivar a discussão e troca de ideias, como o ídolo Jean-Luc Godard, na Nouvelle Vague, e seus heróis no Cinema Marginal brasileiro fizeram, mas apenas imitar “A Chinesa” (1967) e o ritmo libertário de Rogério Sganzerla e Júlio Bressane não agrega conteúdo automaticamente.

Parece claro que o diretor pretendia traçar um paralelo entre a revolta dos cineastas marginais contra a ditadura, no final da década de 1960, e o enforcamento, hoje, do espaço para o cinema de autor nas salas e editais. “Os Residentes” tenta radicalizar por aí, chamar a atenção, e naufraga em suas intenções. Torna-se oco, uma carcaça estilosa, sem ideias, seca por dentro, ou, com a melhor das intenções, hermética. Lá pelas tantas, uma personagem representa o espectador e se revolta contra aquele “papo de intelectualidade”. “Volta, Bressane”, gritou alguém da plateia antes de deixar o cinema, expressando a vontade geral. Faz parte, sim, de uma nova vertente do cinema brasileiro, mas do ramo menos inspirado.

* O repórter viajou a convite do festival

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