No Brasil, Wim Wenders destaca cinema local e filmes de autor

Diretor alemão participou de conferência e entrevista coletiva em Porto Alegre

Marco Tomazzoni, de Porto Alegre |

Divulgação/Cléber Passus
Wim Wenders em palestra na capital gaúcha
No século em que as imagens são mais poderosas que as armas, a construção de uma identidade nacional e sua legitimação e projeção através do cinema se tornam imprescindíveis em um mundo em que as fronteiras foram virtualmente abolidas. A defesa de pólos cinematográficos locais e a importância do senso de lugar nas filmografias foram os principais pontos da palestra em Porto Alegre, ontem à noite, do cineasta Wim Wenders, nome mais bem sucedido comercialmente do tripé do Novo Cinema Alemão, também formado, na década de 1980, por Werner Herzog e Rainer Fassbinder. O diretor de “Paris, Texas”, “Asas do Desejo” e “Buena Vista Social Club” participou na capital gaúcha da série de conferências “Fronteiras do Pensamento” e viaja em seguida para Salvador, onde o evento se repete na quarta-feira (20), na companhia do brasileiro José Padilha.

Com uma vasta cabeleira grisalha e usando botas de caubói, Wenders entreteve o público que lotou o Salão de Atos da UFRGS ao revelar a motivação dos principais longas-metragens de sua carreira e saborosos bastidores das filmagens, como a briga no set de “O Amigo Americano” entre o ator alemão Bruno Ganz e o norte-americano Dennis Hopper, que recém havia finalizado “Appocalipse Now”. Conhecido por dirigir “road movies” e filmes de personagens recheados de conflitos existenciais, em constante trânsito, Wenders contou que sua paixão por viagens começou na juventude, após crescer na Alemanha devastada pela Segunda Guerra Mundial, país “sem esperança e com a vergonha pesando nos ombros”.

Autodenominado viajante por profissão, Wenders explicou que existem dois tipos de cineastas: os que filmam a vida inteira em uma mesmo região, como Federico Fellini e Yasujiro Ozu, e outros que ultrapassam fronteiras. Em ambos, no entanto, o senso de lugar é essencial. “Acredito que se pode ouvir o que um lugar tem a contar porque, no final, não somos nós que criamos nosso mundo, mas o mundo que nos cria”, argumentou. Nesse sentido é que destacou, ao alertar políticos e governantes, a importância do cinema local. “É preciso que eles compreendam o quanto nossa cultura vai depender no futuro do senso de lugar e identidade, da necessidade de filmar nossas fronteiras em um mundo cada vez mais sem fronteiras”, defendeu, pouco antes de exibir um curta-metragem documental sobre a violência contra as mulheres na República Democrática do Congo, aplaudido com fervor pela platéia.

À tarde, em entrevista coletiva, o alemão – que veio ao Brasil acompanhado de sua esposa, a fotógrafa Donata Wenders – já havia demonstrado seu aguçado senso crítico. Professor na Alemanha, disse lecionar apenas em escolas de arte, pois considera que as academias de cinema têm o currículo em geral voltado para o mercado. “Nas escolas de arte, entendemos o cinema através de uma concepção muito mais ampla, com filmes experimentais e documentários, e de vez em quando alguém resolve ser cineasta. Não acredito em regras, como os cursos de cinema. Não conheço receitas, nunca as segui e por isso meus alunos devem preferir ser autores do que empregados da indústria cinematográfica.”

Presidente do júri do próximo Festival de Veneza, no final do mês, Wenders vai repetir a experiência que teve em Cannes, em 1989, uma das “melhores de sua vida”, segundo ele, quando a estréia de Steven Soderbergh, “Sexo, Mentiras e Videotape”, levou a Palma de Ouro. O diretor disse estar muito ansioso e, entusiasmado, afirmou que provavelmente vai se deparar com vários filmes captados em tecnologia digital, sendo que a palavra nem existia nos dicionários há 20 anos. “A tecnologia digital aumentou enormemente o vocabulário do cinema, não só em termos de efeitos e manipulação, mas por permitir que jovens diretores e documentaristas trabalhem com muito mais liberdade do que a minha geração, além de, ao lado dos formatos de 16 e 35mm, por exemplo, se integrar a toda uma gama de opções”, explicou.

Apesar de animado com a viagem à cidade italiana, Wenders deixou bem claro seu descontentamento com a recepção em Cannes de seu último filme, “Palermo Shooting”. Retomando a parceria com Dennis Hopper, o diretor retrata o encontro entre um fotógrafo e a morte em pessoa, no que descreveu como um “longa-metragem metafórico”. A obra, no entanto, não foi bem aceita pela crítica especializada. “Como a morte é um tabu no cinema, tive as piores críticas da minha vida, o que confirmou essa teoria. Você pode ver um filme com várias mortes, mas ao falar sobre ela o assunto se torna desconfortável.” Pouco depois, ao comentar sobre o esmero na escolha da trilha sonora de seus trabalhos, voltou a mostrar rancor: “às vezes queria fazer um filme como uma canção de rock, mas infelizmente filmes são maiores e não aceitam tabus”.

Do cinema brasileiro, Wenders disse ser fã de Glauber Rocha (o qual encontrou em Sintra, duas semanas antes de sua morte) e amigo de Walter Salles, de quem conhece toda filmografia. Admitiu ter visto recentemente “Cinema, Aspirinas e Urubus”, de Marcelo Gomes, perto de sua casa em Berlim, talvez pelo filme ser uma co-produção com a Alemanha. “Acredito que existe um cinema brasileiro muito atuante e vigoroso, mas preciso correr atrás para assistir aos filmes que não foram exibidos na Europa.”

Quanto à chance de voltar a filmar na América Latina, repetindo sua experiência em território cubano, o alemão deixou em aberto, ao afirmar que saberá quando chegar a hora de fazê-lo. “Buena Vista Social Club”, por exemplo, surgiu uma semana antes do projeto começar de fato. Wenders falou mais sobre o terreno das possibilidades horas depois, à noite, mostrando que surpresas fazem bem a seu trabalho. “Uma das maiores experiências na vida de um cineasta é fazer filmes para os quais não se está preparado”, sentenciou.

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